Inglaterra em mutação: como os Verdes capturaram a fúria que o sistema ignorou
A ascensão verde no Reino Unido revela menos sobre ecologia e mais sobre um vazio: o de uma esquerda que, ao se moderar, deixou de falar com quem mais precisava
Na Inglaterra, o Partido Verde (Green Party of England and Wales) vive no momento um salto histórico: as afiliações passaram de cerca 70 mil para mais de 200 mil em poucos meses. Esse crescimento é em parte explicado pela recente vitória (em fevereiro último) da candidata verde Hannah Spencer na eleição suplementar (by-election) no distrito Gorton & Denton, na região de Manchester. Nesse pleito os verdes obtiveram 40,7% dos votos; os trabalhistas (Labour) 25,4% e os partidários do Reform UK 28,7%. Com 4.400 votos de vantagem, trata-se da primeira vitória dos verdes numa eleição parlamentar desse tipo.
Atualmente, o Partido Verde da Inglaterra tem apenas 5 deputados na Câmara dos Comuns do Parlamento britânico. Ainda é um número pequeno (o Parlamento tem 650 cadeiras), mas representa o maior grupo parlamentar verde da história do Reino Unido. E, mais importante, indica uma tendência de crescimento.
Para muitos analistas ingleses e europeus o dado em si não impressiona isoladamente. O que impressiona é isto: vieram de apenas um deputado durante anos; cresceram rapidamente; permanecem crescendo e agora começam a vencer eleições competitivas. Em uma frase: Os Verdes ainda são pequenos no Parlamento britânico - mas, pela primeira vez, deixaram de ser irrelevantes. A vitória em Gorton & Denton não foi apenas uma eleição local - foi o momento em que os Verdes passaram de partido de nicho para ator relevante no poder britânico.
Para jornalistas políticos, como o italiano Antonello Guerra, correspondente em Londres do jornal La Repubblica, mérito ainda maior do sucesso dos verdes é o do seu líder, o jovem de 43 anos Zack Polanski. Seus vídeos, que viralizam nas redes inglesas, “são um hino à esperança dos excluídos e das classes mais desfavorecidas. Mas também evocam a nostalgia da velha Inglaterra - a Inglaterra de esquerda, operária e comunitária - que habitava as periferias onde Zack corre, corre, como num angustiante filme de Kassovitz.”
Sua corrida claustrofóbica é uma metáfora da vida contemporânea: “Você corre e trabalha como um desesperado, e ainda assim não tem dinheiro nem para pagar as contas. Pare de correr, olhe ao redor - isso não é uma vida digna…”, proclama Polanski em suas mensagens.
“Os vídeos de Polanski são pequenas obras-primas de direção e roteiro, opina Antonnello Guerra. Não por acaso, viralizam online. Judeu pró-Palestina, gay assumido, desdentado, vegano, abstêmio, vestido com roupas de segunda mão, Polanski mudou o partido desde que assumiu a liderança (2025). Tornou o discurso mais direto, emocional e “popular”; misturou ecologia com justiça social e econômica; passou a falar de salário, custo de vida, desigualdade - e não só de mudança climática. Resultado: o partido deixou de ser “ambientalista” e virou um polo político completo de esquerda.
Na verdade, o Partido Verde inglês se transforma a cada dia em um novo partido de esquerda radical. Sob a liderança de Polanski, os Verdes britânicos se afastaram da predominância quase absoluta dos temas ambientais - suas origens nos anos 1970, quando eram conhecidos como People Party. Hoje são, sobretudo, o novo partido da esquerda radical no Reino Unido. Suas propostas incluem: taxação pesada dos ricos; redistribuição de riqueza; imposto patrimonial anual (1% acima de £10 milhões; 2% acima de £1 bilhão); renda básica universal; universidade gratuita; apoio financeiro maior a migrantes e refugiados; legalização de todas as drogas, inclusive pesadas; independência do País de Gales e da Escócia; oposição à OTAN e ao arsenal nuclear britânico.
Claro, a Polanski não faltam críticas. Para a imprensa conservadora e de direita, como o jornal Telegraph, ele não passa de um “idiota útil de Putin”. Mas para observadores mais isentos (e mais atentos) Polanski e seguidores capturam várias insatisfações ao mesmo tempo.
O crescimento do partido não vem de um grupo só. Os Verdes estão atraindo jovens (especialmente entre 18–30); trabalhadores frustrados com o custo de vida; eleitores pró-Palestina e minorias; parte dos sindicatos, historicamente ligados ao Labour. Ou seja: os Verdes estão montando uma coalizão nova, que o Labour perdeu.
O próprio estilo de Polanski começa a ser descrito como uma estratégia de “eco-populismo”: direto, anti-elite, emocional, centrado em injustiça social.
O que isso realmente significa? Em termos simples: Os Verdes não são a causa, são o sintoma. Eles estão crescendo porque: o centro político perdeu força; a esquerda tradicional perdeu identidade; há uma séria crise de representação. Os verdes ingleses estão deixando de ser um partido ambientalista para se tornar o novo canal de expressão da insatisfação social - ocupando o espaço que a esquerda tradicional abandonou.
Como explica ainda Antonnello Guerra, “Há momentos em que um fenômeno político não deve ser lido pelo que diz ser, mas pelo que revela. A ascensão meteórica dos Verdes britânicos sob a liderança de Zack Polanski é um desses casos. Não se trata apenas de um partido que cresce. Trata-se de um sintoma - e talvez de um presságio.
Porque essa “onda verde” não é exatamente verde.
Ela é, na essência, a reencarnação de uma esquerda que havia perdido sua linguagem, sua coragem e, sobretudo, sua razão de existir.
Durante anos, a esquerda europeia institucional fez um movimento silencioso, porém devastador: trocou o conflito pela gestão, a transformação pela moderação, o povo pelos mercados. Tornou-se uma administradora eficiente do status quo. E, ao fazê-lo, deixou órfão o seu próprio eleitorado.”
É nesse vazio que surge Polanski. Não como novidade, mas como retorno. Seus vídeos - quase manifestos visuais - dizem o que já não se ouve nos parlamentos: que trabalhar não basta, que o sistema não fecha, que a vida contemporânea se tornou uma corrida sem chegada. Ao propor “tornar a esperança algo normal novamente”, ele não apresenta uma ideia original. Ele apenas devolve ao discurso político algo que havia sido banido: a promessa. E prometer, hoje, é um ato revolucionário.
“Mas, finaliza Guerra, há um detalhe crucial - e inquietante. O programa dos Verdes britânicos não é apenas ambicioso; é, em muitos aspectos, irrealizável. Taxar fortemente os ricos, instituir renda universal robusta, expandir massivamente o gasto público, romper com estruturas geopolíticas como a OTAN - tudo ao mesmo tempo - não é apenas difícil. É estruturalmente contraditório dentro da lógica econômica vigente. E ainda assim, funciona. Por quê? Porque o eleitorado já não busca coerência. Busca sentido.”
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



