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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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Venezuela é a repetição histórica das estruturas autoritárias

"A história mostra que intervenções externas raramente são motivadas por altruísmo democrático", escreve a colunista Sara York

Fumaça sobe de explosões em Caracas, Venezuela, em 3 de janeiro de 2026, nesta captura de tela obtida de um vídeo obtido pela Reuters (Foto: Vídeo obtido pela Reuters/via REUTERS)

Quando Donald Trump reconheceu Juan Guaidó como “presidente legítimo” da Venezuela, em 2019, o gesto foi apresentado como uma defesa da democracia. No entanto, a história – e a literatura – mostram que esse tipo de intervenção não é novidade. Trata-se de uma estrutura autoritária recorrente, que atravessa séculos sob diferentes discursos: civilização, ordem, liberdade, democracia.

A literatura política e ficcional registra com precisão esse mecanismo, que poder que se arroga ao direito de decidir, de fora, quem deve governar um povo?

Napoleão e a soberania sequestrada

Um dos paralelos históricos mais evidentes está na invasão napoleônica da Espanha, em 1808. Napoleão Bonaparte declarou o rei Fernando VII incapaz de governar, forçou sua abdicação e nomeou seu próprio irmão, José Bonaparte, como rei da Espanha. O argumento era familiar, havia uma incapacidade do governante local e a suposta necessidade de “salvar” o país.

Francisco de Goya, em Os Desastres da Guerra (1810 – 1820), registrou em gravuras o que a retórica iluminista de Napoleão produziu na prática: violência, fome, corpos mutilados e uma população submetida à ocupação estrangeira. A obra mostra que quando a soberania é substituída por tutela externa, a barbárie costuma vir junto.

Shakespeare e a moral do golpe

Em Júlio César (1599), William Shakespeare desmonta a lógica clássica do autoritarismo disfarçado de virtude. Brutus e os conspiradores assassinam César não por ambição declarada, mas sob o argumento de que é preciso eliminá-lo para salvar a República Romana. O resultado é o oposto do prometido: guerra civil, instabilidade e concentração ainda maior de poder.

A lição é que toda violência política se apresenta como gesto moral quando precisa convencer. O reconhecimento de um presidente paralelo na Venezuela segue essa tradição retórica: não seria intervenção, mas “libertação”.

Não é sobre gostar ou não de Maduro

Aqui é preciso ser honesto – intelectual e politicamente.

Você pode não gostar de Nicolás Maduro. Eu não gosto. Mas não é sobre isso.

Não se trata de afinidade ideológica, simpatia pessoal ou avaliação moral de um governante. Trata-se da Venezuela como país soberano, sendo alvo de interesses estrangeiros muito bem definidos. A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, segundo dados da OPEP, e nenhuma análise séria pode ignorar esse dado material.

A história mostra que intervenções externas raramente são motivadas por altruísmo democrático. Elas se organizam em torno de recursos estratégicos, rotas geopolíticas e controle econômico. A retórica de “levar democracia” costuma funcionar como verniz moral para aquilo que, na prática, é expropriação de riquezas e submissão de um povo.

Não se invade, desestabiliza ou tutela um país por amor à democracia. Faz-se isso para controlar o que ele possui.

Essa estrutura histórica ganha contornos ainda mais graves no presente. Neste sábado, dia 3, o governo venezuelano solicitou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, após denunciar um ataque militar dos Estados Unidos. Autoridades norte-americanas afirmaram ter capturado o presidente Nicolás Maduro, o que eleva o conflito a um novo patamar de gravidade institucional e diplomática.

Independentemente da veracidade ou dos desdobramentos imediatos do episódio, o gesto político é revelador e evidencia que a soberania venezuelana é novamente tratada como descartável, e a legalidade internacional, como obstáculo secundário diante de interesses estratégicos – entre eles, o petróleo venezuelano, reiteradamente cobiçado por Washington e explicitamente mencionado por Trump ao longo de seu mandato.

A cena se repete: primeiro a deslegitimação simbólica, depois a exceção jurídica, por fim a força militar.

O ditador latino-americano e o aval externo

A literatura latino-americana conhece bem esse roteiro. Em O Outono do Patriarca (1975), Gabriel García Márquez constrói um ditador que não governa sozinho: ele é sustentado por interesses internacionais que precisam de sua permanência no poder. O romance expõe como o autoritarismo interno frequentemente depende de conivência externa.

Mario Vargas Llosa, em A Festa do Bode (2000), mostra como a ditadura de Rafael Trujillo, na República Dominicana, foi mantida por décadas com apoio direto dos Estados Unidos. A soberania nacional ali é uma farsa institucional, o poder real está fora das fronteiras.

Essas obras ajudam a compreender que intervenções como as protagonizadas pelos Estados Unidos na Venezuela não rompem com o autoritarismo – elas o reorganizam em escala global.

Brasil: a exceção que se torna regra

Em Memórias do Cárcere (1953), Graciliano Ramos revela como o autoritarismo se sustenta pela exceção permanente. Sempre há uma ameaça, uma crise, uma urgência que justifica suspender direitos e silenciar vozes.

Esse mesmo vocabulário reaparece nas intervenções internacionais contemporâneas: “crise humanitária”, “estado falido”, “ilegitimidade institucional”. Como Graciliano ensina, a exceção nunca se anuncia como exceção; ela se apresenta como necessidade histórica.

A história não esquece

A literatura mostra, com insistência, que o autoritarismo não se repete apenas na figura do ditador local. Ele retorna, sobretudo, na pretensão de grandes potências decidirem, de fora, o destino de povos inteiros. Quando um presidente estrangeiro nomeia outro presidente – ou afirma capturá-lo – não inaugura uma nova política: apenas reencena, com nova linguagem e novas armas, uma velha fantasia imperial.

Não é sobre Maduro.

É sobre a Venezuela.

É sobre soberania.

É sobre petróleo.

E é sobre uma história que insiste em se repetir – porque muitos fingem não conhecê-la. A repetição histórica das estruturas autoritárias.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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