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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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Bolsonaro, o filho escolhido e o bolsonarismo são tratados com desprezo por Tarcísio

“O bolsonarista raiz vai aceitar sem reagir à ingratidão do extremista moderado?”, pergunta Moisés Mendes

Governador Tarcísio de Freitas dá entrevista, com Carlos Bolsonaro atrás dele 29/01/2026 REUTERS/Adriano Machado (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Tarcísio de Freitas disse pela quarta vez em uma semana, ao sair da visita a Bolsonaro, na quinta-feira (29), que o presidiário é seu grande amigo. No mesmo dia, Gilberto Kassab, presidente do PSD e secretário de Governo de Tarcísio, declarou que Bolsonaro é um grande líder.

Em nenhuma fala, desde o anúncio da visita a Bolsonaro, que depois foi adiada e remarcada, Tarcísio usou a palavra líder. E em nenhum momento, ao sair da visita e conversar com a imprensa, disse o nome de Flávio Bolsonaro.

Em nenhum momento Tarcísio ao menos sugeriu que veja Bolsonaro como chefe maior da direita no Brasil. E só afirmou que apoiará Flávio como candidato do pai quando foi perguntado e respondeu assim: “Sem dúvida, como eu tenho afirmado constantemente”.

Tarcísio nunca afirmou, nem constantemente nem ocasionalmente, seu apoio a Flávio. E, na quinta-feira, disse de novo que seu projeto para esse ano é buscar a reeleição em São Paulo e “ajudar nosso candidato presidencial”, sem citar Flávio.

Por que Tarcísio se nega a tratar Bolsonaro como um líder, coisa que Kassab faz com naturalidade, e está beiçudo com a candidatura de Flávio? Porque ficou ressentido com a escolha do chefe preso. E porque a criatura está tentando se desplugar do criador.

Kassab esclareceu o seguinte aos que ainda esperam esclarecimentos, em entrevista ao UOL, no mesmo dia da visita e um dia depois de ter anunciado que Ratinho, Caiado e Leite disputarão a gincana do PSD para saber quem será o candidato do partido:

“Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade. Outra coisa é submissão. Uma personalidade como ele, que é governador de São Paulo, que legitimamente tem as pretensões de comandar o País um dia, e, se não tem, muita gente no Brasil quer que ele tenha, precisa mostrar que tem a sua identidade”.

Não precisa dizer mais nada, depois de Tarcísio ter repetido o que Bolsonaro significa para ele e para seu projeto de poder estadual:

“A gente conversou como amigos, a gente vai estar empenhado nesse projeto. Vamos entrar muito fortes, muito unidos, agregando mais pessoas, e falando de perspectiva, falando de projeto para o país”.

É um lero. Não diz nada com nada do que importa para o bolsonarismo, que é a obediência ao chefe e ao que ele pensa. Tarcísio vê Bolsonaro, definitivamente, como um amigo. E Kassab, na jogada ensaiada, diz em seguida que o CEO vacilão não será submisso às ordens de Bolsonaro e que buscará sua própria identidade.

Tarcísio vai trabalhar por Flávio com o entusiasmo de um reserva escanteado, à espera do fracasso do filho ungido e também de que as pesquisas mostrem Lula jantando com facilidade os três porquinhos de Kassab.

Tarcísio torce para que seu nome continue aparecendo bem nas pesquisas, como adversário forte de segundo turno, para constranger Flávio, Bolsonaro e o trio do PSD.

E o bolsonarismo, o que faz diante do extremista moderado inconfiável que esnoba o chefe e o filho do chefe? O bolsonarismo engole o sapo, porque depende de Tarcísio, que pode enfrentar tempo ruim em São Paulo.

O bolsonarismo raiz terá que continuar sustentando um sujeito que não chama Bolsonaro de líder, faz corpo mole na hora de defender Flávio e está à espreita de mudanças no cenário político mais adiante.

A jogada de Kassab com os três pré-candidatos foi ensaiada com Tarcísio, como afronta a Bolsonaro, a Flávio e ao bolsonarismo extremado, e como aposta de que Flávio não sobe a ladeira. Os jornalões dizem que o visitante e o presidiário se reconciliaram, mas esse é o release da assessoria de imprensa de Bolsonaro na Papudinha.

Kassab tenta aplicar um golpe. Tarcísio busca uma identidade de CEO da direita sem Bolsonaro, que o bolsonarismo ingrato e o centrão não conseguem matar. Agora, é só combinar com os russos, o centrão, a velha direita, o bolsonarismo aderente, a Faria Lima e com Globo, Folha, Estadão e Trump. E, se sobrar tempo, com o eleitor.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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