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Filho de José Alencar vira plano B em Minas e é sondado para disputar o governo com apoio de Lula

Josué Gomes da Silva entra no radar do PT mineiro em meio à dificuldade de encontrar candidato e à resistência de Rodrigo Pacheco

Josué Gomes da Silva (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

247 – Em meio à dificuldade do PT e de partidos de esquerda para fechar um nome competitivo ao Governo de Minas Gerais, o empresário Josué Gomes da Silva, filho do ex-vice-presidente José Alencar, passou a ser considerado como alternativa para a disputa, em uma articulação que busca garantir palanque estadual para o presidente Lula em 2026.

A movimentação foi noticiada pela Folha de S.Paulo e confirmada à reportagem por pessoas ligadas ao PT mineiro, segundo o jornal, sem envolver filiação de Josué ao partido. Mineiro de Ubá, na Zona da Mata, Josué tem 62 anos, é presidente do grupo têxtil Coteminas e foi presidente da Fiesp (Federação da Indústria do Estado de São Paulo), com gestão encerrada em 2025.

A busca por um nome e o “palanque” em Minas

Minas Gerais é tratada como peça-chave por partidos que orbitam a base do governo federal por seu peso eleitoral e por ser um estado onde, historicamente, a disputa tende a ser apertada e decisiva. Para o PT, a formação de uma candidatura consistente ao Palácio Tiradentes é vista como caminho para estruturar a campanha local e oferecer sustentação política ao projeto nacional.

O presidente Lula, conforme relatos públicos mencionados na apuração, tem dito que sua primeira opção seria o senador Rodrigo Pacheco (PSD). No entanto, diante de sinais contrários dados pelo parlamentar nos últimos meses, setores lulistas passaram a pressionar por um “plano B” capaz de unificar apoios e abrir diálogo com diferentes segmentos políticos e sociais do estado.

Nesse cenário, o nome de Josué ganhou força por reunir três atributos que, em tese, podem ajudar numa costura ampla: herança política ligada ao período em que José Alencar foi vice de Lula, identidade mineira com origem no interior e trânsito no meio empresarial e industrial.

Quem é Josué e por que seu nome entrou no radar

Josué já esteve no jogo majoritário em Minas: concorreu ao Senado pelo MDB em 2014 e ficou em segundo lugar, com 40% dos votos, quando apenas uma vaga estava em disputa. A lembrança dessa votação e o fato de ter ocupado a presidência da Fiesp reforçam a percepção, dentro do PT mineiro, de que ele poderia ser apresentado como um nome com “amplitude”, capaz de dialogar para além da militância tradicional.

Além disso, a apuração registra dois episódios recentes citados como “vitoriosos” por lideranças que defendem a sondagem: o encerramento de sua gestão na Fiesp em 2025 e a aprovação, por credores, do plano de recuperação judicial da Coteminas no fim do ano passado, em uma reestruturação que envolve dívidas de R$ 2 bilhões.

Procurado para comentar sobre a movimentação, Josué não assumiu compromisso com o plano e evitou alimentar expectativas. À Folha, ele declarou: "especulações neste momento são naturais" e acrescentou que o estado tem excelentes nomes e grandes lideranças. A fala é vista, por interlocutores, como uma forma de manter portas abertas sem assumir uma pré-candidatura.

A articulação de Virgílio Guimarães e o desenho das conversas

Segundo a apuração noticiada, as conversas teriam partido de Virgílio Guimarães, ex-deputado mineiro, um dos fundadores do PT e próximo da família Alencar. Ele próprio reconheceu a legitimidade de lembrar o nome do empresário, mas ressaltou que não há iniciativa concreta do próprio Josué.

Virgílio afirmou à Folha: "É uma pessoa que merece ser lembrada [nas articulações], acho natural. Mas é importante dizer que ele nunca tomou uma iniciativa em torno disso, não há nada de concreto, ainda mais da parte dele". A declaração aponta para um processo ainda preliminar, mais parecido com uma “sondagem” do que com uma articulação formal.

