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EUA pressionam Bolívia a expulsar supostos espiões iranianos e a rotular Hezbollah e Hamas como terroristas

Segundo a Reuters, Washington tenta reduzir a influência de Teerã na América Latina e avalia movimentos semelhantes no Chile, Panamá e Peru

Cidade de La Paz (Foto: Reuters)

247 – Os Estados Unidos estão pressionando a Bolívia a expulsar do país supostos espiões iranianos e a adotar uma linha mais dura contra grupos que Washington associa a Teerã, incluindo a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), o Hezbollah e o Hamas, segundo duas fontes com conhecimento direto das conversas diplomáticas.

A informação foi publicada pela Reuters, que relata uma ofensiva diplomática reservada de Washington para ampliar sua influência geopolítica na América Latina e reduzir a presença do Irã na região, em meio a disputas de poder, agendas de segurança e realinhamentos políticos em países-chave do continente.

De acordo com as fontes ouvidas pela agência, os EUA querem que La Paz designe a IRGC — força de elite ligada ao aparelho militar e de segurança iraniano — como organização terrorista. A pressão, ainda segundo a Reuters, inclui também o pedido para que a Bolívia classifique o Hezbollah, grupo armado libanês, e o Hamas, organização militante palestina, como organizações terroristas, sob a alegação de que ambos operariam como “proxies” de Teerã.

Procurado, o Ministério das Relações Exteriores da Bolívia afirmou que "ainda não há uma posição completamente definida sobre este assunto". O Departamento de Estado dos EUA não respondeu ao pedido de comentário, enquanto a missão iraniana na ONU recusou-se a comentar.

Uma ofensiva discreta para reposicionar a influência dos EUA na região

A reportagem descreve a movimentação como parte de uma estratégia mais ampla dos EUA para redesenhar o tabuleiro político na América Latina, sobretudo em países onde Washington considera haver espaços para reduzir relações econômicas e de segurança com adversários geopolíticos.

Nesse contexto, a Reuters afirma que, após uma operação realizada no início de janeiro para sequestrar o presidente venezuelano Nicolás Maduro, autoridades norte-americanas teriam pressionado rapidamente o governo da presidente interina Delcy Rodríguez a restringir a cooperação econômica e de segurança entre Caracas e Teerã. Venezuela e Irã, segundo o texto, mantêm há anos uma aliança considerada sólida.

A menção à Venezuela ajuda a ilustrar, segundo a agência, como a pauta “Irã na América Latina” vem ganhando centralidade em conversas diplomáticas e de inteligência, especialmente diante do entendimento de Washington de que redes vinculadas a Teerã utilizariam a região para apoio logístico, diplomático e operacional.

“Jogos de espionagem” e a disputa por bases de influência

A Reuters observa que a Bolívia, país sem saída para o mar e com cerca de 12 milhões de habitantes, poderia parecer improvável como palco de uma disputa indireta entre potências. Ainda assim, a agência diz que autoridades norte-americanas — atuais e ex-integrantes do governo — avaliam que o país teria se tornado uma base relevante para operações diplomáticas e de inteligência iranianas em diferentes partes do continente.

Entre os fatores citados está o que autoridades dos EUA descreveriam como um ambiente de contrainteligência mais permissivo, além da geografia boliviana: a posição central, com fronteiras com vários países, facilitaria deslocamentos e conexões regionais.

O ex-oficial sênior da CIA Rick de la Torre, citado pela Reuters, afirmou que a Venezuela teria sido o principal polo das operações iranianas na América Latina, enquanto Bolívia e Nicarágua teriam funcionado como pontos secundários. Segundo ele, "(o valor da Bolívia) para Teerã era o clima político permissivo, a fiscalização mais leve e a geografia central".

De la Torre acrescentou que o padrão observado, em sua avaliação, seria o uso de jurisdições mais permissivas como centros de apoio, com projeção silenciosa para países considerados mais relevantes. "Na prática, o padrão que você vê na América Latina é Irã e Hezbollah usando as jurisdições mais permissivas como centros, e então projetando discretamente para estados próximos mais capazes ou de maior valor", disse ele, de acordo com a Reuters.

Mudança no cenário político boliviano abre “janela”, avaliam autoridades dos EUA

A reportagem destaca que a dinâmica política interna na Bolívia é central para a leitura norte-americana de oportunidade. Evo Morales, presidente boliviano entre 2006 e 2019, aprofundou laços com o Irã ao longo do mandato, inclusive em temas de defesa e segurança, argumentando que ambos os países estariam unidos na luta contra o imperialismo dos EUA.

