Alta rotatividade na EBC, baixo compromisso com a comunicação pública
O problema é que neste momento a EBC precisa desesperadamente de fortalecer seu jornalismo
O Presidente Lula acaba de nomear o quinto presidente da EBC no atual mandato. Dessa vez foi nomeada uma mulher, a segunda depois de mim: Antônia Pellegrino, que desde 2023 ocupava a diretoria de Programação e Conteúdo. A instabilidade na EBC, infelizmente, sugere que a consolidação do sistema público de comunicação deixou de ser prioridade para o presidente Lula, e que o jornalismo não importa, para Lula e seu ministro Sidônio, como elemento formador de uma cidadania crítica na democracia. Quem está em festa é o audiovisual e suas produtoras: Antonia é roteirista e representa o setor.
De 2023 para cá passaram pelo cargo Kariane Costa, como interina, Hélio Doyle, Jean Lima e Basbaum, sem contar a curta interinidade de Bráulio Ribeiro, após a saída de Lima. Tive esperanças na gestão de Doyle, que durou nove meses. Embora portador dos predicados para o cargo, não lhe deram as condições fundamentais para governar a empresa, como a escolha dos diretores. Jean Lima foi um estranho no ninho, mas Basbaum me esperançou, porque é do ramo e parecia ter projeto. Após sete meses no cargo, saltou para um posto de comando na TV Record.
A EBC tornou-se tão irrelevante nos últimos tempos que trocas em seu comando já nem são noticiadas pela chamada grande mídia. Só nos veículos independentes de esquerda este assunto desperta interesse, provocando quase sempre frustração e preocupação.
Dentre todos os presidentes que a EBC já teve, apenas eu cumpri o mandato de quatro anos, e isso reflete, mais que algum mérito meu, o compromisso que o governo Lula 2 tinha para com a EBC. Refiro-me a Lula e também a Franklin Martins, que era o ministro-chefe da Secom. Para Paulo Pimenta e Sidônio Palmeira, ocupantes da Secom no atual mandato, a gestão da EBC parece ser um fardo, e não a obrigação de um governo democrático, a de financiar e prover a radiodifusão pública independente.
Agora vem Antônia Pellegrino, que desejava o cargo desde o início do governo. Espero sinceramente que ela faça uma boa gestão e não repita erros por outros cometidos nos anos posteriores a 2011. São tantos que não posso falar de todos num artigo.
Foi um erro juntar numa mesma diretoria Programação e Conteúdo, atribuições que eu havia separado. Em televisão, quem produz não deve ser quem programa, e esta é uma premissa técnica consensual. Ocupando tal diretoria Antônia foi operacional, lançou um grande edital, criou alguns programas novos, ainda que eu não aprecie alguns. O problema é que neste momento a EBC precisa desesperadamente é de fortalecer seu jornalismo, e ela não é jornalista. Espero que consiga suplantar isso.
Não é de programas temáticos que mais precisam, hoje, os canais da EBC, em particular a TV Brasil. O jornalismo está debilitado em todos os canais da empresa: na TV pública, na Agência Brasil, que trabalha bem com seus parcos recursos mas poderia fazer muito mais, e nas rádios, que continuam fragmentadas.
A relevância da TV Brasil não virá com programas de entretenimento, que a TV comercial faz bem. TVs públicas existem para serem complememntares, oferecendo programação diferenciada, tratando o telespectador como cidadão.
A relevância virá com programas que valorizem a boa informação, que fomentem o debate público das questões mais relevantes, que incluam no noticiário temas ignorados pelas mídias comerciais, que dêm voz aos “sem mídia”, que expressem a diversidade de nosso pais e de seus problemas, trazendo os sotaques e as notícias de todas as regiões.
A EBC é grande e é complexa. Geri-la não é para amadores. Para ter êxito no desafio de resgatar a empresa de sua atual irrelevância, a nova dirigente não pode ter apenas olhos de roteirista ou produtora audiovisual. Não poderá permitir que recursos da empresa sejam capturados pelas produtoras do setor, embora seja importante manter a parceria com a produção independente. O cargo exige força política para brigar por orçamento e enfrentar restrições que sejam impostas pelo Governo. Exige sensibilidade para lidar com quase dois mil funcionários e prestadores de serviços. Requer a busca de audiência mas sem perder a relevância. Sem apelar para comunicadores como Datena. Exige compromisso com uma programação diversificada mas também com o jornalismo que combate a desinformação e persegue a verdade.
Não sei o que o ministro Sidônio espera de Antonia Pellegrino mas sei o que esperam todos aqueles que são comprometidos com o futuro da comunicação pública em nosso país: que ela fortaleça a Agência Brasil e as rádios mas, sobretudo, que ela salve a TV Brasil. E isso significa ter coragem para exigir do governo as condições e os recursos para dotar a emissora pública de uma rede própria, pondo fim à canibalização de seus canais.
Para quem não entende o que estou dizendo, e o tema é hermético mesmo, esclareço: a TV Brasil tem canais próprios apenas no Rio, Brasília, São Luiz e São Paulo, os de meu tempo na presidência. Instalamos São Paulo com muita luta. Alguém acha que uma televisão assim vai longe, vai se tornar conhecida e conquistar audiência? Falam em rede pública referindo-se às emissoras educativas e similares que reproduzem alguns programas da TV Brasil. Conversa para boi dormir. Rede é o que têm as TVs comerciais: uma mesma programação chegando a todo o país.
Desde que Temer fez sua intervenção criminosa na EBC, após derrubar Dilma, os canais da EBC que deveriam estar sendo instalados, começaram a ser cedidos a universidades e quetais. E o pior: o governo Lula continuou e continua praticando esta canibalização. Já são dezenas de canais cedidos. De televisão e de rádio também. Isso é criminoso, presidente Lula. É uma sabotagem ao projeto de uma TV pública relevante que o senhor patrocinou em 2007.
A lei garante à EBC uma rede nacional de canais digitais. Mas isso exige dinheiro, investimento pesado. Flavio Gonçalves, presidente da TVE da Bahia, quando foi convidado a presidir a EBC apresentou como condição a garantia de um bilhão de reais para ele montar a rede própria. Impossível, disse Sidônio. E depois disso outros tantos canais já foram cedidos a terceiros.
Espero que Antônia compreenda tudo isso. Espero que ela desfrute de boas condições para gerir a EBC e coloque a comunicação pública acima de qualquer conveniência.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



