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Sara York

Sara Wagner York é jornalista, psicanalista, PhD em Educação, pós-doutora em Semiótica, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. Especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, é autora do primeiro trabalho sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido no mestrado em 2020. Tem um filho, é avó e foi a primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro, pela Brasil 247, tornando-se referência nacional nas discussões sobre mídia, educação e direitos humanos. É imortal da Academia de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro.

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CAPES e o debate acadêmico das bolsas

"Penso que o debate merece mais cuidado do que a simples oposição entre rigor e permissividade"

CAPES (Foto: Marcello Casal Júnior / Agência Brasil)
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A decisão recente da CAPES de revogar dispositivos que previam a devolução automática de bolsas por estudantes que não concluíssem seus cursos reacendeu um debate importante sobre o sentido da pós-graduação pública no Brasil.

As reações vieram rapidamente e alguns interpretaram a medida como um enfraquecimento da responsabilidade acadêmica. Outros enxergaram nela um reconhecimento tardio das condições concretas de vida de quem pesquisa no país.

Penso que o debate merece mais cuidado do que a simples oposição entre rigor e permissividade.

A pós-graduação deve, sim, exigir compromisso, seriedade e excelência, e eu, como neo-doutora, me empenho nesse exercício diariamente e isso me custa muito caro — e pago com minha saúde — sem arrependimentos e com grande orgulho. O investimento público na produção de conhecimento não pode ser tratado com descaso. Mas também é preciso perguntar quem são os sujeitos que hoje ocupam os programas de mestrado e doutorado brasileiros.

Durante muito tempo, a universidade foi um espaço acessível apenas a uma pequena parcela da população. Nas últimas décadas, esse cenário começou a mudar. Mulheres, pessoas negras, estudantes periféricos, pessoas trans, trabalhadores e trabalhadoras passaram a ocupar espaços historicamente negados.

Com isso, a bolsa deixou de ser apenas um instrumento de fomento à pesquisa. Para muitos, ela se tornou condição de permanência.

Em um país marcado por desigualdades profundas, a bolsa frequentemente paga o aluguel, garante a alimentação, viabiliza deslocamentos e permite que alguém continue estudando sem abandonar completamente sua subsistência.

Isso não significa defender fraudes ou o uso indevido de recursos públicos. Significa reconhecer que a vida real raramente cabe nos modelos idealizados da burocracia acadêmica.

Também é preciso reconhecer que a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso de uma trajetória acadêmica não recai exclusivamente sobre estudantes. A pós-graduação brasileira convive há décadas com problemas pouco discutidos publicamente. Há orientações abandonadas, processos de assédio moral e discriminação, relações excessivamente hierarquizadas, redes de favorecimento acadêmico e estruturas em que prestígio institucional nem sempre corresponde à qualidade efetiva da formação oferecida.

Não são raros os casos de docentes que acumulam capital simbólico, cargos e reconhecimento sem dedicar a mesma energia à orientação, ao acompanhamento e ao compromisso pedagógico que se espera de uma pós-graduação de excelência. Enquanto isso, mestrandos e doutorandos seguem submetidos à pressão por produtividade, publicação e desempenho, muitas vezes tentando apenas sobreviver em um ambiente marcado por disputas de ego, insegurança profissional e profundas desigualdades sociais. Ignorar essas condições e atribuir exclusivamente aos estudantes a responsabilidade pelas rupturas de percurso é produzir uma leitura parcial e injusta da realidade universitária brasileira.

Pessoas adoecem, famílias entram em crise, condições de trabalho mudam, projetos se transformam. Às vezes, o abandono de um curso não é resultado de irresponsabilidade, mas de circunstâncias que escapam ao controle do estudante e do meio que o cerca.

O que me preocupa é a facilidade com que parte do debate acadêmico recorre à figura do "aproveitador" para explicar situações que muitas vezes revelam vulnerabilidades sociais e institucionais muito mais profundas.

Talvez devêssemos perguntar menos quantos estudantes receberam bolsas sem concluir seus cursos e perguntar mais por que tantos pesquisadores precisam viver em condições tão precárias para produzir conhecimento.

A excelência acadêmica continua sendo um objetivo fundamental. Mas ela não será alcançada por meio da suspeita permanente sobre quem pesquisa. Ela depende de financiamento adequado, acompanhamento qualificado, políticas de permanência e reconhecimento de que a produção de conhecimento é também trabalho.

Num país tão desigual quanto o Brasil, utilizar uma bolsa para sobreviver enquanto se tenta construir uma trajetória acadêmica me parece um problema muito menor do que naturalizar as condições que tornam essa sobrevivência tão difícil.

A universidade pública tem o dever de formar pesquisadores, mas também tem a responsabilidade de compreender a realidade social daqueles que nela ingressam. Confundir vulnerabilidade com má-fé nunca foi um bom caminho para a produção do conhecimento, por isso e só por isso, estamos em ideações polarizadas em um Brasil que é alheio à condição do Outro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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