HOME > Entrevistas

Sachs aponta política brutal dos Estados Unidos e ponto de virada na ordem internacional

Economista critica submissão europeia, denuncia lógica imperial de Washington e vê em Davos sinais de rearranjo geopolítico

Jeffrey Sachs e Donald Trump (Foto: Xinhua/Reuters)

247 – O economista Jeffrey Sachs avaliou que a política externa dos Estados Unidos opera com uma lógica “brutal” e “imperial”, enquanto a Europa paga o preço de décadas de submissão estratégica a Washington, agora exposta por ameaças que atingem o próprio continente — como a pressão do atual presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a Groenlândia. As declarações foram feitas em entrevista concedida a Glenn Diesen, na qual o economista também apontou o Fórum de Davos como um marco simbólico de inflexão na ordem internacional.

Ao longo da conversa, Sachs sustenta que líderes europeus se calaram por anos diante de intervenções e guerras conduzidas pelos EUA em diversas regiões do planeta e, por isso, perderam capacidade diplomática e autonomia. O resultado, segundo ele, é uma Europa sem política externa própria, sem canais estáveis de negociação e incapaz de responder com firmeza quando a pressão norte-americana se volta contra os próprios europeus.

“Quem cavalga o tigre” e a conta que chega à Europa

Sachs recorre a uma imagem associada a John F. Kennedy para descrever a relação entre Europa e Estados Unidos: quem “cavalga nas costas de um tigre” pode acabar devorado. Para ele, foi isso o que ocorreu com a Europa ao aceitar, por décadas, o papel de parceira menor de um projeto hegemônico liderado por Washington.

Na entrevista, ele define de forma direta sua visão sobre o poder norte-americano: "Os Estados Unidos são uma potência imperial, agem de forma descarada e brutal." Em seguida, afirma que por cerca de 20 anos “quase nenhum líder europeu” contestou o que chama de comportamento predatório, mesmo diante de sucessivas guerras, derrubadas de governos e operações de desestabilização.

Nessa leitura, a indignação atual dos europeus seria tardia e marcada por contradições: quando a pressão era dirigida a países fora do eixo europeu, diz Sachs, os princípios foram relativizados; quando a ameaça se volta ao continente, surge a defesa repentina do direito internacional.

Groenlândia e o duplo padrão do direito internacional

Ao tratar das declarações de Trump sobre a Groenlândia, Sachs afirma que não considera a hipótese uma simples provocação. Para ele, o episódio expõe a fragilidade da Europa, que teria se habituado a depender da proteção dos EUA e a terceirizar sua política externa.

Ele critica o que descreve como hipocrisia europeia e seletividade moral no uso do direito internacional, resumindo o argumento com uma frase contundente: "De repente redescobriram a importância do direito e dos princípios internacionais, mesmo tendo ajudado a destruí-los nos últimos 30 anos."

Sachs também sustenta que a russofobia europeia teria sido “autodestrutiva”, pois cortou canais diplomáticos com Moscou e aumentou a dependência em relação a Washington. Na prática, afirma ele, a Europa estaria “encurralada”, sem diplomacia com a Rússia e sem capacidade real de impor limites aos Estados Unidos.

Davos como sinal de virada e o papel de Mark Carney

Sachs identifica em Davos um retrato do momento de transição global e destaca o discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, como um dos pontos mais relevantes do encontro. Ele diz ver na fala de Carney uma admissão de que a chamada “ordem internacional baseada em regras” funcionou como um sistema de privilégios para o Ocidente.

O professor ainda elogia o movimento canadense de diversificação econômica e geopolítica, sublinhando a aproximação com a China e a busca por acordos de comércio e investimento. Para Sachs, trata-se de uma decisão ousada em um cenário em que Trump, segundo ele, pressiona aliados e trata relações internacionais como disputas de força.

Ao ressaltar a importância desse movimento, ele afirma: "Seu discurso em Davos, que foi magistral, veio após sua viagem à China, que talvez tenha sido ainda mais notável, porque aqui está o primeiro ministro do Canadá indo a Pequim e firmando uma parceria estratégica com a China." Na avaliação de Sachs, esse tipo de realinhamento indica que governos começam a considerar alternativas concretas para reduzir dependências históricas em relação aos EUA.

Irã, sanções e “mudança de regime” por meios econômicos

Outro eixo central da entrevista é a denúncia do uso de sanções como instrumento para produzir colapso econômico e instabilidade política em países-alvo, especialmente o Irã. Sachs cita declarações atribuídas ao secretário do Tesouro, Scott Bessent, em entrevista na Fox Business, interpretando-as como reconhecimento explícito de uma estratégia de mudança de regime.

Ele caracteriza esse tipo de política como guerra econômica e afirma: "É guerra com meios econômicos, completamente contrária ao direito internacional, a carta da ONU. As sanções são ilegais." Sachs sustenta que a normalização desse método, aplicada por anos contra países do Sul Global, não gerou reação significativa da Europa — e que isso ajuda a explicar a passividade atual diante de ameaças vindas de Washington.

A saída defendida: diplomacia, neutralidade e responsabilidade alemã

Na parte final, Sachs afirma que ainda existe um caminho para a Europa, mas que ele exigiria reconstruir diplomacia com a Rússia, reduzir a dependência de Washington e abandonar a russofobia como eixo unificador. Ele defende que a paz poderia ser construída com base na neutralidade e menciona a experiência da Áustria durante a Guerra Fria como referência.

Ele também atribui à Alemanha responsabilidade central na crise, argumentando que Berlim teria descumprido compromissos e falhado em momentos decisivos, inclusive no contexto da expansão da OTAN e na condução de acordos envolvendo a Ucrânia. Para Sachs, uma guinada alemã — articulada com França e Itália — poderia alterar rapidamente a dinâmica do bloco europeu.

A entrevista termina com uma síntese dura sobre a encruzilhada europeia: sem autonomia diplomática e sem coragem política para enfrentar décadas de dependência, a Europa corre risco de se desintegrar geopoliticamente em um mundo multipolar. Para Sachs, Davos revelou que a ordem internacional vive um ponto de virada, e que a resposta europeia, se continuar baseada na submissão e no pânico, pode condenar o continente à irrelevância estratégica.

Artigos Relacionados