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Reimont Otoni

Deputado federal (PT-RJ), vice-líder do PT na Câmara dos Deputados e membro da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Casa

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Ainda sobre PowerPoints, manipulações e mentiras

Em respeito à verdade, à informação e ao povo brasileiro, que não pode ser enganado

Ainda sobre PowerPoints, manipulações e mentiras (Foto: Divulgação )

Qualquer PowerPoint enfrenta um desafio: é limitado, tem que ser conciso, objetivo e com critérios rigorosos. Por isso, se eu fosse fazer um PPT sobre o Banco Master e suas conexões, me concentraria nos fatos e personagens que viabilizaram a ascensão do esquema de fraude bilionária montado por Daniel Vorcaro e Fernando Zettel (seu sócio e cunhado), que aparentemente comandavam a instituição, e em quem faturou com o esquema, de acordo com as investigações até agora.

Aliás, para fazer um PPT do caso Master, eu usaria dois slides: um sobre a ascensão e outro sobre a queda do esquema. Seria mais ou menos assim:

Ascensão e queda do Banco Master

Slide 1 - A ascensão: quem ajudou a construir o Master

Figuras:

Daniel Vorcaro – por óbvio

Fabiano Zettel - sócio e cunhado de Vorcaro, pastor na Igreja Batista da Lagoinha, apontado como responsável por intermediar e operacionalizar pagamentos relacionados às atividades do Master. Segundo a Polícia Federal, teria recebido R$ 485 milhões da Super Empreendimentos, empresa suspeita de servir de canal de pagamentos à suposta milícia privada do grupo e a agentes públicos.

Jair Bolsonaro – estabeleceu regras e flexibilizações que permitiram a Vorcaro sair do quase zero, com o Banco Máxima, adquirido em 2019, para a aparente potência do Master. Foi recompensado com a maior doação feita por uma pessoa física na campanha de 2020, com o envio de 3 milhões de reais via Zettel.

Roberto Campos Neto – presidente do Banco Central (BC) de Bolsonaro, desde 2019 e com mandato até 2024. Recebeu Vorcaro 24 vezes. Aprovou regras mais “flexíveis” para a operação de instituições financeiras e não apurou as denúncias internas que apontavam fragilidades na estrutura de ativos e na liquidez do Master. Depois que deixou o cargo, virou vice-chairman do Nubank, empresa que tem a Globo Ventures (do grupo Globo) como sócia.

Paulo Sérgio Neves de Souza (ex-diretor de Fiscalização) e Belline Santana (ex-chefe de departamento) – ex-diretores do BC acusados de atuar como "consultores privados" de Vorcaro, em troca de pagamento mensal.

André Valadão – líder da Igreja Batista da Lagoinha, hoje fechada. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras registra um repasse de R$ 3,897 milhões realizado pelo Master em favor da Amando Vidas Produtora e Gravadora Ltda., vinculada ao pastor.

Ibaneis Rocha – então governador do Distrito Federal, autorizou o banco público de Brasília, o BRB, a comprar R$ 12 bilhões em títulos do Master antes da liquidação. O prejuízo pode chegar a R$ 5 bilhões de dinheiro público.

Tarcísio de Freitas – governador pelo Republicanos, na campanha de 2022, recebeu 2 milhões de reais de Vorcaro, a maior doação individual do estado. Eleito, vendeu por 10% do valor estimado a empresa pública EMAE/Empresa Metropolitana de Águas e Energia ao Fundo Phoenix FIP. Logo após, a EMAE comprou R$ 160 milhões em debêntures do banco.

Claudio Castro – então governador pelo PL do Rio de Janeiro (renunciou ontem para tentar escapar da Justiça Eleitoral), é investigado por investir no Master cerca de R$ 1 bilhão do Rioprevidência, fundo de pensão dos servidores estaduais e seus familiares, mesmo após pareceres contrários do Tribunal de Contas do Estado. O Rioprevidência atuou praticamente como o único cotista do banco até a liquidação, em dezembro de 2025. Em outubro do mesmo ano, o investimento registrava um retorno negativo de R$ 12,87 milhões!

Ciro Nogueira – senador pelo PP, apresentou ao Congresso a apelidada 'Emenda Master', que impediria a liquidação do banco. Vorcaro chegou a comemorar, mas a proposta foi rejeitada.

Nikolas Ferreira – o deputado do PL, frequentador da Igreja da Lagoinha, fez mais de dez viagens de campanha no jato particular de Vorcaro, na campanha de 2022, em movimentação não declarada à Justiça Eleitoral.

Slide 2 - A queda: quem acabou com a farra

Figuras:

Lula – presidente da República, acabou com a farra do Master. Em dezembro de 2024, convocou ministros e o recém-nomeado presidente do BC, Gabriel Galípolo, para uma reunião que Vorcaro tentou realizar só com ele e avisou que o governo lidaria tecnicamente com a questão, via Banco Central. No âmbito do governo, proibiu o Master de operar com consignados do INSS e convocou a Polícia Federal para investigar o caso, e o BC, respeitando a independência das instituições.

Gabriel Galípolo – já como presidente do BC, decretou a liquidação extrajudicial do Master e de várias empresas do mesmo grupo. Vetou a compra do BRB pelo conglomerado de Vorcaro. Abriu uma auditoria interna para apurar falhas na supervisão anterior e mudou a estrutura de fiscalização do BC. Identificou fraudes do Master, incluindo cerca de 250 mil contratos de crédito consignado suspeitos, e uma "pífia" base de caixa (apenas R$ 4 milhões) frente a dívidas altas, como ele próprio definiu. Atua em parceria com a PF.

Andrei Rodrigues – diretor-geral da PF. Sob o seu comando, a Polícia Federal vem realizando sucessivas operações de investigação sobre o Banco Master.

Seria basicamente assim o meu PPT. A falta de simetria numérica entre o slide 1 e 2 talvez seja um problema, mas um bom designer resolve, acredito. Só pediria que não usasse recursos visuais primários, em respeito a quem fosse assistir.

Mas o conteúdo seria absolutamente verdadeiro, sem fake news, mentiras, manipulações ou calúnias. Só com base nos fatos até aqui apurados e públicos. Também em respeito à verdade, à informação, a quem fosse assistir e ao povo brasileiro, que não pode ser enganado.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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