Até o Estadão aponta o dedo para a Globo: vocês receberam dinheiro de Vorcaro
“A empresa dos Marinho deve dizer se sabe de onde saíram os recursos que ganhou do banqueiro mafioso”, escreve Moisés Mendes
Tem jornalismo, mesmo que tardio, e tem também uma pitada de maldade no levantamento em que o Estadão descobre detalhes do esquema de patrocínio de eventos do Banco Master. A Globo está na lista, o que não é novidade, mas pela primeira vez isso aparece na grande imprensa.
É um jornalão – e não as mídias chamadas alternativas ou progressistas ou de esquerda – que aponta para a organização dedicada ao novo lavajatismo. Em 2024, a Globo guardou grana de Daniel Vorcaro no seu caixa.
Está lá, mesmo que a chamada para o texto tenha sido escondida na capa: “As sete conferências patrocinadas por Vorcaro aconteceram em cidades como Nova York, Roma, Londres, Paris e Cambridge (EUA)”.
A Globo é exposta pela primeira vez num jornal coirmão:
“Um dos eventos patrocinados pelo banqueiro que ganhou repercussão recentemente foi o Summit Valor Econômico Brazil-USA, organizado pelo jornal Valor Econômico, pertencente ao Grupo Globo”.
O jornal escreve: “Como mostrou o Estadão, Vorcaro investiu nos últimos anos em uma estratégia de aproximação de autoridades de Brasília”.
Faltou dizer, como a própria reportagem atesta, que esses tentáculos alcançaram a mídia tradicional, com detalhes constrangedores. O evento em que a Globo pegou dinheiro de Vorcaro deveria divulgar o Brasil empreendedor e destemido de pessoas que fazem a diferença.
É o mesmo clichê de todos esses eventos que reúnem a mesma bolha nacional com a bolha estrangeira, para reforçar imagens e apresentar players. Vorcaro, palestrante do evento, era um desses players.
O Estadão pediu explicações à Globo, e a resposta foi a de que “o Summit em Nova York não teve ambiente de encontros de relacionamentos”, ou seja, a organização quer dizer que Vorcaro não participou de conversas com milionários interessados no Brasil.
Foi apenas palestrante. Falou o que todo mundo ouviu e foi transmitido pela emissora. A Globo se esforça para esclarecer que não pôs Vorcaro em contato com ninguém. Não fez cafetinagem ou intermediação de encontros fechados.
O que a reportagem do Estadão expõe é o que a Globo e o próprio Estadão cobram dos outros. A Globo impõe, como modelo de conduta, que todos os acusados, incluindo Lulinha, devem se defender de acusações dos jornalões, mesmo sem provas.
E Lulinha tem se defendido. Mas a Globo nunca tomou a iniciativa de informar que, diante das notícias sobre o patrocínio do Master, havia de fato recebido dinheiro de Vorcaro.
A Globo deveria ter se antecipado ao questionamento que só agora chega ao Estadão. Porque os jornais que abordaram essa pauta muito antes e informaram sobre o patrocínio não levantaram suspeitas ou indícios, mas expuseram a realidade: Vorcaro deu dinheiro à Globo.
E a Globo só se manifesta agora em nota oficial diante da reportagem do Estadão. Antes, se fez de morta, quando a notícia foi publicada por veículos de fora da estrutura da grande mídia.
O que a Globo precisa explicar, para que se sinta no direito de cobrar explicações dos outros, é o seguinte:
1. Em maio de 2024, quando recebeu dinheiro de Vorcaro, a Globo não sabia direito quem era Vorcaro? 2. A Globo conhece a origem do dinheiro que recebeu de Vorcaro em Nova York e nos patrocínios de programas de TV da emissora, sabendo que o banco fazia lavagem de dinheiro? 3. Como esse pagamento em NY foi feito? 4. A Globo, diante das investigações sobre o caso Master, se dispõe a abrir seus dados bancários para que fiquemos sabendo quanto recebeu de Vorcaro e em que condições?
A Globo estava quieta até agora, mas foi fustigada por um parceiro de turma, de ideias e de golpes. Se o jornalismo prevalecesse, poderíamos saber mais coisas escabrosas dessa relação dos Marinho com Vorcaro.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



