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Jean Paul Prates

Ex-senador e ex-presidente da Petrobras

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Adam Smith, 250 anos depois: entre o pensamento original e os mitos do mercado

A obra de Smith contém argumentos que podem ser mobilizados não apenas em defesa dos mercados, mas também em defesa de instituições públicas fortes

Adam Smith (Foto: Reprodução)

Em março de 1776, um professor escocês de Filosofia Moral da Universidade de Glasgow publicou um livro que mudaria profundamente o debate sobre economia e prosperidade. An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, conhecido simplesmente como A Riqueza das Nações, de Adam Smith, tornou-se uma das obras fundadoras da economia política moderna.

Duzentos e cinquenta anos depois, Smith continua sendo citado com frequência, mas raramente é lido com o cuidado que merece. Ao longo do tempo, muitas de suas ideias foram reduzidas a slogans ideológicos, frequentemente utilizados para sustentar interpretações simplificadas do funcionamento da economia.

Smith escrevia em um contexto muito específico: o declínio do mercantilismo europeu e o início da Revolução Industrial. Seu objetivo era compreender como as sociedades produzem riqueza e quais instituições favorecem esse processo.

Entre suas contribuições mais conhecidas está a análise da divisão do trabalho, ilustrada pelo famoso exemplo da fábrica de alfinetes. Smith demonstrou que a especialização das tarefas aumenta dramaticamente a produtividade e permite expansão da produção e do comércio.

Outro ponto central de sua obra é o papel dos mercados na coordenação das atividades econômicas. Ao buscar seus próprios interesses dentro de regras claras, indivíduos e empresas acabam contribuindo para resultados socialmente úteis.

Mas o ponto mais frequentemente ignorado por interpretações ideológicas é o terceiro: o papel indispensável das instituições públicas. Smith não defendia a ausência do Estado. Ao contrário, reconhecia explicitamente funções essenciais do poder público: garantir justiça, segurança, infraestrutura e educação — áreas nas quais o mercado, por si só, tende a falhar.

É justamente aqui que surgem algumas das distorções mais repetidas no debate contemporâneo.

Na retórica de parte da direita econômica global, inclusive no Brasil, Smith costuma ser apresentado como defensor de um laissez-faire absoluto, como se tivesse proposto uma economia totalmente livre de Estado. Essa leitura não encontra respaldo no texto original.

Smith criticava privilégios, monopólios e cartéis — frequentemente protegidos pelo Estado mercantilista de sua época. Mas isso não significava negar a importância do Estado; significava defender instituições públicas mais eficientes e menos capturadas por interesses privados.

Outro equívoco comum envolve a famosa expressão “mão invisível do mercado”, frequentemente apresentada como se fosse uma teoria universal da autorregulação econômica. Na realidade, Smith utilizou essa expressão apenas de forma pontual. Ela nunca aparece em sua obra como justificativa para eliminar regulação, política pública ou ação estatal.

A transformação dessa metáfora em dogma ocorreu muito depois, sobretudo no século XX, quando determinadas correntes do pensamento econômico passaram a utilizá-la como símbolo de uma visão ideológica de mercado autorregulado.

Nesse contexto, costuma-se também apresentar Adam Smith como o “oposto” de John Maynard Keynes. Essa oposição, porém, é historicamente equivocada.

Smith escreveu no século XVIII, no início da economia industrial. Keynes escreveu no século XX, após a Grande Depressão, quando o capitalismo já enfrentava crises macroeconômicas complexas. Eles não eram contemporâneos nem tratavam exatamente dos mesmos problemas.

Na verdade, Keynes não rejeitava a economia clássica de Smith. Seu objetivo era corrigir uma lacuna importante: explicar por que economias de mercado podem entrar em recessões prolongadas e exigir intervenção macroeconômica do Estado.

Enquanto Smith estava preocupado com os mecanismos de geração de riqueza e produtividade, Keynes analisava os problemas de instabilidade, desemprego e insuficiência de demanda agregada nas economias modernas. Não são rivais diretos. São pensadores de momentos diferentes da evolução do capitalismo.

Curiosamente, quem mais perde ao abandonar a leitura de Adam Smith é a própria esquerda.

Smith foi um crítico severo de monopólios, de privilégios corporativos e da captura do Estado por interesses econômicos organizados. Ele alertava que empresários frequentemente se reúnem “mesmo que para diversão”, mas acabam conspirando contra o público ao restringir a concorrência. Também reconhecia os efeitos sociais negativos da extrema divisão do trabalho sobre os trabalhadores — razão pela qual defendia a educação pública como política essencial.

Esses elementos mostram que a obra de Smith contém argumentos que podem ser mobilizados não apenas em defesa dos mercados, mas também em defesa de instituições públicas fortes, competição justa e proteção contra abusos de poder econômico.

Ler Smith de forma madura significa, portanto, evitar duas armadilhas: transformá-lo em ícone de um mercado sem Estado ou descartá-lo como um autor ultrapassado associado apenas ao liberalismo econômico.

Se há uma lição duradoura em A Riqueza das Nações, ela está no esforço de compreender como instituições, incentivos e organização social moldam a prosperidade das sociedades.

Duzentos e cinquenta anos depois, talvez a melhor homenagem a Adam Smith seja simplesmente esta: lê-lo de verdade — e não usá-lo apenas como argumento de autoridade em debates ideológicos.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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