Jeffrey Sachs diz que “século da Ásia-Pacífico” é, na verdade, o início do “século do mundo”
Em debate do jornal Horizons, economista critica visão de soma zero e elogia planejamento chinês
247 – Em um debate realizado em Belgrado para marcar o lançamento da 32ª edição do jornal Horizons, o economista Jeffrey Sachs afirmou que o momento histórico atual aponta menos para uma simples troca de hegemonia entre Estados Unidos e China e mais para uma transição ampla rumo a um mundo multipolar. O encontro foi promovido pelo Center for International Relations and Sustainable Development (CIRSD), no formato Horizons Discussion, com a presença de autoridades e diplomatas.
A conversa — publicada em vídeo no YouTube no canal do HORIZONS DISCUSSION — girou em torno do tema “Asia-Pacific Century”, título do novo volume da revista. Sachs, apresentado como professor e diretor do Center for Sustainable Development da Columbia University e presidente da UN Sustainable Development Solutions Network, argumentou que a leitura correta do período é a de um “ponto de inflexão” após cinco séculos de predominância europeia.
“Estamos no fim de um ciclo de 500 anos”, diz Sachs
Sachs sustentou que a ascensão europeia se consolidou a partir das grandes navegações do fim do século XV, citando as viagens de Cristóvão Colombo (1492) e Vasco da Gama (1498) como marcos do início de uma longa era de controle europeu sobre rotas, territórios e riquezas.
Segundo ele, a conquista das Américas não se deu “principalmente” por supremacia militar, mas pelo impacto de doenças levadas pelos europeus, que teriam reduzido drasticamente as populações nativas. Esse processo teria permitido à Europa se apropriar de recursos minerais, agrícolas e territoriais em escala continental, reconfigurando a correlação de forças global por séculos.
China, planejamento e a crítica ao “medo” do desenvolvimento asiático
Ao ser provocado sobre a tese de que “a Europa é o passado, os EUA são o presente e a Ásia é o futuro”, Sachs respondeu que concorda “em parte”, mas rejeitou a ideia de que o século XXI pertença exclusivamente à Ásia. Para ele, a tendência é de consolidação de um mundo mais distribuído em poder e desenvolvimento.
Questionado se o mundo deveria temer a ascensão chinesa, foi direto: “Não. Não devemos nos preocupar. Devemos ficar satisfeitos, porque isso é uma boa notícia para todos.” Para o economista, prosperidade não é jogo de soma zero: “Não estamos em uma luta de soma zero no mundo.”
Sachs também elogiou aspectos da governança chinesa, sobretudo o planejamento de longo prazo, citando o processo de elaboração do 15º plano quinquenal e o horizonte decenal associado às metas industriais e tecnológicas: “A China está em um processo meticuloso… para completar o 15º plano… com uma discussão muito detalhada de setores, indústrias e tecnologias.”
No mesmo trecho, ironizou a ausência de planejamento nos Estados Unidos: “Nós não temos nenhum planejamento… é o que o presidente tuíta a cada 15 minutos.”
Darwin, Malthus e o ataque à lógica de “inimigos” no sistema internacional
Sachs atribuiu parte da mentalidade de confronto no Ocidente a leituras equivocadas de Darwinismo social e à ideia malthusiana de escassez inevitável. Ele citou Thomas Robert Malthus e a forma como Darwin teria incorporado o argumento da “luta” por sobrevivência, o que depois teria sido transportado para a política, alimentando nacionalismos extremos.
Nesse contexto, criticou a retórica de rankings e rivalidade permanente entre países e atacou a obsessão de segmentos políticos e midiáticos dos EUA em reafirmar superioridade sobre a China: “Vejo essas listas… Quem é número um? Quem é número dois?… O concorrente [da revista]… é para tranquilizar americanos: ‘somos o número um’.”
Risco de guerra no Leste Asiático e temor de conflito nuclear
Apesar de defender a ascensão pacífica e a cooperação, Sachs disse estar “muito preocupado” com a possibilidade de conflitos, mencionando explicitamente o risco de escaladas em um mundo com armas nucleares, mísseis hipersônicos, guerra cibernética e militarização do espaço.
Ele afirmou que vê uma “batida de tambor” nos EUA para transformar a China em inimiga e aconselhou congressistas a conhecerem o mundo: “Meu conselho geral ao Congresso dos EUA é: obtenham um passaporte.”
Ucrânia: “a guerra começou em fevereiro de 2014”
Ao tratar do conflito na Ucrânia, Sachs contestou a narrativa ocidental de que a guerra teria começado apenas em 2022. Para ele, “a guerra na Ucrânia começou com a derrubada de Yanukovich, que foi um golpe… que os Estados Unidos promoveram ativamente.”
