Influenciadores do MAGA abandonam Trump: “Ele acabou, está em declínio mental”
A crise atual tem um catalisador claro: a política externa
Podcasters e apoiadores do magnata presidente agora convidam os republicanos a se distanciarem dele, também tendo em vista as eleições de meio de mandato de novembro. E citam pesquisas que o colocam em um mínimo histórico de 33%. Enquanto isso, a apresentadora trumpista Megyn Kelly acusou a administração americana de esconder o número real de soldados mortos e feridos na guerra contra o Irã.
Alex Jones, um dos mais populares podcasters americanos de extrema direita, é um dos quer abandonaram Trump. Durante seu programa The Alex Jones Show, ele o definiu como “acabado” por causa de seu declínio mental, e convidou os eleitores a “cair fora” antes das próximas eleições de meio de mandato, previstas para novembro. Jones, 52 anos, conspiracionista de longa data e um dos apoiadores mais fiéis do magnata que virou presidente, comparou Trump, 79, ao próprio avô, falecido após sofrer de demência. “Ele morreu mentalmente um ano antes de morrer fisicamente”, acrescentou Jones, referindo-se ao avô.
O podcaster descreveu Trump em “queda livre” e convidou os candidatos republicanos a se distanciarem do presidente antes das eleições para a renovação do Congresso. “Quando seus tornozelos incham até três vezes o tamanho original, significa insuficiência cardíaca. E ele parece realmente doente. Gagueja e, todos nós podemos perceber, parece que o cérebro dele não está funcionando muito bem”, acrescentou.
“Então simplesmente abandonamos Trump e nos mobilizamos contra os democratas. Ele não é mais o homem que era no ano passado - continuou Jones - e devemos ficar tristes por isso, não é uma coisa divertida, mas ele já era.”
“Todas as pessoas ao redor dele, como Pete Hegseth (chefe do Pentágono), estão em pânico. Dá para ver que a porta-voz Karoline Leavitt está em pânico, mas são leais e acham que, no fim, ele é o mal menor. Mas eu digo que é preciso intervir e fazer com que Trump faça uma pausa”, afirmou Jones. Ele também citou uma pesquisa da Universidade de Massachusetts segundo a qual o índice de popularidade de Trump caiu para 33%. “Esses são números reais - disse - vejo isso nas ruas. Seis meses atrás ele estava em 56%, o mais popular de todos os tempos.”
A intervenção de Jones segue a de Joe Rogan, outro importante podcaster de direita, que nas últimas semanas definiu como “loucura” o conflito com o Irã. “As pessoas se sentem traídas”, acrescentou Rogan.
Por seu lado, Andrew Schulz, apresentador do podcast Flagrant, outra voz da base trumpista, criticou asperamente o presidente por permitir que agentes de imigração cobrissem o rosto com máscaras.
Para completar o quadro, há também a acusação contra Trump feita por uma de suas mais fiéis apoiadoras, a ex-apresentadora da Fox News, Megyn Kelly, que acusou o presidente de esconder o verdadeiro número de vítimas da guerra com o Irã. O número oficial é de 13 soldados mortos e pelo menos 12 gravemente feridos no ataque de 27 de março à base aérea de Prince Sultan, na Arábia Saudita. No total, os feridos desde o início da guerra seriam trezentos. Mas Kelly não acredita nesse números. “O presidente Trump está sempre dizendo que estamos adiantados no cronograma, como com o salão de festas da Casa Branca, mas aqui estamos falando de soldados americanos que estão morrendo. Temos oficialmente treze homens e mulheres mortos e vinte e cinco gravemente feridos. Mas o que isso significa? Perderam membros? Sofreram traumatismo craniano? Não nos dizem. Muitas informações importantes sobre essa guerra foram amplamente censuradas.”
“Nem sequer conhecemos o verdadeiro número de mortos - continuou - e não sabemos como todos esses aviões foram abatidos.” Kelly não apresentou provas para sustentar sua hipótese, mas há semanas a administração Trump é acusada de não fornecer informações de forma transparente.
