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Pedro Benedito Maciel Neto

Pedro Benedito Maciel Neto é advogado, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, Ed. Komedi, 2007.

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Celinha, Jamil Haddad e as peras glaceadas

O PSB fez oposição ao governo de Fernando Henrique Cardoso, apoiou Lula no segundo turno em 2002 e vem crescendo, sem radicalismos

Conhecemos Jamil Haddad em 1991, ele era senador e figura de proa na reorganização do Partido Socialista Brasileiro, o PSB.

Quando digo “nós”, me refiro a todos os companheiros do PSB de Campinas que participaram do encontro em Brasília, bem como à Celinha, que foi fundamental na organização do então renascido PSB.

Antes de contar uma historinha, que julgo das mais curiosas, vale a pena compartilhar com o leitor algumas informações sobre a caminhada do médico socialista Jamil Haddad.

Jamil Haddad, carioca, foi médico e político, fundador do PDT, onde ficou de 1979 a 1983, depois participou da reorganização do PSB a partir de 1985, partido ao qual fora filiado antes do golpe de 1964. 

Foi ministro da saúde no governo Itamar Franco e, pelo seu estado, foi senador, deputado estadual e deputado federal, ambos por dois mandatos.

Foi também prefeito do Rio, indicado por Brizola em 1983 (para quem não lembra, pelas regras da ditadura os prefeitos das capitais eram nomeados pelos governadores; Brizola foi eleito em 1982, mas as eleições para prefeito foram apenas em 1985; em São Paulo aconteceu a mesma coisa, Montoro, governador eleito em 1982, indicou Covas como prefeito e nas eleições de 1986 Jânio Quadros venceu Fernando Henrique Cardoso).

Em sua gestão como ministro o SUS – Sistema Único de Saúde, foi implantado em quatrocentos municípios brasileiros e ele foi precursor dos medicamentos genéricos, tendo sido autor do Decreto nº 793, de 5 de abril de 1993, que, dentre outras determinações, preconizava que todo estabelecimento de dispensação de medicamentos deveria dispor, em local visível e de fácil acesso, a lista de medicamentos correspondentes às denominações genéricas e os seus correspondentes de nome ou marca. Assim, o componente ativo (denominação genérica) do fármaco deveria obrigatoriamente figurar na embalagem. Haddad também propôs a ampliação do orçamento da Central de Medicamentos (CEME), a fim de fabricar remédios mais baratos nos laboratórios oficiais. 

Ele foi um grande ministro, aliás, a presidência de Itamar Franco foi, em muitos aspectos, extraordinária, foi durante ela, por exemplo, que o Plano Real foi implantado, ao contrário do que as viúvas do PSDB buscam fazer crer, em revisionismo despiciendo, mas essa é outra história. 

Em 1994, com o rompimento do PSB com o governo Itamar Franco, deixou o ministério, em 14 de março de 2003, já no governo Lula, assumiu a direção geral do Instituto Nacional do Câncer (INCA).

Faleceu em 2009, aos 83 anos. 

Em 2011, o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), órgão normatizador de procedimentos de ortopedia no Brasil, passou a chamar-se Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia Jamil Haddad. 

De 1990 a 1994 fomos muitas vezes a Brasília e Jamil Haddad, ora ministro, ora senador, sempre nos recebeu em sua casa, era paciente e nos contava histórias da sua vida, sua origem libanesa e da sua família de comerciantes.

Certa ocasião, pouco antes do PSB retirar-se do governo Itamar Franco, um companheiro e eu chegamos preocupadíssimos ao apartamento do então ministro em razão da decisão que a executiva do partido tomaria sobre a saída do PSB do governo federal, tínhamos nossas certezas, como os jovens têm certezas... 

Imaginamos que o Dr. Jamil estaria em seu escritório, refletindo sobre o que fazer, sobre qual posição levaria à executiva, etecetera e tal, contudo, ele não estava no escritório, ele estava na cozinha com a Celinha ensinando ao amor da minha vida um acompanhante de carnes, chamado “Peras glaceadas cozidas com açúcar”, nos entreolhamos incrédulos e ele nos pediu calma e arrematou: “Celinha, não esqueça de acrescentar um pouco de gelatina vermelha”. 

Observou mais alguns instantes a performance da Celinha no fazimento das peras glaceadas, sorriu para ela, como que satisfeito com o resultado, e nos chamou à sala de estar.

Sentamos e, calmamente, ele nos disse: “o nosso caminho foi definido no IV Congresso Nacional, em Maceió, o documento “Um Projeto para o Brasil” é que orienta a nossa ação partidária, não nossas vontades e projetos pessoais; nossa luta é em defesa de um Estado forte capaz de planejar e investir em áreas estratégicas, não podemos apoiar o desmonte do Estado”.

O PSB saiu do governo e nas eleições de 1994 cresceu eleitoralmente em todos os níveis: elegeu dois governadores, Miguel Arraes (terceiro governo de Pernambuco) e João Capiberibe (AP), além de Ademir Andrade (Pará) para o Senado; aumentou a bancada de deputados estaduais e deputados federais, entre eles, Eduardo Campos para seu primeiro mandato.  

O PSB fez oposição ao governo de Fernando Henrique Cardoso, apoiou Lula no segundo turno em 2002 e vem crescendo, sem radicalismos e com olhar generoso para aqueles que de fato precisam do Estado.

Essa é a história da semana.

e.t. se alguém quiser a receita das “Peras glaceadas cozidas com açúcar” é só mandar um e-mail, creio que a Celinha a compartilhará.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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