China defende o multilateralismo em um mundo cada vez mais fragmentado
Em meio a conflitos e rivalidades crescentes, Pequim busca fortalecer o papel da ONU e do multilateralismo como alternativa à fragmentação da ordem global
O mundo em 2026 parece cada vez mais instável. Conflitos continuam a surgir em diferentes regiões, pressões econômicas são utilizadas de forma mais aberta como instrumento político e alianças de longa data estão sob tensão.
Diante desse cenário, a questão que se coloca para formuladores de políticas públicas já não é se a ordem global está mudando, mas sim o que irá substituí-la.
Esse tema foi abordado pelo ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, em entrevista coletiva realizada no domingo durante as Duas Sessões. A coletiva tratou de temas que vão desde conflitos no Oriente Médio até as relações bilaterais da China. Por trás da diversidade de assuntos, no entanto, havia um eixo central: a defesa de que o multilateralismo deve continuar sendo o princípio orientador das relações internacionais.
À medida que o sistema global se torna mais complexo e o poder passa a ser distribuído de forma mais ampla, nenhum país — por mais forte que seja — consegue lidar sozinho com os desafios globais. Para a China, a alternativa à cooperação seria um mundo cada vez mais direcionado à fragmentação e ao confronto.
A base da ordem global
Durante a coletiva, Wang voltou repetidamente a duas palavras: regras e ordem. A ênfase não foi acidental. “A China convoca mais países a participarem e apoiarem a Iniciativa de Governança Global (GGI) e a trabalharem juntos para revitalizar a ONU, defender a ONU e torná-la mais forte”, afirmou.
A mensagem reflete a visão de longa data da China de que a governança global deve estar centrada nas Nações Unidas, e não em blocos geopolíticos. Nessa perspectiva, reformar e fortalecer o sistema da ONU — em vez de desmontá-lo — é visto como o caminho mais prático para o futuro.
Essa posição encontra eco no cenário internacional atual. Para muitos países, especialmente os menores e em desenvolvimento, a ONU continua sendo o único fórum em que suas vozes possuem o mesmo peso formal que as das grandes potências.
Preocupações sobre a erosão das regras globais também são compartilhadas por organizações humanitárias e especialistas em direito internacional. Balthasar Staehelin, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, afirmou à CGTN que o enfraquecimento do direito internacional já produziu consequências devastadoras.
“Se você olhar para o direito internacional, estamos particularmente preocupados com o direito dos conflitos”, disse. “Infelizmente, vemos um respeito insuficiente por esse direito em todo o mundo, o que cria enorme sofrimento e reduz as perspectivas de recuperar paz, desenvolvimento e estabilidade.”
Nesse sentido, a ênfase da China na governança multilateral reflete uma ansiedade mais ampla no cenário global. À medida que a competição geopolítica se intensifica, manter regras compartilhadas torna-se mais difícil — e também mais necessário.
Diálogo em vez de força
O Oriente Médio é uma das regiões onde essas tensões se tornam cada vez mais evidentes. “Ao ver o Oriente Médio envolto em chamas, quero dizer que esta é uma guerra que nunca deveria ter acontecido e que não beneficia ninguém”, declarou Wang. “A força não é o caminho para resolver problemas. Recorrer às armas apenas gera novo ódio e novas crises.”
A resposta chinesa tem sido enfatizar a diplomacia em vez da intervenção. O Ministério das Relações Exteriores da China informou que manteve comunicação com diversos atores da região e está enviando um enviado especial para incentivar o diálogo.
Essa abordagem reflete um princípio mais amplo da política externa chinesa: soluções sustentáveis para crises geopolíticas precisam surgir por meio de negociação.
Para alguns países, especialmente no Sul Global, essa postura tem apelo. Ela coloca a soberania e o direito internacional no centro da gestão de crises. O embaixador da Venezuela na China, Remigio Ceballos, definiu a posição chinesa nesses termos. “Enquanto todos os países respeitarem o direito internacional, haverá paz no mundo”, afirmou Ceballos à CGTN. “Podemos ver que a China é uma líder nessa área.”
A ênfase no diálogo destaca que, à medida que as tensões globais aumentam, cresce também a expectativa de que potências relevantes atuem como estabilizadoras — e não como aceleradoras de conflitos.
A busca por um novo equilíbrio global
Durante décadas, a política internacional foi vista como um sistema dominado por uma única superpotência. Hoje, essa narrativa parece cada vez mais ultrapassada. A Iniciativa de Governança Global proposta pela China busca garantir que as vozes do Sul Global estejam mais plenamente representadas na tomada de decisões internacionais.
A GGI promove a cooperação em vez da confrontação geopolítica. Helga Zepp-LaRouche, fundadora do Instituto Schiller, um centro de estudos político e econômico, afirma que iniciativas desse tipo procuram superar a lógica de soma zero que influenciou a política global por muito tempo.
“A geopolítica foi a principal razão para as duas guerras mundiais no século XX”, disse ela à CGTN. “É extremamente importante superar conflitos regionais e históricos estabelecendo um nível mais elevado de cooperação.”
Na prática, a China também tem buscado institucionalizar o diálogo por meio de novas plataformas. O recém-lançado “Grupo de Amigos da Governança Global”, por exemplo, pretende fortalecer a comunicação entre países que atuam no âmbito das Nações Unidas.
O mais recente relatório de trabalho do governo apresentado durante as Duas Sessões reafirmou o objetivo da China de promover “um mundo multipolar igualitário e ordenado”.
“Como a força mais importante do mundo para a paz, a estabilidade e a justiça, temos plena confiança no futuro da humanidade”, afirmou Wang. “Estamos prontos para trabalhar com todos os países de ideias semelhantes para perseguir o objetivo de construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade.”
Em um período marcado por rivalidades geopolíticas e incertezas, a China se posiciona como defensora da cooperação multilateral.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



