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Ricardo Nêggo Tom

Músico, graduando em jornalismo, locutor, roteirista, produtor e apresentador dos programas "Um Tom de resistência", "30 Minutos" e "22 Horas", na TV 247, e colunista do Brasil 247

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A polícia virou caso de polícia

Treinados para matar, seus agentes agem com frieza, covardia, prazer e sentimento de heroísmo, desabafa Ricardo Nêggo Tom

Policiais militares de São Paulo (Foto: Pablo Jacob/Governo do Estado de SP)

O assassinato de Thawanna Salmázio, de 31 anos de idade, mãe de cinco filho, e moradora de Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo, mostra uma ação covarde e deliberada cometida por uma agente de segurança do Estado que foi treinada para impor a morte sob a égide da ordem e do respeito. O que vemos nos vídeos que circulam nas redes sociais, é o puro suco do fascismo institucional que permeia uma força de segurança que nos dias de hoje deveria servir e proteger a toda população, mas que está presa ao passado colonialista e escravocrata que deu origem a sua criação pelas mãos de Dom João VI.

 

Analisando a linguagem corporal de Yasmin Cursino Ferreira, a policial que assassinou Thawanna, e os cumprimentos e continências que os colegas de farda ofereceram a ela ao chegarem ao local, observamos a sensação do dever cumprido, e o sentimento heróico de ter abatido mais um cidadão com perfil periférico e indesejável à elite burguesa a qual a PM deve satisfações. Enquanto Thawanna agoniza no chão clamando por socorro, os agentes se reúnem em volta de seu corpo para se certificar de que ela irá morrer, ao invés de lhe prestarem socorro. Um deles ainda aponta o fuzil em sua direção, como se ameaçasse lhe dar mais um tiro se ela ousasse a sobreviver.

 

É a celebração da morte patrocinada pelos cidadãos e cidadãs deste país, que através do dinheiro de seus impostos pagam o salário desses policiais militares, e de todos os outros agentes de segurança do Estado brasileiro. Mas estamos pagando para eles nos matarem? E o Estado? O que diz sobre isso? Afinal, ele é o responsável pela conduta desses agentes. Se a PM está sendo treinada para matar cidadãos, a ordem está partindo do Estado e dos governadores responsáveis pela política de segurança pública adotada. Neste caso, o tiro que matou Thawanna não foi disparado apenas pela policial Yasmin. Os dedos do governador Tarcísio de Freitas, do secretário de segurança e do Comandante da PM, também acionaram o gatilho.

 

A soldado tem apenas 21 anos de idade, e poderíamos dizer que ela foi mal treinada e não tinha preparo técnico e equilíbrio emocional para estar nas ruas. Assim como tantos outros policiais brasileiros. Poderíamos dizer, se não soubéssemos o tipo de treinamento que é aplicado a esses policiais no período de formação. A intenção é desconstruí-los e torná-los desesperadamente insensíveis ao ponto de eles deixarem de se reconhecer como pessoas, como gente, como seres humanos. Uma vez adquirido o espírito selvagem que a instituição julga necessário para representá-la, esses agentes são enviados para as ruas onde irão demonstrar todo o seu aprendizado nos corpos pretos e periféricos que encontrarem pela frente.

 

Esse processo de desumanização dos policiais através da formação que eles recebem, precisa ser debatido com seriedade e urgência. Estamos criando monstros fardados. Robôs armados agindo sob apenas um comando: matar. O mais triste nisso tudo, é que em meio a tantas iniciativas de combate à violência contra as mulheres, nos estamos vendo uma mulher matar outra com tamanha covardia, frieza, ódio e desprezo. Um desprezo que a autoridade dada pelo Estado faz esses policiais sentirem pela população. Sobretudo, a mais pobre. A atuação da polícia militar no Brasil virou caso de polícia. Basta compararmos o número de mortes causadas pela ação policial em outros países, para chegarmos a esta conclusão. Mas quem irá nos defender dessa polícia que aí está?

 

Para quem enxergar algum exagero no que escrevo com relação a polícia brasileira, busquem se informar com relação a letalidade policial em outros países do mundo e vocês verão que Benjamin Netanyahu é um pacifista perto de alguns governadores de estados brasileiros. Na Alemanha, por exemplo, foram registradas 17 mortes causadas por policiais em 2025. Cinco mortes a menos do que o ano anterior, onde foram registradas 22 mortes por intervenção policial. A Itália, que tem um dos índices mais baixos de mortes por intervenção policial na Europa, registrou 14 mortes causadas pela polícia, entre 2016 e 2024. Na Bélgica, foram 8 mortes cometidas por policiais em 2025, enquanto a Holanda registrou 79 mortes por policiais entre 2016 e 2025. Na Inglaterra, foram duas mortes cometidas por policiais entre 2024 e 2025. Já a Noruega, com base nas pesquisas realizadas até abril de 2026, não havia registrado mortes causadas por ações da polícia norueguesa durante o ano de 2025.


 

Por outro lado, só no ano de 2025, o estado de São Paulo chegou a 834 mortes causadas pela ação da polícia. No mesmo ano, o Rio de Janeiro registrou 797 mortes por intervenção policial, enquanto que a Bahia – governada pelo PT há mais de 10 anos – registrou 1569 mortes pelas mãos da polícia em 2025. Apenas 62 mortes a mais do que São Paulo e Rio de Janeiro juntos. Uma curiosidade nos dados da segurança pública no Brasil, é que Santa Catarina, o estado tido como o mais fascista do país, fechou o ano de 2025 com 100 mortes causadas por intervenção policial. Esse foi o maior número registrado na série histórica da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-SC), iniciada em 2008. A polícia brasileira é uma das mais letais do mundo, e uma sociedade dita civilizada não pode seguir naturalizando números tão absurdos e criminosos como esses. Do contrário, um de nós pode ser a próxima vítima. E o último que sobrar acende a vela e reza pelas almas de todos que se foram. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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