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João Antonio da Silva Filho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito e é conselheiro do Tribunal de Contas do município de São Paulo

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A política e o pragmatismo desvirtuado

Uma crítica ao pragmatismo político que distorce o interesse coletivo e aprofunda desigualdades em sociedades contemporâneas

São Paulo (SP) - 21/09/2025 - Bandeira do Brasil durante ato contra a PEC da Anistia e da Blindagem, no MASP (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

Dois autores de referência no pensamento ocidental partem de premissas fundamentais para compreender o poder e a política. Aristóteles, cerca de 350 anos antes da era cristã, já afirmava que o ser humano é, por natureza, um ser social. Para ele, por decisão voluntária ou por necessidade, homens e mulheres tendem a viver em comunidade — daí a consagrada ideia do homem como “animal político”.

Dois milênios depois, Norberto Bobbio reforça essa compreensão ao sustentar que a política é uma necessidade inerente à condição humana. Defensor da democracia como o melhor instrumento para a composição das diferenças, Bobbio advertia que desigualdades extremas são incompatíveis com regimes democráticos. E deixou um alerta que ressoa de forma inquietante: “a tendência natural do Estado é ocultar-se”.

A organização dos povos em cidades — das antigas pólis às modernas metrópoles — decorre dessa necessidade de convivência. Viver em coletividade é resultado de um longo processo histórico, que exige instituições sólidas, regras e mecanismos capazes de ordenar a vida comum. Daí emergem o Estado organizado, as normas de convivência e o esforço coletivo voltado à superação das limitações individuais — especialmente por meio de políticas públicas que busquem uma melhor distribuição das riquezas produzidas pela sociedade.

Entretanto, a trajetória humana também revela tensões. A ideia de que o homem nasce naturalmente bom, mas é desviado pelo meio e pelos hábitos, ajuda a compreender o surgimento de condutas marcadas pela ambição, pelo egoísmo e por um individualismo competitivo que fragiliza a vida em comunidade. Essa lógica, quando transportada para o campo político, distorce sua finalidade essencial.

A política, que deveria ser instrumento de realização do interesse coletivo, passa, não raramente, a servir a uma elite pragmática, cujo objetivo central é a acumulação de riqueza — ainda que à custa de profundas desigualdades e exclusão social. Nesse cenário, o pragmatismo deixa de ser virtude de adaptação à realidade e se converte em justificativa para práticas que afastam a política de sua função precípua — a construção de uma sociedade humanizada e fraterna.

Combater esse tipo de pragmatismo é condição indispensável para resgatar o sentido mais elevado da política. Não se trata de negar a necessidade de decisões práticas, mas de submeter a ação política a princípios éticos e ao compromisso com o bem comum.

No Brasil, essa tensão é histórica. Desde a colonização, os povos originários foram forçados a ceder suas terras, a se submeter à imposição de uma cultura externa e, sobretudo, a enfrentar a lógica de uma racionalidade econômica voltada à acumulação material sem limites. Esse traço, enraizado em nossa formação, ainda projeta seus efeitos sobre as estruturas políticas e sociais contemporâneas.

Resgatar a política como instrumento da sociedade — e não de interesses restritos dos mais “espertos” — exige mais do que reformas institucionais. Exige uma mudança de mentalidade: a reafirmação de que a vida coletiva só se sustenta quando orientada por valores de justiça, solidariedade e equilíbrio entre interesses individuais e a necessidade de uma vida coletiva harmônica. Fora disso, a política deixa de ser solução de composição social e passa a ser instrumento de incentivo à ambição competitiva.

Em tempos de profundas transformações econômicas, tecnológicas e sociais, reafirmar o compromisso com uma política voltada ao interesse público não é apenas desejável — é indispensável.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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