Abandonos, traições e a ética na política em Santa Catarina
Entre abandonos e traições, episódios recentes expõem a fragilidade das alianças e o rebaixamento da ética na política catarinense contemporânea
A política é sempre um território de disputas, negociações e rearranjos. Mas existe uma diferença essencial entre a disputa legítima e a degradação ética das relações. Em Santa Catarina, episódios recentes envolvendo lideranças da extrema direita revelam algo mais profundo do que simples divergências de estratégia eleitoral: evidenciam o quanto a régua ética que mede uma parte significativa da política catarinense se tornou curta.
A filosofia clássica ajuda a entender esse fenômeno. Em A República, Platão sustenta que a política deveria ser orientada pela justiça, entendida como a harmonia entre as partes da cidade e da alma. Para ele, governar exige virtude — sobretudo prudência, coragem e temperança —, qualidades que impedem que interesses particulares se sobreponham ao bem comum. A ética, nesse sentido, não seria apenas um conjunto de regras, mas uma disposição de caráter que orienta as ações públicas.
A moral, para Platão, é justamente o conjunto de valores que molda esse caráter. Quando a moral dominante privilegia lealdade, justiça e responsabilidade, as instituições se fortalecem. Quando privilegia oportunismo e conveniência, o resultado é a corrosão da confiança.
Outro pensador que ajuda a iluminar esse debate é Aristóteles, discípulo de Platão. Em sua Ética a Nicômaco, Aristóteles afirma que a política é o espaço onde se busca o bem comum e que as virtudes morais — como a honestidade e a lealdade — são adquiridas pela prática. Ou seja, a ética pública não nasce de discursos, mas de comportamentos reiterados.
O que se observa hoje em Santa Catarina vai na direção oposta.
O episódio que pode ser visto como a primeira pincelada nesse quadro é o abandono do governador Jorginho Mello a seu secretário de Planejamento e ex-prefeito de Balneário Camboriú, Fabrício Oliveira. Depois de meses de exposição política e de expectativas criadas em torno de sua projeção estadual, Fabrício foi simplesmente deixado à deriva no tabuleiro eleitoral. Abandono levado a cabo em troca de apoio a outro personagem que publicamente já havia traído o governador e ameaçado abandoná-lo: a traição sendo premiada com o abandono de outrem.
Outro caso emblemático ocorreu em Florianópolis. O prefeito Topázio Neto decidiu, à luz do dia, abandonar o candidato ao governo de seu próprio partido, João Rodrigues. A ruptura não foi apenas estratégica; foi simbólica, pois revelou a fragilidade das alianças intrapartidárias quando confrontadas com cálculos pessoais.
Como se não bastasse, o MDB catarinense também foi surpreendido. O partido já havia negociado a vaga de vice-governador na chapa de Jorginho Mello, apenas para ver o acordo ser atropelado por novos arranjos de conveniência. Na política, negociações podem mudar, mas, quando compromissos assumidos são descartados sem qualquer pudor, a palavra pública perde valor.
Talvez o gesto mais simbólico tenha sido a facada nas costas aplicada no veterano Esperidião Amin. Depois de anos de proximidade política, o apoio lhe foi retirado para abrir espaço a um candidato ao Senado vindo de fora do estado — alguém que, sem um GPS, teria dificuldade até de atravessar uma quadra longe da orla catarinense.
Somados, esses episódios revelam um padrão. Não se trata apenas de divergências estratégicas, mas de uma cultura política marcada por abandonos e traições sucessivas.
Platão diria que, quando a moral dominante se deteriora, a política passa a ser governada por apetites e interesses imediatos, e não pela razão. Aristóteles acrescentaria que a política deixa de ser a busca do bem comum para se transformar em uma arena de ambições pessoais.
É justamente isso que parece acontecer em setores majoritários da direita catarinense. A régua ética é curta porque reflete uma moral igualmente estreita — uma moral em que a conveniência momentânea vale mais do que a palavra empenhada.
No fim das contas, a pergunta que fica é simples: se a lealdade não vale entre aliados, o que pode esperar o cidadão comum? Na política, como na filosofia antiga, caráter não é detalhe. É fundamento.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



