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Jacqueline Muniz

Antropóloga e cientista política. Professora do bacharelado de Segurança Pública da UFF. Gestora de Segurança Pública

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Antes da próxima morte: quem tem coragem de disputar a segurança pública?

Um desabafo para comprar mais briga em defesa de nossas existências

Fuzis (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Bento, 12 anos, brincava. Mais uma vítima da bala “perdida” — “achada”. Sua existência é uma aberração político-institucional que virou banalidade no Rio. Analisei esse fenômeno em artigo publicado no Brasil 247, intitulado “Bala perdida ou bala achada no Rio de Janeiro: uma aberração político-institucional rotineira”. Uma vergonha naturalizada em um Estado que mata, deixa matar e deixa morrer. E isso porque tem sido lucrativo, financeira e eleitoralmente, promover a insegurança como política pública.

Bento. Mais uma “camiseta da saudade” a registrar a dor mais que doída da perda irreparável, cravada em uma memória coletiva violentada a cada nova ocorrência que traz mais um luto para a sua prateleira de desalento. Bento morto! Diante do silêncio covarde de quem aplaude a guerra contra o crime. Diante da impostura de políticos que performam pautas oportunistas de segurança. E diante da desonestidade intelectual de “espertalistas” que vendem falsos milagres.

Bento não foi vítima de uma fatalidade. Bento, ainda criança, não foi vítima da roda do destino. Bento não foi vítima de um acidente. Sua morte é parte de uma engrenagem político-institucional que produz insegurança, administra o medo e naturaliza a exceção. É o resultado de escolhas políticas autoritárias, omissões deliberadas e narrativas populistas que transformaram a violência em mercadoria na paisagem cotidiana do Rio. Por isso, a questão não se encerra em lamentar mais uma vida interrompida na Pavuna, subúrbio do Rio de Janeiro. A questão central, urgente e inadiável, é saber quem está disposto, junto conosco, a enfrentar as causas que fazem com que outras mortes continuem como crônicas de tragédias futuras anunciadas no presente. Que sirvam como produtos do marketing eleitoral.

Não sei vocês. Mas, para mim, já deu a manipulação eleitoreira-criminosa da segurança pública no Rio.

Políticos responsáveis solidarizarem-se com as famílias das vítimas assassinadas pela bala achada é uma obrigação e uma demonstração básica de humanidade que todos nós temos que ter.

Mas eles precisam ir além de chorar junto e protestar diante de mais um corpo tombado. Isso qualquer um de nós consegue fazer junto aos parentes, amigos e conhecidos das vítimas fatais.

Políticos responsáveis, com as prerrogativas que têm, devem pôr o dedo na ferida. Devem tomar para si a pauta da segurança pública. Devem disputá-la, de verdade, com os seus rivais promotores do regime do medo e de suas práticas de exceção. Devem apresentar propostas factíveis. Propostas que fiquem de pé e ao alcance das nossas mãos. Sem cloroquinas, mantras e palavras de ordem cansativas.

Não dá mais para se contentar com manifestações de indignação e abertura de denúncias. Elas são importantes, mas não enfrentam o imediato real do risco, do perigo e da incerteza vividos. Ficar só na reatividade significa chegar sempre depois da tragédia ocorrida — e quem só chega depois não chega junto nem no velório.

Há que comprar, sim, a briga da segurança pública. Diariamente. E para valer. Destruindo as retóricas simplórias e, por isso mesmo, enganadoras e perigosas que circulam por aí.

A revolta e a indignação precisam romper com a espera por um futuro igualitário ainda distante. Precisam intervir no presente de nossas vidas. Porque medo não se adia. Risco de violência não se terceiriza. Perdas humanas e materiais não se pagam com promessas de uma democracia que pede paciência enquanto enterra os seus.

Se o político que me representa chora mais que as próprias vítimas e pede colo e proteção a nós — uma sociedade amedrontada e ameaçada —, está na hora de a gente se candidatar ou votar em outro. A segurança pública é nossa. E é hora de arrancá-la das mãos de quem a sequestrou para fazer dela moeda de medo, de voto e de morte.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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