Ainda segundo a Reuters, Morales e o presidente Luis Arce — que governou de 2020 até o fim do ano passado — eram vistos por autoridades norte-americanas como pouco receptivos a iniciativas para afastar La Paz de Teerã. Esse cenário teria mudado com a eleição, em outubro, do centrista Rodrigo Paz, cuja vitória marcou, segundo o texto, o encerramento de quase duas décadas de predominância do MAS (Movimento ao Socialismo).

A agência afirma que o governo Paz herdou turbulência econômica e um Congresso fragmentado, e vem tentando recompor relações com Washington e atrair investimento privado. Nesse contexto, os EUA teriam sinalizado apoio público ao novo presidente e, em dezembro, tornaram a Bolívia elegível para financiamento via subsídios administrados pela Millennium Challenge Corporation, uma agência independente norte-americana.

Pressão por listas de “terrorismo” cresce no continente, segundo a Reuters

As fontes citadas pela Reuters disseram que o esforço relacionado ao Irã na Bolívia se encaixa numa campanha regional mais ampla. O texto menciona que, em setembro, o Equador — aliado dos EUA — designou IRGC, Hamas e Hezbollah como organizações terroristas. Também afirma que a Argentina designou a Força Quds (ramo da IRGC voltado a operações no exterior) na semana passada. Em ambos os casos, segundo as fontes, Washington teria defendido as medidas.

A Reuters lembra que a IRGC atua como uma força de elite leal ao líder supremo do Irã desde a Revolução de 1979, enquanto a Força Quds é descrita como responsável por operações fora do território iraniano.

Segundo a reportagem, uma delegação com integrantes do Departamento de Estado e de órgãos de inteligência viajou a La Paz neste mês, em parte para tratar das possíveis designações. Autoridades norte-americanas também discutiriam incentivar medidas semelhantes em Chile, Peru e Panamá, embora não esteja claro, de acordo com o texto, se as conversas formais com esses governos já ocorreram.

As respostas oficiais variaram: o Panamá disse não ter discutido o tema com autoridades dos EUA; o Chile afirmou não comentar possíveis tratativas com outros Estados, acrescentando que segue a lista de organizações terroristas das Nações Unidas; e o Peru não respondeu ao pedido de comentário da agência.

Presença e alcance do Hezbollah na América Latina dividem avaliações

A Reuters sustenta que o Hezbollah é apontado há décadas como um ator com presença na América Latina, frequentemente associado por autoridades dos EUA a redes ilícitas de contrabando e a mecanismos de financiamento. Ainda assim, a reportagem ressalta que há debate dentro da própria comunidade de inteligência sobre quão robusta seria essa presença.

Parte das avaliações caracterizaria as operações de arrecadação como hierárquicas e bem organizadas; outra parte argumentaria que parte do fluxo financeiro atribuído ao Hezbollah poderia decorrer de doações e remessas da diáspora libanesa na América Latina que, por caminhos diversos, chegariam a indivíduos ligados ao grupo.

Nesse ponto, a Reuters volta a citar de la Torre, que relativiza a ideia de comando central sobre cada atividade criminosa, mas aponta um modelo de “arquitetura” que permitiria benefício indireto. "Na minha visão, a liderança do Hezbollah não microgerencia cada esquema criminoso", afirmou ele. "Mas ela autoriza e se beneficia de uma arquitetura global de facilitação que inclui a América Latina".

O que está em jogo para a Bolívia

A pressão descrita pela Reuters coloca a Bolívia diante de uma escolha política sensível: atender às demandas norte-americanas pode significar estreitar a relação com Washington e ampliar acesso a instrumentos de cooperação e financiamento, mas também tende a elevar tensões diplomáticas com o Irã e com setores internos que defendem uma política externa mais alinhada ao eixo sul-sul.

Ao mesmo tempo, a adoção de designações formais de “terrorismo” costuma ter efeitos práticos: pode influenciar cooperação de segurança, investigações financeiras, acordos internacionais e o ambiente para investimentos, além de repercutir no debate doméstico sobre soberania, alinhamento externo e prioridades de segurança.

A reportagem, por fim, sugere que a Bolívia pode se tornar um teste importante do novo momento geopolítico na América Latina, em que Washington tenta consolidar influência num cenário marcado por disputas de poder, mudanças eleitorais e crescentes tensões internacionais.

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