China: mercado do mundo
Ao fortalecer o consumo interno e atrair demanda global, Pequim reposiciona a China como eixo estratégico do capitalismo do século XXI
Ao anunciar a ampliação da iniciativa “Compras na China” para 2026, Pequim sinaliza algo muito maior do que uma política de estímulo ao varejo ou ao turismo de consumo. O que está em curso é uma transformação silenciosa — porém potencialmente histórica — na forma como o crescimento chinês será sustentado e, mais do que isso, na própria geografia do capitalismo global. Não se trata apenas de vender mais. Trata-se de reorganizar o centro gravitacional da demanda mundial.
Da fábrica ao mercado do mundo
Durante décadas, a ascensão chinesa foi explicada por uma fórmula relativamente conhecida: industrialização acelerada, inserção competitiva nas cadeias globais e extraordinária capacidade exportadora. A China tornou-se a “fábrica do mundo”, abastecendo mercados ocidentais e acumulando reservas internacionais em uma escala sem precedentes históricos.
Hoje, porém, o país parece dar um passo adicional e qualitativamente distinto.
A estratégia de atrair consumo estrangeiro, incentivar marcas globais a lançar produtos em território chinês e transformar grandes cidades em polos internacionais de compras sugere uma ambição clara: converter-se também no mercado do mundo.
Em discurso na Cúpula de CEOs da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC, sigla em inglês), em Gyeongju, na República da Coreia, no ano passado, Xi Jinping afirmou que a China pode oferecer mais oportunidades de crescimento para a comunidade empresarial global. A APEC reúne 21 economias, responsáveis por cerca de metade do comércio mundial e por uma parcela muito significativa do PIB global.
A China é atualmente o segundo maior mercado mundial em consumo e importações e o único país em desenvolvimento que realiza uma exposição internacional de importação em nível nacional e continua a abrir seu mercado ao mundo.
“O mercado chinês é enorme e promissor. Estamos avançando continuamente em uma abertura de alto padrão e nos esforçamos para ajudar todas as partes a prosperar por meio de maior abertura e conectividade”, disse Xi.
Essa mudança não deve ser lida como abandono do modelo industrial. Ao contrário, trata-se de uma tentativa sofisticada de combinar potência produtiva com densidade de mercado interno — uma dupla condição que, historicamente, caracterizou as economias capazes de exercer verdadeira centralidade no sistema internacional.
Os Estados Unidos fizeram isso no século XX. A China parece disposta a testar essa posição no XXI.
Mudança de regime de crescimento
Do ponto de vista da economia política, estamos possivelmente diante de uma transição de regime de crescimento.
Economias muito dependentes das exportações tornam-se vulneráveis aos ciclos externos, ao protecionismo e às oscilações geopolíticas. Fortalecer o consumo doméstico — e, agora, também atrair consumidores estrangeiros — funciona como um amortecedor estrutural contra a instabilidade global.
Não se trata de um expediente conjuntural. Trata-se de reduzir a exposição ao mundo sem se fechar para ele. Essa distinção é crucial.
A China não parece buscar isolamento, mas autonomia relativa — conceito clássico das teorias do desenvolvimento, frequentemente associado à capacidade de sustentar crescimento mesmo em ambientes internacionais adversos.
Em um cenário marcado por guerras comerciais, restrições tecnológicas, friend-shoring e reconfiguração das cadeias produtivas, ampliar o peso do mercado interno torna-se uma forma de seguro macroeconômico.
Quanto maior a demanda doméstica, menor a vulnerabilidade estratégica.
Abertura seletiva: longe de uma guinada neoliberal
Uma leitura superficial poderia interpretar o convite a marcas globais como sinal de liberalização acelerada. Essa conclusão seria precipitada.
O que se observa é uma abertura cuidadosamente administrada pelo Estado — instrumental, gradual e compatível com prioridades nacionais.
Ao atrair empresas internacionais, Pequim parece perseguir múltiplos objetivos:
- elevar padrões de qualidade e competição;
- estimular inovação tecnológica;
- pressionar empresas locais a subir na cadeia de valor;
- diversificar a oferta ao consumidor;
- consolidar cidades chinesas como centros globais de consumo.
Nada disso soa como rendição ao mercado. Soa como estratégia.
A tradição do desenvolvimento tardio sempre enfatizou que a abertura econômica pode ser virtuosa quando subordinada a um projeto nacional — e perigosa quando guiada apenas pela lógica financeira. A China, ao que tudo indica, continua operando segundo o primeiro princípio.
Não abre mão do planejamento.
Não abdica da política industrial.
Não entrega os comandos do sistema.
