A submissão de Ancelotti e a decepcionante convocação de Neymar
Após festiva pipocada, podemos dizer que o mister é o mais brasileiro dos italianos, critica Ricardo Nêggo Tom
Tendo como cerimônia de abertura uma pantomima que parecia ter sido organizada pelos mesmos roteiristas de “Dark Horse”, a CBF ofereceu uma festa estranha e com muita gente esquisita ao meio do futebol, para desfazer a dúvida que rondava a mente dos torcedores brasileiros: Neymar vai ou não disputar a copa do mundo de 2026? O mistério foi desfeito após o anúncio da lista dos 26 jogadores que irão representar a seleção brasileira na competição. O técnico Carlo Ancelotti cedeu a pressão e ao lobby feito por alguns jornalistas, ex-jogadores, e até jogadores da atual seleção, que deram entrevistas recentemente pedindo a convocação do jogador do Santos.
Quando eu digo que Ancelotti cedeu a pressão, me baseio na leitura que fiz desde que o italiano assumiu a seleção até esta atual convocação, onde ele nunca havia convocado Neymar e não demonstrava nenhuma empolgação com tal possibilidade. Até porque, o futebol que o jogador vem apresentando nos últimos quatro anos de sua tão vitoriosa como polêmica carreira, não o credencia a estar na lista. Em que pese Neymar seja, indiscutivelmente, o maior craque formado no futebol brasileiro nos últimos 15 anos, o meu principal questionamento quanto a sua convocação é o fato de ele não estar conseguindo ter uma sequência de jogos, e nem ser decisivo atuando pelo Santos.
No último domingo, Neymar assistiu de dentro do campo a um verdadeiro baile do Coritiba sobre o Santos. O jogo já estava 3x0 para o time paranaense ainda no primeiro tempo, e o craque santista não conseguia fazer absolutamente nada para ajudar na reação de sua equipe. Sem contar as vexatórias atuações do time santista na Sul-Americana diante do desconhecido Recoleta, onde Neymar teve mais duas atuações pífias. O que faz Ancelotti acreditar que um jogador que não conseguiu ser decisivo no campeonato paulista, onde viu seu time ser eliminado pelo Novorizontino, na fraca fase de grupos da Sul-Americana e num campeonato brasileiro onde apenas duas equipes – Flamengo e Palmeiras – brigam, de fato, pelo título?
Ancelotti, visivelmente, trai suas convicções e cede a uma pressão que o iguala a Tite, Dorival Júnior, Fernando Diniz, e a qualquer outro técnico brasileiro, que também seriam reféns de Neymar e o convocaria em qualquer circunstância. A minha curiosidade é saber como o italiano irá gerir o ambiente da seleção com a presença do menino mimado e de todo o estafe que costuma acompanhá-lo em copas do mundo. Terá Ancelotti moral para impor limites a Neymar e seus agregados dentro das instalações da seleção? Nenhum outro técnico, até então, conseguiu essa façanha. Outro ponto, é como Neymar irá receber uma possível condição de reserva na equipe. Uma experiência que ele nunca vivenciou dentro da seleção, e que pode criar um atrito entre jogador e comissão técnica.
De tão mal gosto quanto a festa organizada pela CBF, com direito a close em Luciano Huck festejando a convocação de seu “parça”, foi todo o apelo patético pela convocação de um jogador que não está jogando absolutamente nada, mas que alguns ainda acreditam que pode ser decisivo numa copa do mundo. Se não foi nas últimas três copas em que participou, e estava em plena forma, por que seria agora quando se arrasta em campo? Falemos ainda da falta de comprometimento de Neymar com o futebol nos últimos anos, quando ele dizia que não precisava provar mais nada para ninguém, e se destacava mais em aparições de campeonato de pôquer e eventos com celebridades, do que dentro das quatro linhas. Como o respeitável Carlo Ancelotti, tido como um dos maiores treinadores do mundo, se prestou a tamanha humilhação de convocar um jogador que nunca esteve aí para o que o técnico da seleção pensava sobre o seu comportamento profissional?
Para terminar, lembro que Neymar, mesmo tendo chegado como a maior contratação da história do PSG, foi expulso da França pelos torcedores da própria equipe, que foram até a porta da sua casa exigir a sua saída do país. Mesmo algum tempo após a sua saída do clube, torcedores ainda exibiam faixas no estádio Parque dos Príncipes celebrando o fim da passagem do jogador pelo PSG. Uma prova de que sua arrogância e estrelismo não são tolerados por quem tem amor ao futebol. Por mais que ele seja um craque. Diferente da torcida do Santos, que ouviu Neymar dizer que faz até mais do que deveria pelo clube, e aceitou calada o desrespeito do jogador pela grandeza da instituição. O mito de que Neymar agrega ao grupo só é absorvido por quem nunca soube ler as entrelinhas na história de sua carreira desde o início.
Com apenas 18 anos, Neymar mandou Dorival Júnior – então técnico do Santos - ir tomar no c., em plena Vila Belmiro, diante de quem quisesse ouvir. Foi nesse jogo que Renê Simões eternizou a frase “Estamos criando um monstro”, que vira e mexe ecoa em nossos ouvidos e faz a nossa mente pensar na assertividade da sua profecia. Ancelotti está pagando para ver esse “monstro” de perto, talvez acreditando que possa mantê-lo sob controle. Um erro crasso de um treinador que já deveria ter experiência suficiente para conhecer os bastidores do futebol. Ancelotti não só conseguirá enquadrar Neymar, como também pode acabar perdendo um grupo onde todos os jogadores já se revelaram fãs e tietes do jogador. Qualquer indisposição entre ambos, não é difícil imaginar de que lado os jogadores ficarão mais próximos. E também não é difícil imaginar que o hexa ficará mais distante.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




