As revoltas no Irã e a violência da moeda
Como as sanções econômicas são usadas como forma de punição coletiva
Por Silvio Almeira (artigo originalmente pubicado em seu Substack) – Em janeiro de 2026, enquanto a neve cobria os Alpes suíços e os jatinhos particulares pousavam em Davos, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, concedia entrevistas à margem do Fórum Econômico Mundial com a naturalidade de quem descreve uma operação comercial bem-sucedida. Ele se referia às sanções impostas ao Irã, e sua fala merece ser lida como uma espécie de confissão involuntária. Assim disse Bessent: “Veja o que aconteceu no Irã. Um grande banco quebrou em dezembro, o Banco Central está imprimindo moeda, há escassez de dólares, dificuldade de importar bens básicos. Isso explica por que as pessoas foram às ruas”. O que o secretário do Tesouro dos Estados Unidos disse de maneira desavergonhada foi que seu país atuou ativamente para destroçar as finanças do Irã com o objetivo de provocar uma revolta popular. Então, à distância confortável de um painel em Davos, assistir-se-ia ao Estado-alvo responder com a violência letal que será — ela sim — catalogada como violação de direitos humanos. O contraste entre a paisagem alpina e a frieza com que se planeja o colapso de uma economia de 85 milhões de pessoas revela algo sobre a natureza do poder contemporâneo. A guerra econômica é guerra sem cadáveres contabilizados, pelo menos nas estatísticas de quem a conduz.
As falas de Bessent demonstram que as sanções econômicas não são apenas o prelúdio de violações de direitos humanos posteriores. Elas são, em si mesmas,violações de direitos humanos. O que se apresenta como instrumento de pressão diplomática para defender populações contra governos autoritários é, na verdade, uma punição coletiva – exatamente o tipo de prática que o direito internacional humanitário proíbe desde as convenções de Genebra. Eis que, para “salvar” o povo iraniano do autoritarismo, empobrece-se sistematicamente esse mesmo povo, impedindo-lhe o acesso a alimentos e medicamentos. Cuba é exemplo de um país que vive há mais de seis décadas sob bloqueio econômico cujo objetivo confesso é estrangular a ilha até o governo colapsar; a Venezuela, por sua vez, foi submetida a sanções que impediram a venda de petróleo e produziram uma crise humanitária apresentada como prova do fracasso da revolução bolivariana. Em todos esses casos, a retórica oficial é a mesma. As sanções visam pressionar governos, não populações.
No entanto, as sanções funcionam exatamente porque punem populações inteiras, produzem sofrimento massivo e apostam na capacidade do desespero econômico de gerar instabilidade política. São ataques deliberados contra civis, na expectativa de que o sofrimento se transforme em pressão política. A punição coletiva é crime de guerra quando praticada por exércitos ocupantes, mas é considerada “política externa legítima” quando conduzida por meio da arquitetura financeira global, ainda que o resultado seja o mesmo.
Acredito que já tenha ficado evidente que as sanções ao Irã não decorrem de violações de direitos humanos praticadas pelo regime dos aiatolás. Decorrem, na verdade, do não alinhamento do Irã aos interesses ocidentais, especificamente nas questões relacionadas ao programa nuclear iraniano e às pretensões de autonomia regional incompatíveis com a arquitetura de poder no Oriente Médio projetada pelos Estados Unidos. Percebe-se que não houve nenhum movimento comparável dos Estados Unidos ou de países europeus para pressionar outros regimes do Oriente Médio – com os quais mantêm excelentes relações comerciais e estratégicas – a reverem completamente a forma de tratamento das mulheres, de minorias, de dissidentes políticos.
