Salmões “dopados”: culpa da cocaína nas águas residuais
Os peixes expostos a substâncias entorpecentes tornam-se hiperativos e alteram sua relação com o ambiente
Salmões doidos, drogados, que sobem os rios para os ritos de reprodução, nadam no dobro da velocidade normal e acabam indo muito mais longe, às vezes até as cabeceiras dos rios e, por fim, morrem de exaustão sem cumprir a desova. Este é o tipo de notícia que desperta um forte desejo de gritar: parem o mundo, quero descer! Isso não é uma boa notícia. Esse desempenho fora do comum, segundo uma nova pesquisa publicada na revista Current Biology - e feita também por várias outras instituições entre as quais a Universidade Sueca de Ciências Agrícolas - é consequência da exposição à cocaína (e seus derivados), que chega às águas doces por meio dos esgotos urbanos. Isso indica uma alteração na percepção espacial dos animais, colocando potencialmente em risco sua sobrevivência.
Um experimento tecnológico - A equipe internacional de especialistas, liderada por pesquisadores da Griffith University, verificou que as estações de tratamento não conseguem remover completamente a cocaína e seus derivados -particularmente a benzoilecgonina - das águas residuais. A benzoilecgonina é o principal metabólito da cocaína - ou seja, é a substância em que a cocaína se transforma depois de ser processada pelo organismo.
Em termos simples, quando alguém consome cocaína, o corpo (principalmente o fígado) a decompõe. Nesse processo, surgem vários compostos, e o mais importante deles é a benzoilecgonina. Ela não é usada como droga recreativa, mas é um “rastro químico” da cocaína, resultante da metabolização da cocaína no corpo. Aparece na urina, no sangue e também no ambiente (rios, esgotos). Permanece no organismo por mais tempo do que a cocaína.
Diferentemente da cocaína, a benzoilecgonina é mais estável, resiste melhor aos sistemas de tratamento de água e pode se acumular em rios e lagos. Foi justamente isso que os estudos mostram: mesmo sendo um “resíduo” da droga, ela tem efeitos biológicos fortes, alterando o comportamento de animais como os salmões.
A exposição à benzoilecgonina mostrou efeitos ainda mais fortes do que a própria cocaína. Esse dado é particularmente relevante, explicam os pesquisadores, porque as avaliações de risco ambiental costumam focar apenas na substância principal, ignorando seus metabólitos - embora estes estejam presentes na água em concentrações mais altas.
Ainda não se sabe exatamente por que a benzoilecgonina produz esses efeitos nos salmões, mas a alteração comportamental parece compatível com seus efeitos em humanos: uma intensa vasoconstrição seguida de forte estresse fisiológico.
Ecossistemas em risco - Confirmar que salmões sob efeito de drogas se movimentam muito mais do que o normal não é apenas uma curiosidade. O movimento dos animais é uma forma de interação com o ambiente e influencia diversos aspectos: o que eles comem, de quais predadores fogem e como as populações se organizam no lagos e rios.
Se os poluentes alteram esses padrões naturais, ecossistemas inteiros podem se tornar instáveis de maneira imprevisível. Por exemplo, a hiperatividade pode consumir energia vital, comprometendo o crescimento e a reprodução dos salmões do Atlântico - uma espécie já ameaçada por outros impactos causados pela atividade humana.
Uma nova gestão das águas residuais - Embora não exista risco imediato para pessoas que consomem peixe, os especialistas destacam que o estudo chama atenção para o problema mais amplo dos medicamentos e drogas que diariamente acabam na água. Estima-se que o uso global de substâncias ilícitas tenha aumentado 20% na última década, com impacto crescente sobre o meio ambiente.
Por isso, é necessário incluir o monitoramento desses poluentes invisíveis nas estratégias de conservação de espécies aquáticas vulneráveis e melhorar os sistemas de tratamento de água.
Esse fenômeno da intoxicação da fauna silvestre por resíduos de drogas e medicamentos consumidos pelos humanos está longe de ser exclusivo dos salmões. Já ocorre aqui mesmo, no Brasil, e com outras espécies, como comprovam os primeiros estudos.
Pesquisas conduzidas no litoral paulista detectaram traços de cocaína, cafeína, hormônios sintéticos e outros fármacos no estuário de São Vicente, com níveis capazes de representar risco biológico para a fauna marinha.
Mais chocante ainda: estudos no Rio de Janeiro encontraram tubarões contaminados com cocaína e seus derivados - um indício claro de que a droga já percorre toda a cadeia ecológica. Não estou falando de acidentes pontuais, mas de um padrão.
O Brasil, nesse sentido, aparece como laboratório involuntário. Nosso país reúne três condições explosivas: Alto consumo de cocaína e medicamentos; infraestrutura desigual de saneamento; extensa rede hidrográfica conectando cidades e ecossistemas sensíveis
O resultado é previsível: aquilo que passa pelo corpo humano retorna ao ambiente. No Brasil, embora não tenhamos salmões nativos, temos espécies igualmente dependentes de padrões comportamentais delicados - como peixes de piracema, que sobem rios para reprodução.
Se esses comportamentos forem alterados, o impacto pode ser silencioso - mas devastador.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



