Anne Applebaum: "A sombra do fascismo paira sobre a América"
Historiadora alerta para a normalização da violência política e o risco real de uma deriva autoritária nos Estados Unidos sob Donald Trump
Em recente entrevista concedida ao jornal italiano La Repubblica, a historiadora americana Anne Applebaum, especialista em autoritarismos, não hesitou em colocar o dedo na ferida: “O grupo atualmente no poder nos Estados Unidos glorifica a violência, ignora a lei e a Constituição. Mas a democracia ainda pode ser salva”.
“Não uso a palavra fascismo com leviandade — diz a historiadora — e, em geral, não gosto de empregá-la para descrever o mundo contemporâneo, porque evoca coisas bem específicas, como as leis raciais ou os campos de concentração. Mas temo que, desta vez, seja a palavra correta. Nos Estados Unidos, temos hoje uma administração que glorifica a violência e criou uma organização paramilitar que age com impunidade, sentindo-se no direito de ignorar a lei e a Constituição. Vimo-los em ação em Minneapolis, onde atuaram como verdadeiros esquadrões fascistas. Ao mesmo tempo, porém, não podemos esquecer que a América ainda é uma democracia em funcionamento: onde a liberdade de opinião, a de protestar e a dos juízes de fazerem seu trabalho ainda estão garantidas. Em suma, há germes de uma deriva autoritária bem mais grave do que tudo o que vimos até agora. Só que ainda não chegamos lá.”
Anne Applebaum é uma importante especialista em autoritarismos e autocracias. Nasceu em Washington, de família judia, é vencedora do Prêmio Pulitzer com o ensaio Gulag. História dos campos de concentração soviéticos e autora de livros como Autocracia S.A.: Os ditadores que querem dominar o mundo, publicado no Brasil pela Editora Record. É colunista da revista The Atlantic.
Anne é conhecida por não usar meias palavras ao expor suas opiniões. Para ela, os Estados Unidos estão afundando em um novo fascismo: “O presidente Donald Trump não tem ideologia, apenas interesses, em grande parte privados. Mas ideologia têm aqueles que o cercam. Ao seu redor, coagularam-se diversos grupos conservadores, aliados em empurrar o país em direções cada vez mais autoritárias. Reconheço, em linhas gerais, pelo menos três grandes grupos — embora, na realidade, sejam muitos mais. Há os nacionalistas cristãos, cujo principal objetivo é derrubar o Estado laico para criar outro, enraizado numa leitura literal da Bíblia e, portanto, fundamentalista. Há também os nacionalistas brancos, que aspiram a uma sociedade segregada e, portanto, a criar um novo sistema racial. E, por fim, uma parte do mundo tecnológico — o que frequentemente se chama de tecno-direita — à qual já não importa a democracia americana. Eles querem estabelecer uma espécie de governo dos CEOs, livre de burocracias e regras, no qual o interesse manda. Tudo isso junto pode, de algum modo, ser chamado de fascismo, porque conduz a um sistema autocrático em que o poder se concentra nas mãos de poucos".
A historiadora interpreta as ações da milícia chamada ICE como parte de um projeto de governo cujos objetivos vão muito além do simples controle dos imigrantes ilegais, visando, na verdade, à implantação, nos Estados Unidos, de um novo regime antidemocrático e de clara tendência fascista: “Aqui na América, alguns continuam a sustentar que o alvo elevado se dirige apenas aos imigrantes ilegais. Mas essa nova força policial federal, o ICE, está estabelecendo um novo padrão de ilegalidade. Atua sob um pressuposto de impunidade que, como vimos, impacta e limita a vida de todos os cidadãos americanos, como demonstram as mortes nas ruas. A administração os está usando, junto com a Guarda Nacional, para ostentar seu poder e mostrar que pode agir muito além das regras. A tentativa é remodelar a democracia".
Anne não perde oportunidade para denunciar o que considera serem as reais intenções de Donald Trump. O título que ela escolheu para um artigo publicado em outubro de 2024 na revista The Atlantic é, nesse sentido, mais do que eloquente: “Trump fala como Hitler, Stalin e Mussolini”.
