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Luis Pellegrini

Luís Pellegrini é jornalista e editor da revista Oásis

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Arquitetura hostil: barreiras contra os “indesejáveis”

A arquitetura hostil corrói algo sutil: nossa capacidade de convivência com a diferença

Arquitetura hostil (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)

Há violências que não gritam. Não quebram vidraças, não levantam bandeiras, não deixam manchas visíveis. Elas se infiltram no cotidiano com a elegância fria do aço escovado e da geometria calculada. A arquitetura hostil é uma dessas violências: silenciosa, funcional, perfeitamente integrada à paisagem - e profundamente reveladora de quem nos tornamos. Não se trata de erro de projeto. Não é descuido. É intenção.

Quem viaja pelas grandes metrópoles do mundo (Rio de Janeiro e São Paulo são exemplos de ponta) pode perceber mudanças crescentes no ambiente urbano. Bancos que desaparecem das ruas e logradouros públicos, para impedir que as pessoas permaneçam. Grandes vasos com plantas colocados nas calçadas, sobretudo sob as marquises de prédios, para impedir que os moradores de rua deitem e durmam. Sistemas de irrigação automáticos para não deixar que esses mesmos moradores acampem nos gramados das praças.

É a “arquitetura hostil”, um tipo de projeto urbano ou arquitetônico feito intencionalmente para controlar ou limitar comportamentos das pessoas em espaços públicos. Em vez de acolher, ela busca impedir certas ações - geralmente associadas a grupos considerados “indesejáveis”, como pessoas em situação de rua, jovens ou usuários que permanecem muito tempo no local.

Exemplos comuns: bancos com divisórias metálicas ou inclinações para impedir que alguém se deite; pontas metálicas fincadas no chão ou sob marquises para evitar que pessoas se sentem ou durmam; luzes muito fortes ou desconfortáveis à noite para afastar a permanência no local; sprays de água automáticos em certos horários; música alta ou irritante em espaços públicos.

Os argumentos usados para justificar essas intervenções são muitos: evitar a ocupação prolongada de espaços; eliminar ou reduzir a presença de mendigos e de moradores de rua; controlar o fluxo de pessoas; manter uma “imagem” do local (comercial, turística etc.)

A arquitetura hostil é bastante criticada, no entanto, porque exclui grupos de pessoas vulneráveis em vez de resolver problemas sociais; torna as cidades bem menos acolhedoras; reforçam desigualdades e discriminação. Resumindo: é uma forma de “design que afasta”, ao invés de “design que inclui”.

Quando um banco de praça pública é dividido por barras metálicas para impedir que alguém se deite, não estamos diante de um detalhe estético: estamos diante de uma decisão política materializada. Quando pontas surgem sob marquises para evitar que corpos se abriguem da chuva, o que se constrói não é proteção - é exclusão. A cidade deixa de ser espaço de convivência para se tornar um filtro, um mecanismo de triagem social.

A pergunta não é “para que serve isso?”, mas “contra quem isso serve?”.

E o pior é que a arquitetura hostil não resolve problema algum. Ela apenas desloca. Empurra o incômodo para fora do campo de visão - como quem varre a sujeira para debaixo do tapete e depois se orgulha da limpeza. Pessoas em situação de rua não desaparecem porque um banco ficou desconfortável; elas apenas são forçadas a existir em outro lugar, ainda mais invisível, ainda mais vulnerável.

É o urbanismo da negação.

Mais do que impedir comportamentos, esse tipo de design revela uma lógica mais profunda: a cidade passou a ser pensada não como um espaço público, mas como um ativo - algo a ser gerido, higienizado, otimizado para consumo. O que não consome, o que não circula, o que não se encaixa, torna-se ruído. E ruído, no vocabulário contemporâneo, deve ser eliminado.

Há algo de perverso nessa sofisticação. Não se expulsa mais com cassetetes ou gás lacrimogêneo, mas com ergonomia. Não se proíbe explicitamente - desenha-se o espaço de modo que certas presenças se tornem impossíveis. É uma forma de poder que dispensa confronto, porque se esconde na neutralidade do design.

Mas não há neutralidade aqui. Cada pino no chão é uma escolha. Cada banco desconfortável é uma declaração. Cada intervenção que torna o espaço público menos habitável para alguns o torna, inevitavelmente, menos humano para todos. Porque uma cidade que só acolhe quem pode pagar por ela não é uma cidade - é um cenário. E cenários não têm vida. Têm controle.

A arquitetura hostil também corrói algo mais sutil: nossa capacidade de convivência com a diferença. Ao eliminar o encontro com o outro - especialmente o outro que nos desafia, que nos incomoda, que expõe as falhas do sistema — eliminamos também a chance de reconhecer nossa responsabilidade coletiva. A cidade deixa de ser espelho e vira vitrine.

Polida, vazia, indiferente.

No fundo, a arquitetura hostil não fala sobre bancos ou pinos. Ela fala sobre medo. Medo da pobreza, medo da desordem, medo do imprevisível. E, como todo medo não elaborado, ela se traduz em controle. Controle do espaço, do corpo, da permanência.

Cidades não são feitas para serem seguras no sentido estéril do termo. São feitas para serem vivas. E vida implica conflito, diversidade, fricção.

Uma cidade verdadeiramente pública não pergunta “quem pode ficar aqui?”, mas “como fazemos para que todos possam existir aqui com dignidade?”.

Enquanto continuarmos respondendo a problemas sociais com soluções de design excludente, estaremos apenas sofisticando a forma de ignorá-los. E ignorar, nesse caso, não é neutralidade. É escolha.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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