A Arábia Saudita, monarquia absolutista teocrática que proíbe qualquer forma de organização política, que executou dissidentes, que assassinou e esquartejou o jornalista Jamal Khashoggi em seu próprio consulado, que mantém um dos regimes mais restritivos do mundo em relação aos direitos das mulheres, permanece como aliada estratégica privilegiada do Ocidente. Não há sanções que visem destruir a economia saudita para “salvar o povo saudita” da opressão teocrática. Ao contrário, há venda de armas, acordos bilionários, visitas diplomáticas. Os Emirados Árabes Unidos, o Qatar, o Bahrein – todos os regimes com problemas gravíssimos de direitos humanos – não enfrentam nada remotamente parecido com o estrangulamento econômico imposto ao Irã. A diferença não está no grau de autoritarismo ou na gravidade das violações, mas no alinhamento geopolítico e na disposição de subordinar-se aos interesses do imperialismo.
As imagens de repressão que ocupam as capas dos jornais – mulheres presas, jovens mortos em protestos – são, quando lidas à luz dessa confissão, o estágio final de uma agressão que se iniciou com a primeira rodada de sanções. A moeda iraniana, o rial, ultrapassou 1,5 milhão por dólar no início de 2026, o que traduz, na prática, a impossibilidade de comprar alimentos, medicamentos e bens essenciais. A inflação de alimentos alcançou mais de 70%. O que se convencionou chamar de “crise de direitos humanos” é o resultado da decisão deliberada de destruir a capacidade de uma sociedade de se reproduzir materialmente.
O Irã é uma economia que depende fundamentalmente da exportação de petróleo para financiar a importação de quase tudo o que consome. Quando as sanções bloqueiam o escoamento do óleo e, simultaneamente, aniquilam o valor do rial frente ao dólar, o país perde sua conexão vital com o mercado global. Como o parque produtivo interno é limitado, os bens básicos — de alimentos a medicamentos — precisam ser comprados no exterior a preços que a moeda nacional, derretida, já não alcança. O efeito fundamental é a escassez imediata e a inflação de itens de subsistência. Ao destruir o poder de compra do país, as sanções tornam materialmente inviável que o Estado providencie o mínimo para a vida, empurrando a população para o limite do suportável.
Aqui vale mobilizar Michel Aglietta e sua tese sobre a “violência da moeda”. Para Aglietta, a moeda não é mero instrumento de troca, mas cristalização de relações sociais hierárquicas que se mantêm por meio da violência estatal. A moeda funciona porque o Estado garante, pela força se necessário, sua aceitação universal no território nacional ou mesmo fora dele. Quando essa soberania monetária é atacada de fora – quando potências estrangeiras usam o controle sobre o sistema financeiro internacional para destruir deliberadamente a capacidade da moeda nacional de funcionar – o que se desnuda é a violência constitutiva da própria forma-dinheiro e sua expressão física, a moeda. A moeda iraniana perde suas três funções clássicas – medida de valor, reserva, meio de circulação – não por dinâmicas internas, mas por agressão externa que a transforma em papel sem valor. Ou seja, no capitalismo, se você não tem dinheiro, você não vale nada; e um país inteiro cuja moeda não vale nada é um país descartável. Essa é a violência da moeda em sua forma imperial. Usar o controle sobre a política monetária como arma de destruição de economias nacionais.
É aqui que a teoria gramsciana do Estado integral oferece chave de leitura insubstituível. Gramsci entende o Estado moderno como articulação entre sociedade política (órgãos de coerção) e sociedade civil (instituições que produzem consenso). O Estado integral governa com essa dualidade. Mantém o monopólio da violência, mas constrói dia após dia o tecido que faz com que a maioria aceite a ordem estabelecida. Um governo ameaçado pode recorrer a duas possibilidades: reforçar o consenso por meio de discursos e promessas que convençam as pessoas de que a situação é passageira; ou apelar para a força, para o uso sistemático da violência. Todo governo oscila entre essas estratégias conforme a conjuntura permite. Mas o que acontece quando a base material dessa hegemonia é sistematicamente minada por ação externa? Quando a capacidade de organizar a economia, de garantir que a moeda funcione, é deliberadamente destruída?
