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Carlos Castelo

Jornalista, sócio-fundador do grupo Língua de Trapo, um estilo sem escritor

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Advogado do Diabo

Aliás, pensando bem, Lúcifer deve estar até satisfeito com o desempenho da humanidade

Templo de Lúcifer (Foto: Reprodução)

Sempre achei curioso que o Diabo tenha uma reputação tão sólida sem jamais ter contratado um assessor de imprensa. Em um mundo onde até político pego com dinheiro na cueca consegue dar entrevista dizendo que tudo não passou de um mal-entendido, Satã continua sendo julgado pela versão da oposição.

E que oposição.

Durante séculos, padres, pastores, monges, rabinos e até aquele tio que cita o Apocalipse no churrasco têm repetido a mesma coisa: o Diabo é responsável por tudo que há de ruim. Se alguém mente, é o Diabo. Se alguém trai, é o Diabo. Se alguém comeu a última fatia de pizza escondido às três da manhã, também foi ele.

Imagino o demônio sentado em algum escritório mal iluminado do inferno, navegando na internet e balançando a cabeça.

— Eu não mandei ninguém comer aquela pizza.

Porque, admitamos, o Cão nunca teve direito ao contraditório. Nenhum repórter desceu ao inferno para perguntar:

— Senhor Satã, o que tem a dizer sobre essas acusações?

É claro, existe o detalhe de que o inferno é quente demais para coletivas de imprensa. Mas, se algum jornalista corajoso resolvesse peitar a coisa, acredito que a entrevista seria bem pragmática.

— O senhor tentou Eva com uma maçã?

— Eu apenas sugeri um lanche. A decisão final foi dela.

— E quanto às tentações humanas?

— Eu ofereço opções. As pessoas fazem o resto.

Visto assim, o Diabo parece menos um gênio do mal e mais um consultor de decisões ruins. Algo como um coach motivacional do pecado.

Outra injustiça histórica é o marketing visual. Anjos sempre aparecem em pinturas renascentistas com pele luminosa, harpas e roupas esvoaçantes. Belzebu, por outro lado, foi condenado a passar a eternidade com chifres, rabo e expressão de quem acabou de pisar num caco de vidro.

Ninguém perguntou se ele aprovava esse design.

Quem sabe ele preferisse algo mais discreto. Um terno cinza. Um ar de ministro de Estado. Algo que combinasse mais com o tipo de tentação moderna, que raramente envolve tridentes e quase sempre está ligada a paraísos fiscais.

Aliás, pensando bem, Lúcifer deve estar até satisfeito com o desempenho da humanidade. No começo ele precisava se esforçar: serpentes falantes, contratos de alma, pactos dramáticos à meia-noite.

Hoje em dia basta abrir as redes sociais e esperar.

As pessoas fazem o resto sozinhas.

Deve gerar uma certa frustração profissional. Imagine estudar séculos de artes da tentação, desenvolver técnicas sofisticadas de corrupção moral, e descobrir que os humanos conseguem se meter em confusão sem ajuda de ninguém.

Nesse cenário, o Diabo está se tornando obsoleto.

Ele deve estar sentado em sua mesa no inferno, acompanhando o noticiário, suspirando e dizendo:

— Antigamente, eu precisava trabalhar para isso.

Vai ver que, por tal razão, ele nunca faz questão de se defender. Não vale a pena discutir quando os humanos já estão fazendo um trabalho tão eficiente por conta própria.

No fundo, o Cramulhão talvez seja apenas o bode (expiatório) mais antigo da história. E o único que nunca teve direito a um advogado.

O que é curioso. Principalmente porque quase todo mundo já citou o nome dele em sua própria defesa.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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