Banco Master e o muro financeiro
A liquidação do banco expõe a posição incômoda do Brasil no sistema de pagamentos globais
Por André Vieira, Brazil Stock Guide
O colapso do Banco Master, descrito pelo ministro da Fazenda Fernando Haddad como potencialmente “a maior fraude bancária da história do Brasil”, revelou muito mais do que uma sucessão de falhas de governança. O episódio testa a resiliência institucional do país — da autonomia do Banco Central à capacidade do Fundo Garantidor de Créditos — e expõe a pressão política, a reação cautelosa de parte dos grandes bancos e a paciência de investidores que, em muitos casos, acreditaram na promessa de retornos elevados oferecidos pelos CDBs do banco.
A liquidação do banco, porém, deixou em suspenso algo menos óbvio: a tentativa do Master — e, por extensão, do próprio Brasil — de acessar uma arquitetura alternativa de pagamentos globais. Pouco antes de o Banco Central vetar a venda proposta ao Banco de Brasília (BRB), o Master anunciou sua conexão ao CIPS (Cross-Border Interbank Payment System), a infraestrutura chinesa de pagamentos transfronteiriços criada para reduzir a dependência do dólar. Não era um movimento trivial. O Master era o único banco da América Latina com interesse no CIPS, uma alternativa ao SWIFT, hoje peça central da política de sanções dos Estados Unidos.
O pano de fundo global ajuda a entender o peso dessa decisão. Desde 2012, o SWIFT vem sendo usado como instrumento de pressão geopolítica — primeiro contra bancos iranianos, depois contra instituições russas após a invasão da Ucrânia. Em resposta, países sancionados e seus parceiros recorreram a canais paralelos, como o CIPS, para manter fluxos financeiros fora da órbita do dólar. Segundo relatos de mercado, o Banco Master estava entre os poucos intermediários capazes de estruturar transações sensíveis nesse ambiente, incluindo financiamentos ligados à importação de derivados de petróleo russo.
O dilema, portanto, vai muito além do fracasso de um banco. Como membro dos BRICS, o Brasil vem aprofundando laços financeiros com a China, ao mesmo tempo em que permanece estruturalmente dependente de infraestruturas dominadas pelos Estados Unidos. A adesão ao CIPS oferece um grau de autonomia — mas traz riscos regulatórios, reputacionais e geopolíticos. Manter-se exclusivamente no SWIFT garante previsibilidade — e consolida a dependência. Entre Washington e Pequim, o Brasil tem navegado até aqui com a cautela tradicional de sua diplomacia. O problema é que, nos sistemas de pagamentos que agora moldam a economia global, o caminho deixou de ser neutro. Tornou-se uma linha de fricção. A pergunta é se, após o episódio do Master, algum banco brasileiro estará disposto a correr o risco de cruzá-la.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