Essa dinâmica de destruição não é estranha à história iraniana. O governo do Xá Mohammad Reza Pahlavi, restaurado em 1953 pela Operação Ajax após o golpe – articulado pelo Reino Unido (MI-6) e apoiado, posteriormente, pelos Estados Unidos (CIA) – contra o governo nacionalista de Mohammad Mosaddegh, é o exemplo acabado de que a sociedade política é incapaz de sustentar um Estado se a sociedade civil for devorada por contradições econômicas insolúveis. A trajetória do Xá revela que nem mesmo o alinhamento total com Washington e o influxo massivo de petrodólares conseguem blindar um governo contra o colapso da sua base material. Nos anos 1960, a chamada “Revolução Branca” tentou impor uma modernização capitalista de cima para baixo que, embora tenha criado uma elite ocidentalizada e industrializada, desestruturou o campesinato e as formas tradicionais de comércio, jogando milhões de pessoas na precariedade urbana. O Estado iraniano vivia o paradoxo da abundância. Quanto mais o preço do petróleo subia na década de 1970, mais a economia interna se desintegrava. A riqueza ficava retida em uma pequena cleptocracia vinculada à Corte, enquanto a inflação galopante – fruto da incapacidade do mercado interno de absorver o excesso de capital – corroía o poder de compra da nascente classe média e do operariado.
É fascinante observar que, tal como no diagnóstico de 2026, a crise de 1979 foi precedida por um estrangulamento da vida cotidiana que a polícia secreta SAVAK não pôde conter. O Xá possuía o exército mais bem equipado do Oriente Médio e o suporte incondicional dos Estados Unidos, mas perdeu a capacidade de exercer a mediação institucional. Quando a crise habitacional em Teerã e a inflação de alimentos tornaram a existência insuportável, o pacto de obediência se rompeu. A repressão brutal do regime, longe de estabilizar a ordem, acelerou o divórcio entre o Estado e a sociedade. O governo golpista e pró-Ocidente fracassou porque tentou substituir o consenso pela coerção pura, provando que a soberania não é apenas conceito jurídico, mas condição de sobrevivência econômica.
O regime dos aiatolás que emergiu da Revolução de 1979 repetiu, em chave teocrática, o mesmo erro estrutural. Por décadas, governou por meio da opressão sistemática de mulheres, juventude, minorias, afastando-se progressivamente das aspirações populares. O projeto teocrático parou no tempo. Para uma juventude que nasceu conectada e para mulheres que não aceitam mais a tutela biopolítica do clero, o Estado deixou de ser representante da vontade coletiva para se tornar gestor da interdição. Quando as sanções destroem a base material – o pão, o rial, o emprego –, não sobra ao cidadão iraniano nenhum motivo simbólico para defender seu agressor doméstico em nome da luta contra o agressor externo que ele só vê pela televisão. A crise econômica retirou a tampa de um caldeirão de frustrações onde o desejo de liberdade e a angústia pela sobrevivência se fundem em uma força incontrolável. No Irã, o nacionalismo e a religião, que outrora foram o cimento da Revolução de 1979, parecem ter sido substituídos por uma anomia social que o Estado só consegue gerir atirando.
O regime iraniano responde com violência letal a uma população desesperada, cometendo crime que precisa ser nomeado como tal. Décadas de afastamento do povo significam que, na hora da crise, não há base social disposta a defender quem a oprimiu historicamente. Aqueles que foram sistematicamente excluídos – mulheres proibidas de viver com dignidade, juventude sem futuro, minorias marginalizadas – obviamente não vão às ruas defender o regime teocrático que os oprimiu. Diante do ataque estrangeiro, o regime persa colhe a desesperança que plantou. E as sanções, sabendo dessa fragilidade histórica, apostam deliberadamente nela. A crise econômica induzida de fora não cria o problema; ela expõe e acelera o divórcio que já existia.
