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Ronaldo Lima Lins

Escritor e professor emérito da Faculdade de Letras da UFRJ

293 artigos

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A morte não aceita escusas

A morte, assim, pode se mostrar pior do que os inimigos de Maquiavel

Donald Trump, 27 de Janeiro de 2026 (Foto: REUTERS/Jonathan Ernst)

Em O Príncipe, Maquiavel adverte contra os perigos que implicam a existência de inimigos. Mesmo no ostracismo, eles possuem artimanhas que, quando menos se espera, voltam para ameaçar o dirigente. Não se pode ter complacência com eles. É preciso eliminá-los. Foram necessários anos de experiência com o sistema democrático para que aprendêssemos a transformá-los em adversários e entendêssemos que a transferência de poder, de tempos em tempos, se revelaria saudável. Já a morte se mostra diferente. Natural, a pós-modernidade a evita, não sem certo tremor na espinha, quando se trata de parentes e pessoas queridas. Coloca-a à parte, em seus próprios territórios, e se esforça por esquecê-la, a não ser na memória, quando fica às vezes por bastante tempo, retornando à mente em momentos inesperados.

Provocada, muda de figura. Lateja, incomoda, reclama, protesta. Insiste em se fazer predominante, apesar dos esforços por parte de quem a provocou, com suas mentiras e escusas, caras ou baratas. A MORTE, assim, pode se mostrar pior do que os inimigos de Maquiavel. Pode sacudir e ameaçar governos solidamente constituídos, sobretudo aqueles que, convencidos de sua potência, julgam-se acima da Lei. Donald Trump está vivendo uma oportunidade semelhante. Fez e aconteceu na política exterior. Bombardeou inocentes dizendo que se tratavam de traficantes no Caribe. Não satisfeito, numa ação bombástica, invadiu a Venezuela, um país soberano, e sequestrou o seu dirigente máximo. Exibiu-o como troféu diante da sociedade americana. As acusações de narcotraficante, forjadas para justificar a medida, tiveram de cair por terra. A farsa não tinha como chegar tão longe.

Mas o pior se deu, internamente, com a ostentação de truculência do ICE, subjugando, prendendo e algemando, dos pés à cabeça, imigrantes que, em alguns casos, ali viviam e trabalhavam há anos, contribuindo para a economia da nação, com vizinhos e amigos em toda parte. Na ânsia de apresentar serviço, aqueles tipos, armados até os dentes, inspirados pela Gestapo nazista, começaram a vitimar cidadãos norte-americanos. Sobreveio a MORTE... Primeiro, de Renee Nicole Good, uma mulher que apenas passava pelo local. Em seguida, de Alex Pretti, enfermeiro de um hospital de veteranos conhecido pela dedicação e bondade com os pacientes. O que o zunzum da oposição não obtivera, agora se ostentou como inadmissível. Gente que nunca se expressa sobre a política vigente, ex-presidentes, Kamala Harris, a ex-vice de Biden e candidata derrotada no pleito anterior, vieram a público para declarar sua indignação. Não se intimidaria frente a um ‘assassinato brutal’ como aquele.

Como se um clique! houvesse despertado a população, ela começou a sair às ruas em passeatas. Na Filadélfia, em Mineápolis, em Nova York, em São Francisco, em Washington, DC... as multidões ergueram os braços e gritaram NÃO! A truculência tem de acabar. Mas como, se ela representa a essência, aquilo que mais é caro ao presidente em exercício? Com o poder econômico que possui, cercado de milionários, imagina que se coloca acima do bem e do mal. Engana-se. A MORTE, esta senhora irascível, despertada pelos seus assessores, não se inclinará, enquanto não saciar sua fome de justiça. Para Lula, é um mau momento para comparecer à Casa Branca. Tergiverse. Não diga que sim nem que não. Mas não vá. Lá estão os eflúvios da velha senhora ainda frescos para se aproximar dela...

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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