Abre — mas sob suas condições.
O consumo como forma de poder
Talvez o aspecto mais subestimado dessa iniciativa seja seu significado geopolítico. Grandes mercados geram dependência.
Empresas ajustam estratégias para acessar consumidores. Países moderam tensões quando interesses econômicos relevantes estão em jogo. Cadeias produtivas se reorganizam em torno dos polos de demanda.
Durante décadas, exportar para os Estados Unidos foi quase uma necessidade sistêmica para inúmeras economias. O consumidor americano funcionou como motor do crescimento global.
Se a China conseguir ocupar parte desse papel, mesmo que de forma incompleta, veremos um deslocamento silencioso — porém profundo — na arquitetura do capitalismo.
O mercado também projeta poder.
Talvez de maneira menos visível que bases militares, mas frequentemente mais duradoura.
Um escudo contra a fragmentação do mundo
O contexto internacional ajuda a explicar a racionalidade dessa estratégia.
A economia mundial atravessa um período de fragmentação crescente:
- disputas tecnológicas entre grandes potências;
- ressurgimento de políticas industriais nacionais;
- expansão de barreiras comerciais;
- tensões geopolíticas persistentes.
Nesse ambiente, depender excessivamente da demanda externa torna-se arriscado.
Fortalecer o consumo interno — e ampliar sua dimensão internacional — permite à China reduzir a sensibilidade a choques políticos e comerciais.
É menos uma política de estímulo e mais uma arquitetura de resiliência.
Os obstáculos não são triviais
Uma análise rigorosa, contudo, não pode ignorar os desafios.
Entre eles, destacam-se quatro tensões estruturais:
Desigualdade de renda: embora tenha diminuído ao longo das últimas décadas, ainda limita a expansão de um consumo de massa plenamente robusto.
Elevada taxa de poupança das famílias: frequentemente associada à necessidade de autoproteção diante de custos com saúde, educação e envelhecimento.
Reacomodação do setor imobiliário: a desaceleração do mercado de propriedades afeta o chamado efeito riqueza, tradicionalmente relevante para o comportamento do consumidor.
Transição demográfica: o envelhecimento populacional tende a alterar padrões de gasto e crescimento.
Esses fatores sugerem que o futuro do consumo chinês dependerá menos do brilho das vitrines e mais da profundidade das políticas sociais.
Em outras palavras, ampliar a demanda exige fortalecer redes de proteção e reduzir incertezas — uma agenda que combina economia e política em proporções inseparáveis.
O equívoco das leituras curto-prazistas
Parte da análise ocidental provavelmente classificará essa iniciativa como mero estímulo anticíclico destinado a compensar desacelerações recentes.
Essa interpretação parece curta. O que pode estar em formação é algo mais ambicioso: a construção da China como uma das principais âncoras da demanda global.
Se essa trajetória se consolidar, estaremos diante de uma transformação comparável — guardadas as diferenças históricas — à emergência do consumidor americano no pós-Segunda Guerra.
Não é exagero afirmar que isso alteraria:
- fluxos internacionais de investimento;
- estratégias corporativas;
- padrões de inovação;
- e até alinhamentos diplomáticos.
Quando mercados mudam de lugar, o poder costuma acompanhá-los.
Entre a produção e o consumo: a síntese chinesa
Talvez a singularidade do experimento chinês esteja justamente na tentativa de evitar uma armadilha que marcou outras economias maduras: a substituição da produção pela financeirização.
A China não parece disposta a escolher entre indústria e consumo.
Busca combinar ambos.
Se conseguir, poderá inaugurar um arranjo pouco comum na história econômica recente: uma potência simultaneamente produtiva e consumidora, apoiada por coordenação estatal e planejamento de longo prazo.
Isso não elimina contradições — nenhum processo de desenvolvimento o faz —, mas indica uma estratégia coerente com a busca por estabilidade em um mundo cada vez mais volátil.
Uma pergunta para o século XXI
Talvez a questão decisiva já não seja saber se a China conseguirá estimular seu consumo. A pergunta mais profunda é outra: o capitalismo do século XXI começará a se organizar em torno do consumidor chinês?
Caso a resposta seja ao menos parcialmente positiva, não estaremos apenas diante de uma política econômica bem-sucedida.
Assistiremos a uma redistribuição silenciosa — porém estrutural — do poder econômico mundial.
E, como a história costuma demonstrar, quando o eixo da demanda se desloca, o eixo da influência tende a segui-lo.
As novas vitrines chinesas podem não ser apenas espaços de consumo. Podem ser as janelas por onde se observa o nascimento de uma nova etapa da economia global.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