Ele descreveu que, na véspera do episódio, ministros das Relações Exteriores de França, Alemanha e Polônia teriam negociado um arranjo de unidade nacional e eleições, mas que, na noite seguinte, prédios do governo foram tomados e Washington reconheceu imediatamente o novo governo, enquanto os europeus “ficaram em silêncio”.
Sachs afirmou ainda que as províncias do leste — Lugansk e Donetsk — “imediatamente se separaram”, rejeitando o novo poder em Kiev. E citou o acordo de Minsk 2 como tentativa de cessar-fogo e solução política baseada em autonomia regional, dizendo que a iniciativa foi ignorada: “Eles ignoraram Minsk 2… decidimos que não queremos dar autonomia… queremos reconquistar.”
Promessas sobre OTAN e a conversa com Jake Sullivan
Sachs também retomou discussões sobre expansão da OTAN, alegando que, em 1990, líderes ocidentais teriam garantido a Mikhail Gorbachev que a aliança “não avançaria uma polegada para o leste”. Segundo ele, após 1991, Washington teria optado pela expansão por acreditar que poderia “se safar”.
No trecho sobre a escalada que levou a 2022, afirmou que, em dezembro de 2021, Vladimir Putin apresentou dois rascunhos de acordo — um para a Europa e outro para os EUA — centrados na neutralidade da Ucrânia e no fim da expansão da OTAN. Sachs relatou ter telefonado à Casa Branca e conversado por uma hora com Jake Sullivan: “Eu disse: ‘Jake, aceite o acordo. Negocie. Pare a expansão da OTAN.’” Segundo ele, o assessor respondeu que a OTAN não iria se expandir para a Ucrânia, mas se recusou a declarar isso publicamente por causa da “política de portas abertas”.
Sachs ironizou a avaliação do interlocutor: “Você vai ter uma guerra por algo que nem vai acontecer.” E acrescentou: “Ele disse: ‘Jeff, não se preocupe. Não vai haver guerra.’”
Trump, estratégia de segurança e críticas a líderes europeus
Em perguntas do público, Sachs comentou a nova estratégia de segurança nacional dos EUA e afirmou que o documento seria “idiossincrático” e ligado ao presidente Donald Trump — a quem se referiu como alguém capaz de atitudes “bizarras”, “corrupto” e “bully”. Para o economista, porém, Trump “não é os Estados Unidos” nem “o futuro” do país, e sua agenda não seria sustentada por ganhos econômicos capazes de gerar aprovação duradoura.
Ele citou também um dado de popularidade: “A taxa de aprovação de Trump é cerca de 37%.” E argumentou que políticas tarifárias não reindustrializariam os EUA por falta de coerência e planejamento.
Ao falar da Europa, Sachs disse não compreender a atuação de lideranças atuais e questionou por que, se há temor real, não há diálogo com a Rússia. Em tom duro, afirmou: “Não consigo lembrar de pior liderança política na Europa do que agora… não em toda a minha vida.” Ele comparou o presente com figuras do passado, citando líderes como Helmut Schmidt, Helmut Kohl, François Mitterrand e Willy Brandt.
“Não cortem laços com Rússia, China e Índia”, recomenda para a Sérvia
Questionado sobre a relação da Sérvia com os EUA e sobre pressões geopolíticas, Sachs minimizou o peso estratégico de Washington para o país: “Os Estados Unidos não têm nenhuma importância para a Sérvia… não estrategicamente.” Recomendou, por outro lado, que o país evite se isolar de parceiros como Rússia, China e Índia e criticou a ideia de que sanções seriam condição automática para integração europeia: “Não escutem a tolice da Europa… não digam: ‘para entrar na Europa precisamos de sanções contra a Rússia’.”
Ao abordar impactos econômicos e a expectativa de um eventual acordo entre EUA e Rússia, Sachs disse torcer para que Trump “persevere” e consiga um entendimento com Putin, avaliando que isso poderia aliviar pressões. Ainda assim, alertou para disputas internas em Washington e para a instabilidade do momento.
Um “mundo de regiões cooperando”, em vez de blocos hostis
No encerramento, Sachs defendeu a ideia de integração regional sem hostilidade entre blocos: América do Norte, América Latina, Europa, Rússia, China, Sudeste Asiático, Índia, Ásia Ocidental e África, em um desenho de cooperação. Para ele, regiões que “constroem muros” ou se fixam em disputas como “quem possui a Ucrânia” correm o risco de repetir ciclos de destruição.
A discussão, afinal, não se limitou ao “século da Ásia-Pacífico”. Na leitura de Sachs, trata-se de uma reconfiguração mais ampla — e perigosa — em que escolhas de liderança, diplomacia e capacidade de cooperação poderão definir se o novo período será de prosperidade compartilhada ou de escaladas irreversíveis em um mundo armado até os dentes.


