HOME > Poder

Após saída de Caiado, governo busca reaproximação com o União Brasil

Planalto avalia que mudança de governador para o PSD amplia chances de neutralidade do partido em 2026 e fortalece negociações nos estados

Antonio Rueda (Foto: Andressa Anholete/Agência Senado)

247 - A decisão do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, de deixar o União Brasil e se filiar ao PSD abriu uma nova janela de articulação política para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Integrantes do Planalto avaliam que a saída de um dos principais expoentes da ala oposicionista da sigla pode facilitar a aproximação institucional com o partido e ampliar as chances de neutralidade na disputa presidencial deste ano. As informações são do jornal O Globo.

A leitura do governo é de que o movimento de Caiado, anunciado nesta semana, reforça um processo de reaproximação que vinha sendo construído desde o fim do ano passado.

A relação entre o União Brasil e o governo Lula tem sido marcada por oscilações desde o início do atual mandato. Apesar das divergências internas, o partido mantém três representantes na Esplanada dos Ministérios: Waldez Góes, à frente do Desenvolvimento Regional; Frederico de Siqueira Filho, nas Comunicações; e Gustavo Feliciano, no Turismo. Os dois primeiros foram indicados pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, enquanto Feliciano contou com o endosso do presidente da Câmara, Hugo Motta, em razão de alianças regionais na Paraíba.

Formado a partir da fusão entre DEM e PSL, o União Brasil reúne correntes com posições distintas em relação ao governo federal. Parte da sigla mantém postura crítica ao Palácio do Planalto, enquanto outro segmento adota uma linha mais pragmática e governista. Atualmente, o partido é presidido por Antonio Rueda e negocia a formação de uma superfederação com o PP, o que resultaria na maior bancada da Câmara dos Deputados e em uma das mais robustas no Senado. O processo ainda está sob análise do Tribunal Superior Eleitoral.

No governo, a expectativa não é de apoio formal da federação à candidatura de Lula à reeleição. O objetivo central é evitar uma aliança explícita com o campo bolsonarista e trabalhar pela liberação dos filiados, permitindo que decisões sejam tomadas de acordo com as dinâmicas locais. A avaliação de auxiliares presidenciais é de que a saída de Caiado, conhecido por sua oposição dura ao presidente, não altera de forma decisiva o tabuleiro eleitoral, mas funciona como mais um sinal positivo para melhorar o relacionamento institucional.

Após um período de maior tensão, quando Antonio Rueda chegou a antecipar a saída de filiados do governo federal em reação a críticas feitas por Lula em reunião ministerial, interlocutores dos dois lados passaram a atuar para reduzir o desgaste. Esse movimento resultou, no fim do ano passado, em um encontro entre Rueda e a ministra Gleisi Hoffmann, da Secretaria de Relações Institucionais, que consolidou a indicação de Gustavo Feliciano para o Ministério do Turismo. Ele substituiu Celso Sabino, deputado federal licenciado que acabou expulso do União Brasil após contrariar uma decisão partidária e permanecer no governo.

Com a mudança no comando da pasta, governistas passaram a projetar o apoio de cerca de 25 dos 59 deputados do União Brasil à campanha de reeleição de Lula. Esse cenário também foi influenciado pela recuperação da popularidade do presidente, o que levou setores do Centrão a reavaliar posições de maior distanciamento do Planalto. Outro fator citado nos bastidores foi a candidatura do senador Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto, que contrariou partidos que defendiam a construção de um nome único em torno do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

A estratégia do governo inclui o fortalecimento de palanques estaduais como forma de atrair segmentos do Centrão e impedir uma aproximação mais ampla dessas siglas com o bolsonarismo. No Ceará, por exemplo, dirigentes petistas defendem abrir espaço na chapa majoritária para um nome indicado pelo União Brasil, sendo citado o deputado Moses Rodrigues como possível candidato ao Senado. No estado, no entanto, há setores do União que preferem uma aliança com Ciro Gomes, que deve disputar o governo em oposição ao PT.

Além das negociações regionais, há a avaliação de que a reaproximação pode incluir um pacto informal de não agressão, com a redução de críticas públicas entre dirigentes do União Brasil e o governo federal. Dirigentes da futura federação também avaliam que a saída de Caiado não altera o cenário nacional que vinha sendo desenhado, já que a eventual candidatura do governador goiano nunca foi tratada internamente como uma opção consolidada. Segundo esses interlocutores, o debate sobre o posicionamento nacional do bloco ainda não entrou na agenda formal, mantendo em aberto a possibilidade de neutralidade na disputa presidencial.

Artigos Relacionados