Comentando sobre a eleição de Trump para um segundo mandato, Anne disse: “Bastou ouvi-lo para entender que o Trump 2 seria muito mais radical que o anterior. Ele começou desde logo a usar uma linguagem que nunca havia sido ouvida antes na política americana. Descrevendo adversários políticos como marxistas radicais — quando, na realidade, eram democratas centristas. E depois chamando os imigrantes de ‘parasitas’. Chegou até a usar uma expressão retirada diretamente de um discurso de Hitler, ao falar de ‘imigrantes que envenenam o sangue do povo americano’, exatamente como o Führer, no Mein Kampf, falava do sangue alemão ‘envenenado’ pelos judeus. Trump é ignorante demais para tê-la escolhido; foi um de seus ghostwriters. Mas tenho certeza de que todos eles sabiam exatamente de onde vinha aquela frase — e a quem se dirigia. Optaram por usar uma linguagem desumanizante para radicalizar a base e prepará-la para aquilo a que agora estamos assistindo. Infelizmente, as pessoas preferiram pensar: ‘ah, é o Trump de sempre exagerando, mas depois não faz o que diz’. Em vez disso, naquelas palavras já estava tudo o que hoje estamos vivendo".
Como se deu essa mudança? Para a historiadora, “mudaram as pessoas que o cercam: hoje, seu entorno é composto por personagens que se aproximaram dele após o 6 de janeiro — pessoas prontas para derrubar as instituições, que odeiam o sistema político democrático americano e querem vê-lo fracassar. Infelizmente, quem votou em Trump por protesto ou por razões econômicas não compreendeu a evolução sombria do trumpismo. E não devemos subestimar outro fator: o que aconteceu na Ucrânia e em Israel".
Ela explica essa interpretação: “Trump e os seus claramente não estão interessados em respeitar a lei — imagine, então, o direito internacional. Assim, uma invasão em larga escala como a da Ucrânia foi certamente um precedente do qual extraíram lições. Mais do que isso: eu diria que os inspirou. O mesmo vale para o comportamento de Israel, que também desafiou impunemente o direito internacional. É claro que o passo seguinte é tentar destruir as instituições internacionais: eles não as amam, não as compreendem e não querem respeitar suas regras. Aliás, isso está escrito preto no branco em sua Estratégia de Segurança Nacional. Fico chocada que os europeus tenham se surpreendido, por exemplo, com a Groenlândia. Porque esse governo disse isso muito claramente: só os americanos importam — e, entre os americanos, só eles importam. É assim que pensam".
Apesar de seu olhar pessimista sobre os rumos do seu país, a historiadora acha que as forças das trevas ainda não tomaram conta total da situação. Quando perguntada se a América vai resistir às investidas dos neofascistas, ela responde: “É uma pergunta ampla demais para mim. Posso dizer, porém, que, por enquanto, como vimos em Minneapolis, as forças mais obscuras não venceram e ainda têm um longo caminho pela frente. Os tribunais continuam funcionando bem, há meios de comunicação que fazem jornalismo crítico e existe uma forte oposição cívica".
E como salvar a democracia? “Isso exige o esforço e o compromisso de toda a sociedade. Antes de tudo, as pessoas devem continuar a ir às ruas protestar contra as injustiças, como vimos os manifestantes de Minnesota fazerem: firmes, calmos, determinados. Os políticos — seja qual for o partido a que pertençam, republicanos ou democratas — precisam se empenhar em defender o sistema. E precisamos também de mais determinação por parte dos aliados: europeus, mas também canadenses e asiáticos. Bajular Trump na esperança de trazê-lo para o seu lado não funciona. Quem tentou, apenas o tornou mais seguro de si, reforçando a ideia de que tudo o que faz é correto. Isso é algo sobre o qual os governos democráticos globais realmente precisam refletir: para encontrar uma forma de criar redes e colaborar entre si".
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