O próprio chefe do Pentágono, Hegseth, havia criticado a mídia americana por relatar a morte dos soldados, afirmando que “deveriam se concentrar em celebrar os sucessos militares”, e não as perdas humanas
A revolta de influenciadores da galáxia MAGA contra Trump é o mais recente fenômeno que se insere em um momento negativo para o presidente, em queda acentuada nas pesquisas de opinião pública. A verdade é que, no momento, o MAGA está em guerra consigo mesmo. É como se o criador perdesse o controle da criatura. Durante anos, o movimento que se formou em torno de Donald Trump foi vendido como um bloco monolítico - uma massa coesa, visceral, movida por lealdade quase religiosa e amplificada por um ecossistema digital disciplinado. Essa imagem começa a rachar. Não com o estrondo de uma ruptura, mas com o ruído persistente de uma dissidência que cresce por dentro.
O que vemos agora não é o abandono de Trump pelos influencers do MAGA. É algo bem mais complexo e mais perigoso: uma disputa pelo controle da narrativa e da identidade do próprio movimento.
A crise atual tem um catalisador claro: a política externa. O envolvimento em um novo conflito no Oriente Médio - especialmente com o Irã - expôs uma contradição fundamental. O trumpismo foi construído sobre a promessa de rejeitar guerras intermináveis, de recolocar a América dentro de suas próprias fronteiras estratégicas. Quando essa promessa vacila, não é apenas uma decisão tática que entra em xeque - é o próprio mito fundador.
Figuras centrais do ecossistema conservador, como Tucker Carlson e Megyn Kelly, vocalizaram esse desconforto. Não são vozes marginais; são, em muitos casos, arquitetos do próprio campo simbólico que sustentou Trump. Quando esses atores começam a criticar, o que se revela não é apenas divergência - é fissura estrutural.
Mas é preciso reconhecer: isso ainda não é deserção. Trata-se de um fenômeno mais sofisticado. O campo MAGA se fragmenta em três camadas, todas elas situadas no espectro da direita: os fiéis incondicionais, os críticos leais e os dissidentes emergentes. Essa divisão não enfraquece imediatamente o movimento; ao contrário, poderia até torná-lo mais dinâmico. Mas introduz um elemento novo e imprevisível: a perda de centralidade absoluta de Trump.
Durante sua ascensão, Trump não apenas liderava o movimento - ele o definia. Hoje, pela primeira vez, há sinais de que o movimento tenta redefinir Trump. É uma inversão silenciosa, mas histórica. A base popular, é verdade, ainda se mantém majoritariamente alinhada. Nos comícios, nas convenções, no pulsar emocional das massas direitistas, Trump continua sendo o eixo. Mas a política contemporânea não se move apenas pela base - ela se move também pelos mediadores: influenciadores, comentaristas, estrategistas digitais. E é nesse nível que a instabilidade se instala.
Quando o sistema de amplificação começa a divergir da fonte que amplifica, cria-se um curto-circuito. A mensagem perde coerência. A autoridade se fragmenta. O líder já não fala sozinho - e, pior, já não é o único a ser ouvido.
O que está em jogo não é apenas o futuro político de Trump. É o destino do trumpismo como fenômeno histórico. Movimentos populistas frequentemente enfrentam esse dilema: ou permanecem dependentes de uma figura carismática, ou evoluem para algo maior - e, nesse processo, inevitavelmente entram em conflito com o próprio criador. Qualquer semelhança com o que acontece agora com o bolsonarismo brasileiro não é mera coincidência.
O MAGA parece ter chegado a esse ponto. Não há ainda um rompimento definitivo. Mas há algo talvez mais significativo: o início de uma autonomia. E movimentos que ganham autonomia raramente aceitam voltar à condição de instrumento. Se essa tendência se aprofundar, o futuro poderá nos reservar um paradoxo notável: o trumpismo sobrevivendo a Trump - e, no limite, se voltando contra ele. Pois todo movimento que se torna maior que seu líder precisa, mais cedo ou mais tarde, decidir: segue o homem ou segue a ideia?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



