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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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As pesquisas precárias que desmoralizam os institutos

“Levantamentos confusos sobre as preocupações dos brasileiros só ajudam o lavajatismo”, escreve Moisés Mendes

Lula e Flávio Bolsonaro (Foto: Ricardo Stuckert/PR I Divulgação)

Duas pesquisas sobre as principais preocupações dos brasileiros foram publicadas essa semana, uma na segunda e outra na quarta-feira.

Imaginem as reações de Lula e de seus ministros diante das pesquisas de institutos com marcas fortes no mercado. Qual delas eles levariam a sério, já que uma diz isso e a outra diz aquilo?

Leiam esses dois textos. Primeiro, sobre a pesquisa do Datafolha, com um resumo do que foi publicado:

1. Pesquisa Datafolha divulgada pela Folha de S. Paulo nessa terça-feira (10) aponta que saúde e segurança pública são os principais problemas do país. É o que diz a Folha. 

De acordo com o levantamento, 21% dos entrevistados citaram a saúde como o maior desafio nacional. Em seguida, aparece a violência, mencionada por 19% dos participantes.

O jornal continua. A economia ocupa o terceiro lugar, com 11% das respostas, considerando preocupações relacionadas à inflação e ao aumento do preço da cesta básica. Educação e corrupção aparecem empatadas na sequência, com 9% cada.

Agora leiam esse texto sobre a outra pesquisa, da Quaest, divulgada na quarta-feira:

2. A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (11) mostra que 27% dos entrevistados apontam a violência como a maior preocupação.

A corrupção aparece em seguida, com 20% das menções. Outros temas citados incluem problemas sociais, saúde, economia e educação, informa o G1.

Depois aparecem a saúde, com 13%, e a economia, com 10%. A educação aparece com 6%.

Lula e seus ministros vão conseguir entender? O Datafolha ouviu as pessoas antes, e o Quaest logo depois, e nesse pouco tempo os brasileiros mudaram de opinião?

A Folha chegou a publicar essa manchete:

“Datafolha: 9% veem corrupção como principal problema do país em meio a casos Master e INSS”.

Como a corrupção aparece na manchete com 9%, se antes, na pesquisa do próprio DataFolha, com índices muito mais altos, aparecem saúde, segurança pública, inflação e finalmente educação e corrupção.

A corrupção, citada entre as menores preocupações, ao lado da educação, foi puxada para a manchete, para que seja reforçado o novo lavajatismo?

O nome disso não é erro, é manipulação. E os desencontros nos índices entre os dois institutos são provas de falhas graves e da precariedade das metodologias de um deles ou dos dois.

As pesquisas são desleixadas e desmoralizadoras dos próprios institutos. Algumas preocupações reveladas em uma pesquisa estão em posições quase invertidas em relação às do outro instituto. 

Parece apenas falha de métodos porque, entre outras diferenças, um prefere as perguntas presenciais e o outro faz entrevistas por telefone. Não pode ser só isso. As discrepâncias, que tiram o sentido desse tipo de consulta, sugerem a combinação de desleixo com oportunismo. 

São pesquisas feitas de qualquer jeito? Sempre foi assim, é o que dizem, mas o momento é grave – com o fascismo com as unhas de fora outra vez – e não permite esse tipo de desculpa.

Qual é a contribuição desse tipo de pesquisa para que se compreendam os desvios de percepção da realidade? Contribuem apenas para a confusão da nova onda lavajatista.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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