As rebeliões que começam a implodir a extrema direita
“Em vários Estados, lideranças da velha direita e até do PL não aceitam mais a submissão ao bolsonarismo”, escreve Moisés Mendes
Esta é uma das principais chamadas de capa dos jornais nesta terça-feira: divergências entre Gilberto Kassab e Tarcísio de Freitas esvaziam apoio do PSD no interior paulista para a campanha ao governo de São Paulo.
É notícia, e não apenas intriga, sobre a decisão de prefeitos e deputados que se consideram com autonomia para decidir apoios no primeiro turno. Kassab é dono do interior de São Paulo, com 206 prefeituras de um total de 644.
Tarcísio não tem, como os Bolsonaros achavam que teria, o controle da direita no Estado. Assim como notícias recentes avisaram que o bolsonarismo não tem o controle absoluto da extrema direita no Paraná.
A rebelião da maioria dos prefeitos do PL no Estado, contra o apoio de Flávio Bolsonaro a Sergio Moro como candidato ao governo, não é pouca coisa. Podem passar pano, mas é uma crise que continuará latejando. Mesmo que Moro tenha se mudado para o PL em março como se fosse um bolsonarista raiz retornando à sua casa.
O PL interiorano não quer saber do candidato do partido, por ter mais vínculos com Ratinho Júnior e com quem ele decidiu apoiar o governo, o deputado Sandro Alex (PSD). Há rebeliões da direita por toda parte, em todas as regiões do país, mas principalmente no Sul.
No Rio Grande do Sul, prefeitos do PP contestam a decisão da cúpula do partido de apoiar o Coroné Zucco, do PL, e um dos candidatos preferenciais de Flávio Bolsonaro no país. Alguns prefeitos queriam Gabriel Souza (MDB) e outros defendiam um candidato próprio ao governo.
Em Santa Catarina, há debandada de lideranças do PP, que deixam de apoiar a reeleição do governador bolsonarista Jorginho Mello, como reação ao alijamento de Esperidião Amin, pelo bolsonarismo, da chapa da extrema direita ao Senado.
Amin, aliado do governador, deve concorrer avulso contra uma chapa pura do PL ao Senado, com Caroline de Toni e Carluxo. Um ex-governador e ex-prefeito de Florianópolis, e a mais importante personalidade viva da direita de Santa Catarina, é convidado a ceder a vaga no Senado a um sujeito que mora no Rio.
Rebeliões no Ceará e no Rio, entre muitos outros Estados, abalam a autoestima do bolsonarismo. Partidos oportunistas, que sempre se movem como agregados, como todos os do centrão, aproximaram-se de líderes, ideias e ações fascistas para manter ou ampliar bases eleitorais.
Mas essa aproximação talvez tenha novos limites. O primeiro e mais óbvio foi estabelecido pelo desgaste de Flávio depois do vazamento das conversas com Vorcaro e seus desdobramentos, como a revelação de que visitou o banqueiro em casa, em prisão domiciliar.
O desgaste é tanto que o centrão já mandou avisar a jornalistas amigos da grande imprensa que a promiscuidade com a extrema direita será melhor avaliada. E que a qualquer momento eles podem saltar fora.
E o outro limite, que começa a pesar mais do que pesou até eleições passadas, é fixado pela ameaça real de perda de controle de currais da velha direita. Conluios regionais são medidos também pelo avanço do PL em bases da direita antiga.
Apoiar, por exemplo, o Coroné Zucco no Rio Grande do Sul pode, além de significar eventual partilha de poder no Estado, perda de controle pelo PP de municípios historicamente ‘arenistas’, pela expansão do bolsonarismo e do partido que o abriga.
O centrão teme ser engolido pelo bolsonarismo em algumas de suas paróquias, que são, claro, as bases dos figurões de Brasília. Assim como os tucanos foram engolidos em São Paulo pelo PSD de Kassab, que dá sustentação a Tarcísio e agora ameaça saltar fora. Das 176 prefeituras do PSDB em 2017, sobraram agora 21.
Em Santa Catarina, para citar outro exemplo, todos os partidos, incluindo o poderoso PSD, empataram ou perderam prefeituras em 2024 em relação à eleição anterior. Menos o PL, que ampliou o número de prefeitos eleitos em 2020 de 28 para os atuais 90, de um total de 295 municípios.
A direita recalcula os próximos passos e pode entrar no modo camaleão-na-espera. Enquanto isso, a própria família e o entorno se desintegram, com duelos entre Michelle e Carluxo, Flávio e Malafaia, Eduardo e Nikolas Ferreira.
O bolsonarismo começa a desabar por falta de lastro, sendo implodido pelos negócios de Flávio, pelas brigas internas e pela fuga da própria base da velha direita que ajudava a sustentá-lo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




