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Plínio Gentil

Doutor em Direito e em Educação, professor universitário de Direito Penal e Direitos Humanos em graduação e pós. Membro do Grupo de Pesquisa Educar Direito da UFSCar e Procurador de Justiça em S. Paulo, associado-fundador do coletivo Por um Ministério Público Transformador

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Chama-se imperialismo

A ação do governo Trump sobre a Venezuela reacende a ideia de que o fantasma está vivo e, pior, não é um fantasma e sim um movimento concreto

Presidente dos EUA, Donald Trump, em Washington - 06/01/2026 (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

O sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores por forças militares dos Estados Unidos, no dia 3 de janeiro, aliado ao anúncio de que passariam a governar a Venezuela e explorar seu petróleo, despertou os que dormiam: “um roubo!”, disseram. Sim, podem chamar de roubo, mas o que a intervenção americana em solo latino serviu para mostrar ao mundo – como se fosse preciso – foi que existe uma coisa da qual pouco se fala, mas que está presente, como sempre esteve: chama-se imperialismo. 

Ficou fora de moda falar disso desde que, nos anos 1990, se desfez o bloco socialista e as esquerdas, que o denunciavam, ficaram desarvoradas, se dispersaram e muitas hoje seguem perdidas em batalhas desarticuladas, contra moinhos de vento. Mas, como um fantasma na casa, uma sombra da qual é proibido falar, o imperialismo sempre agiu e segue agindo, por vezes disfarçado de globalização. Não pode haver capitalismo monopolista sem imperialismo, que é sua etapa superior: há entre eles uma relação direta inevitável. Se o capital, após monopolizar um setor ou um mercado, não sair em busca de novas fronteiras, seja por quais meios for, será ultrapassado pela concorrência.

A ação do governo Trump sobre a Venezuela reacende a ideia de que o fantasma está vivo e, pior, não é um fantasma e sim um movimento concreto, objetivo e inevitável das economias hegemônicas. Na verdade, Trump só faz mais barulho, mas avançar sobre as nações do mundo, financiar golpes, impor modelos políticos, promover invasão cultural, e se apoderar de riquezas é a prática usual do dito Norte global. Só que, em geral, por meios mais envernizados, fingindo haver razões jurídicas ou morais para os mais diversos modos de intervenção e violação da autonomia de países. 

Trump, que não é um elemento orgânico do imperialismo estadunidense – ele representa o capital médio e não o grande capital -, apenas escancarou aquilo que, no acerto global após a II Guerra, tem sido o costume do chamado bloco capitalista ocidental, Afeganistão, Iraque, Líbia e outros que o digam. Capitaneado pelos Estados Unidos e coadjuvado pelos países do G-7, esse bloco age sob a impotência da ONU, o amparo militar da OTAN, a gestão financeira do Banco Mundial e as ações de impacto cultural apoiadas pelo Departamento de Estado dos EUA, desde financiamento de filmes até programas de intercâmbio, bolsas de estudo e apoio a organizações religiosas. 

Qualquer análise desta ação militar sobre a Venezuela, para ser consistente, precisa partir da materialidade dos fatos: em outras palavras, precisa considerar a realidade do imperialismo e da luta de classes. Há uma necessidade de o capital, em sua fase monopolista, se expandir mundo afora, senão ele sucumbe. Isto não se deve à ganância do capitalista, nem à sua maldade, nem porque ele não aceitou Jesus: decorre das condições objetivas do capitalismo, que transcendem o capitalista e o condicionam. Nesses domínios, nada o pode deter, nem o amor a Deus, o respeito à família, nem os direitos humanos. Na geopolítica mundial, impõe-se uma divisão internacional do trabalho: o papel do chamado terceiro mundo é fornecer commodities e mão de obra barata e não é verdade que esteja em desenvolvimento, assim como as nações desenvolvidas não foram necessariamente subdesenvolvidas antes. 

O ataque à Venezuela é só mais uma etapa desse processo, que se pratica no mundo inteiro, com a desvantagem de que agora chegou mais perto. Oh, yes, o império não pode perder seu quintal latino. Na verdade, chegou perto demais. Tão perto que todos os países da América do Sul deveriam estar unidos em protesto, denúncia e ação, na medida do possível, contra a agressão. De novo, é preciso considerar a materialidade das coisas e não as subjetividades de quem quer que nelas esteja envolvido: significa dizer que, gostando ou não de Maduro, apreciando ou não o governo bolivariano, considerando ou não seu país uma democracia, o dever é defender a autonomia venezuelana e seus poderes constituídos, porque eles e seu povo organizado é que estão travando uma luta anti-imperialista. Fosse o cão chupando manga a governar a Venezuela, a obrigação de todos os povos da América do Sul seria a mesma: denunciar a agressão, defender a autonomia do país e exigir o fim do sequestro. 

Por fim, fica um alerta às forças auto declaradas progressistas: a inspiração para combater o opressor não está na louvação do liberalismo, na redução da democracia às eleições, nos editoriais do New York Times, nem nas teses do Partido Democrata norte-americano. Está na análise da base concreta dos jogos de poder, de quem faz o quê e porquê, quem ganha e o que precisa fazer para ganhar. Isso.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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