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Luis Pellegrini

Luís Pellegrini é jornalista e editor da revista Oásis

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Amor em queda livre: Trump vira ‘ex’ até para Giorgia Meloni

A “culpa” de Meloni foi ter defendido Leão 14

Giorgia Meloni (Foto: REUTERS/Remo Casilli)

“Você é uma jovem mulher muito bonita”, disse Donald Trump a Giorgia Meloni, primeira ministra da Itália, durante a chamada Cúpula da Paz de Gaza, em Sharm el-Sheikh, às margens do Mar Vermelho, em 13 de outubro de 2025. Palavras de apreço ditas em tom não apenas político, e já no dia seguinte a primeira ministra era apresentada como interlocutora privilegiada da Casa Branca na Europa.

Agora, poucos dias depois dos ataques de Trump ao Papa Leão 14, o idílio parece encerrado, talvez de forma definitiva: “Estou chocado com ela, pensei que tivesse coragem, me enganei”, disse Donald aos jornais italianos. “Ela não quer nos ajudar com a OTAN, não quer entrar na guerra, não quer nos ajudar a nos livrarmos das armas nucleares. É muito diferente do que eu pensava, não é mais a mesma pessoa, e a Itália não será mais o mesmo país: a imigração está matando a Itália e toda a Europa”.

A “culpa” de Meloni - política da extrema direita e aliada de Trump desde as primeiras horas do seu governo - foi ter defendido Leão 14, ainda que após um inteiro dia tirado “para refletir”. Giorgia disse que as considerações de Trump em relação ao Papa eram inaceitáveis. No domingo, (12 abril) Trump vociferou contra Leão 14, chamando-o de “fraco no combate ao crime e péssimo em política externa”. Acrescentando que o pontífice “só foi colocado lá por sua causa” e que ele está prejudicando a Igreja Católica...

Como se não bastasse, no dia seguinte o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, fez eco ao chefão e chamou atenção em um evento do Turning Point USA ao fazer uma fala sobre o papa Leão 14. Segundo ele, o papa deveria “ ter mais cuidado ao falar sobre questões de teologia”. E mais: “Certamente há coisas que o papa disse nos últimos meses das quais eu discordo. Vou dar um exemplo bem concreto relacionado a esse conflito no Irã. (...) Ele disse que Deus nunca está do lado daqueles que empunham a espada”.

Tudo isso fez o Sumo Pontífice, que está em visita oficial à Argélia, reagir de imediato, dedicando palavras inequívocas à situação internacional: “O coração de Deus está dilacerado pelas guerras, pelas violências, pelas injustiças e pelas mentiras. Ele não está com os malvados nem com os prepotentes”.

A Itália é uma nação essencialmente católica. Parte dos italianos pode até brincar com a figura do Papa, e no país sempre correram soltas inumeráveis piadas - algumas bem irreverentes e até mesmo cabeludas – sobre o pontífice. Mas, para os italianos, ele é patrimônio e orgulho nacional, e só aos italianos são permitidas tais liberdades. Qualquer estrangeiro que ousar cometer uma falta de respeito do gênero será execrado. Foi o que aconteceu: imediatamente todo o Parlamento do país - esquerda e direita de mãos dadas - de imediato hipotecou solidariedade pluripartidária ao Papa e à Primeira Ministra. A começar por Elly Schlein, chamada de “anti-Meloni”, deputada e nova secretária do Partido Democrata com 54% dos votos: “Condenação firme ao ataque do presidente Donald Trump à primeira ministra Meloni por ter expressado, como era seu dever, solidariedade ao papa Leão. Somos adversários nesta Casa, mas somos todos cidadãos italianos e não aceitaremos ofensas, ataques ou ameaças ao governo e ao nosso país”.

E assim, enquanto na América até mesmo os conservadores católicos e o universo MAGA ficam perplexos com os comportamentos “blasfemos” do próprio ídolo e líder supremo (que chega a se comparar a Jesus usando uma imagem devocional gerada por inteligência artificial), na Itália e na Europa o abalo político é forte, também impulsionado pela queda, na Hungria, do soberanista por excelência e pró-russo Viktor Orbán. Tendo perdido em poucos dias dois dos seus principais aliados no mundo, ainda atordoada pela derrota interna no recente referendo sobre a magistratura, Giorgia Meloni precisa encontrar rapidamente um reposicionamento antes de ser esmagada pelo centro e pela direita.

Ao mesmo tempo, em seu próprio país, Donald Trump é agora abertamente chamado de doido e psicopata por boa parte da grande imprensa norte-americana. Pior: as patologias do presidente se difundem na sua administração e em todo o país. Em artigo que acaba de ser publicado no New York Times, os articulistas Jonathan Rauch e Peter Wehner afirmam que Trump esta transformando os EUA num Estado psicótico: “O país mais poderoso do mundo agora raciocina em modo caótico e parece ter perdido contato com a realidade, como demonstra a gestão da guerra com o Irã.” E Rauch e Wehner não param aí: “Há tempos já percebemos que o presidente Trump possui uma mente desorganizada e uma personalidade caótica. O que saltou aos olhos nos últimos meses, e particularmente nas últimas semanas, é que as patologias do presidente produziram um efeito cascata no interno da sua administração. Esses desmandos estão institucionalizados. Esse é o motivo pelo qual, com frequência, essa administração não age com coerência e não alcança seus objetivos. Neste segundo mandato de Donald Trump o mundo precisa enfrentar algo de novo, desconcertante e apavorante: um Estado psicótico.

Quanto a Donald Trump, os analistas discutem agora se atacar o Papa e posar de Jesus Cristo foi mais um tiro no pé. A imensa maioria acha que sim – e não por uma razão moral abstrata, mas por cálculo político equivocado bastante concreto.

Quando Donald Trump se deixa associar, direta ou indiretamente, à imagem de Jesus Cristo, ele entra num terreno delicado até mesmo para sua base.

Primeiro, mesmo entre eleitores evangélicos - que foram essenciais para a eleição de Trump - existe uma diferença clara entre ver um político como “escolhido” ou “instrumento” e vê-lo surgir, em sua própria rede social, quase como uma figura messiânica e ainda mais auto-ungida. Quando essa linha é cruzada, parte da base reage com desconforto ou rejeição.

Segundo, há o risco de parecer caricatural. Trump sempre operou bem nos exageros, mas a associação com Cristo soa menos como força e mais como descolamento da realidade. Isso oferece munição fácil para adversários e pode afastar eleitores moderados, que já são sensíveis a sinais de personalismo excessivo.

Terceiro, reforça uma narrativa perigosa para ele próprio. Se antes Trump era visto como um líder “imperfeito, mas útil” (especialmente para pautas conservadoras), esse tipo de imagem empurra sua figura para algo mais absoluto - e, paradoxalmente, mais frágil. Quanto mais alta a pretensão simbólica, maior a queda quando surgem contradições. Os deuses punem a arrogância, afirmavam os antigos gregos. Mas acho que Trump nunca ouviu falar disso.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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