Mas por que o regime em Cuba resiste há mais de sessenta anos sob bloqueio brutal sem colapsar? A resposta não está na força militar – Cuba não tem o arsenal iraniano – mas na profundidade das raízes que o Estado lançou no solo da cultura e das aspirações populares. O Estado cubano ainda se sustenta sobre um substrato ideológico poderoso que o Irã perdeu, qual seja, a fusão entre a ideia de Revolução e a própria ideia de Pátria. Em Cuba, o socialismo foi construído como projeto de soberania nacional contra o domínio estrangeiro. Há densidade capilar nas organizações de massa que, mesmo desgastadas pelo tempo, ainda mantêm conexão comunicativa entre o governo e a base social que o clericalismo iraniano, isolado em sua ortodoxia, jamais permitiu.
O povo cubano, em sua maioria, ainda enxerga o bloqueio como agressão à sua dignidade nacional, não apenas como erro de gestão do seu governo. Por isso, em Cuba, a escassez muitas vezes gera resiliência e solidariedade defensiva, enquanto no Irã atual ela gera ruptura e ódio contra a elite governante. A diferença é que o socialismo cubano, por seu caráter redistributivo, mantém algo que nem o Xá nem os aiatolás conseguiram construir de modo sólido e duradouro. Uma conexão material com o povo baseada em redistribuição e memória de emancipação. A escassez em Cuba é real e violenta, mas não há elite nadando em riqueza enquanto o povo morre de fome. Saúde e educação permanecem universais, mesmo na miséria. A igualdade na precariedade cria consenso que sobrevive à escassez porque o sacrifício é percebido como coletivo, não como uma elite roubando enquanto o povo sofre. O bloqueio é visto como agressão externa, e resistir torna-se ato de dignidade coletiva, não defesa de cleptocracia opressora, o que também angaria solidariedade internacional ao povo cubano.
O que distingue Cuba do Irã diante das sanções é, essencialmente, o tipo de vínculo material entre Estado e povo. Em Cuba, o povo sente-se dono da casa sitiada; no Irã, o povo sente-se prisioneiro de um carcereiro que também está sob cerco. Isso valida Gramsci de forma perfeita. Não basta ter força militar ou petrodólares. Precisa haver hegemonia real baseada em alguma forma de justiça material, memória de conquistas populares, sacrifício percebido como compartilhado. O “sucesso” das sanções americanas depende menos da potência do dólar e mais da fragilidade da hegemonia interna. Onde o Estado se divorciou da vida, a sanção é o empurrão final para o abismo. Onde o Estado ainda guarda, mesmo que de forma conturbada, o símbolo da emancipação popular, a sanção torna-se combustível de uma resistência que a lógica puramente econômica de Washington é incapaz de compreender.
É aqui que a responsabilidade compartilhada precisa ser atribuída sem cair em falsas equivalências. O regime iraniano é responsável pela violência que exerce contra manifestantes. Cada bala disparada, cada prisão, cada morte é um crime que precisa ser denunciado. Mas a escalada da violência é a consequência previsível de uma cadeia causal que começou muito antes, quando os Estados Unidos, em conchavo com o falido sistema internacional, decidiram destruir a economia do Irã. As sanções aparecem como forma “limpa” de guerra suja, pois permitem aos arquitetos do colapso manter as mãos aparentemente limpas, sem soldados no terreno, enquanto os custos humanos são atribuídos exclusivamente ao Estado-alvo iraniano.
As sanções internacionais são mecanismos de sujeição imperial que, como consequência, tornam impossível qualquer forma de liberdade ou democracia, uma vez que minam a soberania dos países sobre os quais são impostas. Enquanto essa engrenagem permanecer invisível sob o manto da governança técnica ou do bom mocismo conveniente dos supostos defensores de direitos humanos, continuaremos condenados a assistir a esse espetáculo macabro.
Assistimos bestializados a um ciclo perverso em que o crime que mata pelo estômago providencia a justificativa moral para o crime que mata pela bala, restando à consciência o registro cínico de uma tragédia na qual apenas a reação do encurralado é catalogada como barbárie. Quem realmente se preocupa com os direitos humanos do povo iraniano deve se opor veementemente às sanções econômicas que recaem sobre o país. Sem isso, o povo iraniano continuará à mercê da opressão, a despeito da performance humanitária de quem cai no conto das potências ocidentais.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



