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Marcelo Zero

É sociólogo, especialista em Relações Internacionais e assessor da liderança do PT no Senado

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Burros nas areias

Nada mais perigoso que idiotas com poder

Burros nas areias (Foto: Reprodução)

Como afirmamos, Trump cometeu um erro de cálculo monumental ao atacar o Irã, convencido que foi, por Netanyahu, de que o regime iraniano, enfraquecido política e economicamente, cairia com facilidade, após uma intervenção militar relativamente rápida.

Trump foi advertido, por seus militares, de que a coisa seria muito mais difícil e complexa do que o que havia acontecido recentemente na Venezuela, praticamente um passeio. 

Trump, entretanto, pressionado por Netanyahu e incentivado por sua equipe de gente incompetente e ignorante, composta por indivíduos do “calibre” intelectual de Hegseth e Marco Rubio, foi em frente, de olho em uma vitória fácil e expedita, que seria aplaudida até pelos céticos do MAGA. 

Obviamente, fracassou.

Constatou o óbvio. As chances do regime iraniano cair com bombardeios e assassinatos de lideranças são praticamente nulas. A mudança de regime só teria alguma chance de ocorrer com invasão terrestre maciça, em uma guerra sangrenta que duraria anos e que mergulharia os EUA em um “atoleiro” militar e político muito pior do que o que se verificou no Iraque. 

Ante o erro de cálculo evidente, o governo Trump busca, agora, modificar a justificativa para a agressão ao Direito internacional e à Carta das Nações Unidas.

 Fala em acabar com o programa nuclear iraniano, que segundo ele próprio já teria sido “obliterado” na recente guerra dos 12 dias, acabar com o programa de mísseis, destruir a marinha do Irã, acabar com aliados do Irã, como o Hezbollah (o que implicaria transformar o Sul do Líbano numa nova Gaza) etc. 

Procura uma justificativa para sair do conflito, no qual entrou sem uma estratégia viável e crível, “cantando vitória”. 

Vai fracassar, também nesse aspecto. 

A guerra já se alastrou, sem qualquer controle, para vizinhos do Irã que são velhos aliados dos EUA, como Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Emirados Árabes, Jordânia, Omã, Kuwait, etc. 

Considere-se que essas ditaduras medievais sunitas vinham fazendo um movimento estratégico para se transformarem em grandes polos de investimentos, de finanças, de comércio, de turismo, de transporte aéreo etc. Por isso, estavam apostando em estabilidade geopolítica, algo essencial para a atração de investimentos, principalmente os de longo prazo.

Assim, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein, por exemplo, passaram a reconhecer formalmente Israel, pelos famosos “Acordos de Abraão”. A Jordânia já o fazia desde 1994 e o Egito desde 1979. O Marrocos e o Sudão também passaram recentemente (2020) a reconhecer Israel.

A Arábia Saudita, por seu turno, vinha negociando a normalização completa das suas relações com Israel, mas tais negociações, já em estágio bastante avançado, foram interrompidas em 2023, após o início da guerra em Gaza.

De outro lado, deve-se mencionar que, em 2023, em negociações mediadas pela China, a Arábia Saudita, principal país sunita, normalizou suas relações diplomáticas com o Irã, principal país xiita do mundo.

Isso representou um grande ganho de estabilidade no Oriente Médio e no mundo islâmico de forma geral, que agora se desfaz.

O Paquistão, país sunita nuclearizado, já ameaçou entrar no conflito por causa da sua aliança com a Arábia Saudita.

Não bastasse toda essa confusão criada pela agressão ilegal e impensada, os EUA estão incentivando o separatismo dos curdos do Irã.

É outro estúpido erro de cálculo geopolítico, que só agrava uma situação já muito séria.

Esse investimento em separatismo curdo desagrada profundamente outros países da região

“Pelas barbas do profeta!, como diria o narrador Silvio Luiz.  

Mais da metade dos curdos do mundo (55%) vive na Turquia, país da Otan, que encara o separatismo curdo como uma séria questão existencial. Há cerca de 20 milhões de curdos no Sudeste da Turquia. Muitos apoiam o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, que propõe a criação de um país curdo independente. Há também, obviamente, os curdos do Irã (20% total), do Iraque (também 20%) e na própria Síria (5%). Há também milhares de curdos no Líbano. 

Trata-se de uma população de quase 40 milhões de pessoas, distribuída por todos esses países, com cultura, idioma e religiões próprias, que a distingue nitidamente de persas, árabes, turcos etc.

Incentivar o separatismo curdo no Irã, usando os curdos como “bucha-de-canhão”, incentivará, é claro, o separatismo curdo na Turquia, o grande temor do governo turco, e em todos esses outros países. A coisa se agravaria ainda mais.

No Irã, ainda há a questão dos azeris (ou azerbaijanos), minoria étnica que habita o noroeste do país. São cerca de 20 milhões de pessoas. Embora xiitas, como os persas, e normalmente bem integrados à sociedade iraniana, os azeris falam uma língua túrquica e mantêm fortes laços com o Azerbaijão e a Turquia.

O Irã historicamente teme um possível separatismo entre os azeris, embora sempre tenha feito grandes esforços para manter boas relações com o Azerbaijão.

Entretanto, o recente ataque ao Aeroporto Internacional de Naquichevão, no Azerbaijão, já colocou o exército desse país em prontidão contra o Irã, suposto autor do atentado. 

Na realidade, o atentado pode ter sido uma operação de “falsa bandeira” para tentar iniciar um conflito entre esses dois países.

A CIA e o governo de Israel têm vasta experiência em promover o separatismo para enfraquecer regimes que não são do seu agrado. A guerra no Líbano, ocorrida na década de 1980, é um exemplo clássico disso.

Mas esse incentivo ao separatismo resulta, normalmente, em caos e em sangrentas guerras civis, como ocorreu, por exemplo, na antiga Iugoslávia. 

A guerra do Iraque, promovida também com falsas justificativas e sem uma estratégia coerente, provocou uma guerra civil interna e a morte de mais 100 mil iraquianos.

Esse padrão nefasto se repetiu também no Afeganistão, na Líbia, no Sudão, etc.

Pesquisa do projeto “Custos da Guerra” da Universidade Brown estima que mais de 940.000 pessoas foram mortas pela violência direta das guerras no Iraque, Afeganistão, Síria, Iêmen e Paquistão, entre 2001 e 2023. Incluindo as mortes indiretas, o número total sobe para mais de 4,5 milhões.

4,5 milhões de pessoas! Isso não conta os mortos na Palestina, na Líbia e na Somália, entre outros países.

Em suma, a coisa só piora com o tempo e Trump e Netanyahu não parecem ter quaisquer limites, racionais ou éticos, para insistir no investimento em caos, em morte e em instabilidade geral no Oriente Médio e, em última instância, em toda a ordem mundial. 

Tudo isso para derrubar um governo que não lhes agrada, mas que não representava ameaça real e iminente para nenhum Estado. E que estava, até poucos dias, negociando de boa-fé para evitar o pior.

Vão dar com os burros n´água. Ou nas areias.

Nada mais perigoso que idiotas com poder. Teve até o caso de um cabo alemão lunático, que foi o grande responsável, diretamente e indiretamente, pela morte de cerca de 75 milhões de pessoas, das quais 50 milhões eram civis.  

Razão tinha Hegel, um alemão racionalista, que dizia que a única coisa que a História ensina é que os homens nada aprendem com ela. 

E talvez tenha razão também o filósofo espanhol George Santayana, que, em 1922, escreveu uma frase tétrica: "Só os mortos conhecem o fim da guerra". 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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