O ex-parlamentar atualmente é assessor do ministro Alexandre Silveira (PSD) no Ministério de Minas e Energia, informação relevante porque a disputa mineira envolve também rearranjos partidários e possíveis trocas de legenda que podem impactar o tabuleiro local.

O quebra-cabeça mineiro: Pacheco, Tadeu Leite, Kalil e as outras opções

A dificuldade do PT em fechar um nome se tornou mais visível à medida que potenciais candidatos foram, um a um, descartados ou passaram a sinalizar resistência. Entre os nomes citados na política mineira está o do presidente da Assembleia Legislativa, Tadeu Leite (MDB), que tem afirmado que não será candidato a cargo majoritário em 2026.

Também foram ventilados, segundo a apuração, a reitora da UFMG, Sandra Goulart, o ex-procurador-geral de Justiça Jarbas Soares e a prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão, que afirma que seguirá no cargo. Cada um desses nomes carrega virtudes políticas específicas, mas também limitações: uns têm projeção institucional e reputação, outros têm densidade eleitoral localizada, e há quem não demonstre disposição para entrar no embate.

O ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT) volta a ser lembrado como nome de recall eleitoral, mas persistem rusgas com lideranças locais desde 2022, quando, apoiado por Lula, perdeu para Romeu Zema (Novo) no primeiro turno.

Enquanto isso, o PSD se movimenta: filiou o vice-governador Mateus Simões, que pretende se lançar ao governo estadual. Do lado do MDB, além de Tadeu Leite — que diz não querer disputar —, há a pré-candidatura declarada de Gabriel Azevedo, ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte. E o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) ainda não decidiu se concorrerá ou não, mantendo o suspense sobre o desenho definitivo do campo conservador e de centro-direita.

Senado, Silveira e as costuras partidárias no entorno do governo

A disputa pelo Governo de Minas não é a única peça: o Senado também está no centro das negociações. A prefeita de Contagem, Marília Campos (PT), chegou a ser cotada ao governo, mas é pré-candidata do partido ao Senado, em uma chapa que, segundo a apuração, poderia incluir o ministro Alexandre Silveira.

Silveira, por sua vez, é apontado como aliado de primeira hora de Lula e teria possibilidade de deixar o PSD, cenário que reorganizaria alianças. Um dos destinos mencionados é o PSB. Esse tipo de movimento é crucial porque, em Minas, as alianças costumam ser amplas e pragmáticas, e a montagem de chapas majoritárias depende do encaixe entre governo, Senado e forças regionais.

É nesse ambiente de rearranjos que a sondagem a Josué passa a fazer sentido político: ela pode funcionar tanto como alternativa real quanto como instrumento de pressão para que outros atores definam posição — especialmente se o plano original com Pacheco não se concretizar.

O que a eventual candidatura de Josué representaria

Se a hipótese avançar, Josué entraria como figura de perfil híbrido: empresarial, com histórico recente no comando da Fiesp, e com simbologia política associada a José Alencar, vice de Lula nos dois primeiros mandatos. Isso pode atrair apoios de segmentos econômicos e, ao mesmo tempo, dialogar com eleitores que guardam memória positiva da parceria Lula–Alencar.

Ao mesmo tempo, uma candidatura assim exigiria calibragem cuidadosa para não se tornar refém de rótulos simplificadores. Dentro do próprio campo progressista, a aceitação dependeria do desenho programático, das alianças e do compromisso explícito com um projeto para Minas. Já no centro político, a força de Josué seria testada em um terreno competitivo, com adversários que buscam ocupar o discurso de eficiência administrativa e de gestão.

Por ora, o que existe é uma articulação ainda em fase inicial, ancorada em conversas e na avaliação de que o PT precisa acelerar definições para construir um palanque sólido em Minas. Com o calendário político apertando e a lista de alternativas encolhendo, a sondagem ao filho de José Alencar revela mais do que um nome: expõe a urgência de um plano viável para 2026 no segundo maior colégio eleitoral do país.

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