BYD supera Ford em vendas globais e sinaliza virada histórica da indústria automotiva
Montadora chinesa supera a americana pela primeira vez, avança no ranking mundial e pressiona rivais com elétricos baratos e cheios de tecnologia
247 – A Ford Motor Co. ficou atrás da BYD Co. em vendas globais de veículos pela primeira vez no ano passado, em um marco que evidencia a ascensão acelerada das montadoras chinesas e as dificuldades das tradicionais fabricantes ocidentais na transição para os veículos elétricos.
A informação foi divulgada pela Bloomberg, com base nos números de vendas e entregas no atacado informados pelas empresas. Os dados confirmam que a BYD ultrapassou a Ford no ranking global de fabricantes, avançando para a sexta posição e empurrando a montadora americana para o sétimo lugar.
Ultrapassagem inédita: BYD à frente da Ford no mundo
Segundo os números reportados, as vendas no atacado da Ford recuaram quase 2% no ano passado, para pouco menos de 4,4 milhões de veículos. Esse volume ficou abaixo dos 4,6 milhões de unidades que a BYD informou em janeiro.
A diferença não é apenas estatística. Ela simboliza uma mudança de centro de gravidade no setor automotivo global, que passa a ver uma fabricante chinesa — fortemente associada à liderança em eletrificação e inovação — ultrapassar uma das marcas mais tradicionais da indústria dos Estados Unidos.
Com isso, a BYD passa a ocupar o posto de número 6 no ranking mundial de vendas, exatamente uma posição à frente da Ford, conforme os dados apresentados.
O paradoxo da Ford: melhora nos EUA, perda de fôlego fora de casa
Os resultados apontam um contraste importante: a Ford teve crescimento nas vendas nos Estados Unidos no ano passado, mas perdeu terreno na Europa e, sobretudo, na China.
É justamente nesse ponto que a disputa se torna mais estrutural do que conjuntural. A Ford enfrenta um ambiente em que a competição deixou de ser apenas entre grandes marcas históricas e passou a incluir novos protagonistas domésticos chineses, capazes de oferecer veículos elétricos com preços mais baixos e maior apelo tecnológico.
Na China, fabricantes como BYD, Xiaomi Corp. e Geely Automobile Holdings Ltd. ampliaram participação de mercado e tomaram espaço de montadoras estrangeiras, em grande medida por causa de elétricos acessíveis e carregados de recursos digitais e conectividade.
A China como epicentro: preço, tecnologia e escala mudam a competição
A perda de espaço por montadoras estrangeiras no mercado chinês tem sido um dos grandes sinais de alerta para o setor global. A dinâmica descrita pelos números envolve três fatores combinados: escala produtiva, integração tecnológica e política de preços agressiva.
Ao oferecer veículos elétricos “cheios de tecnologia” e com preços competitivos, marcas chinesas transformaram a disputa em uma corrida onde o custo-benefício passou a valer mais do que o prestígio histórico.
Nesse cenário, a BYD não apenas mantém crescimento como também se consolida como um player global, com avanço em diversos continentes e capacidade de competir tanto em volume quanto em posicionamento.
Transição elétrica turbulenta: o peso financeiro no caminho da Ford
A Ford, por sua vez, atravessa uma transição complexa para os veículos elétricos. O desempenho global mais fraco ocorre enquanto a empresa tenta ajustar estratégia, portfólio e investimentos a uma nova realidade tecnológica e competitiva.
De acordo com o que foi relatado, a montadora anunciou US$ 19,5 bilhões em encargos para reformular sua estratégia e enfrentar as dificuldades do processo de mudança. O número dá dimensão do custo da adaptação e ajuda a explicar por que o período é descrito como “acidentado” para a empresa.
A disputa com a BYD, portanto, não se resume a uma comparação anual de volumes, mas reflete um choque entre modelos industriais: de um lado, a reconfiguração cara e lenta de uma gigante tradicional; de outro, a expansão rápida de uma fabricante que cresceu já no ritmo da eletrificação.
Expansão internacional: BYD avança na Europa, América do Sul e Ásia
O avanço da BYD não ficou restrito à China. A fabricante também ampliou presença em mercados da Europa, da América do Sul e de países asiáticos, com exportações que chegaram a 1,05 milhão de veículos em 2025.
A empresa tem metas ainda mais ambiciosas para o ano seguinte: elevar as exportações para 1,3 milhão em 2026. Essa trajetória reforça que a disputa por espaço global tende a se intensificar, inclusive em regiões onde montadoras ocidentais historicamente dominaram.
Na prática, a expansão internacional amplia o impacto competitivo sobre rivais, porque combina escala crescente com uma estratégia de preços e produtos adaptada à demanda por eletrificação e tecnologia embarcada.
O desafio de 2026: menos subsídios e pressão contra descontos agressivos
Apesar do avanço, a BYD também entra em 2026 com obstáculos relevantes no mercado doméstico. O ambiente na China deve ficar mais difícil com a redução de subsídios governamentais e com alertas de reguladores, que indicaram possibilidade de penalidades severas caso as montadoras mantenham descontos agressivos.
Esse ponto é crucial porque parte da força competitiva das marcas chinesas está associada a uma disputa de preços intensa, que pressiona margens e coloca em xeque a sustentabilidade de algumas estratégias comerciais.
Se os estímulos diminuem e a regulação aperta, o setor pode enfrentar um novo equilíbrio, em que o crescimento continua, mas sob condições mais duras. Ainda assim, o fato de a BYD mirar 1,3 milhão de exportações sugere que a empresa tenta compensar eventuais dificuldades em casa com maior presença fora da China.
O topo do ranking: Toyota segue líder mundial
No topo do ranking global, a Toyota Motor Corp. manteve a liderança pelo sexto ano consecutivo. As vendas globais da empresa cresceram 4,6%, alcançando 11,3 milhões de veículos.
O dado confirma que, embora a disputa por posições intermediárias esteja mudando rapidamente, a liderança global ainda pertence a uma montadora com escala gigantesca e presença consolidada em múltiplos mercados.
Ao mesmo tempo, a fotografia do ranking mostra um setor em transformação: a Toyota preserva o primeiro lugar, enquanto a BYD avança e ultrapassa a Ford — um movimento que tende a influenciar decisões de investimento, reposicionamento tecnológico e estratégias de produção em todo o planeta.
O que a virada significa para o setor automotivo global
A ultrapassagem da BYD sobre a Ford funciona como um sinal de que a corrida da eletrificação está reorganizando vencedores e perdedores no curto prazo. Para as montadoras tradicionais, o recado é direto: competir com fabricantes chinesas exige velocidade, eficiência industrial e produtos que conciliem tecnologia e preço.
Para a Ford, a pressão se dá em duas frentes. A primeira é recuperar competitividade em mercados fora dos EUA, especialmente na China, onde a disputa se tornou um teste de sobrevivência para marcas estrangeiras. A segunda é atravessar a transição elétrica sem ampliar ainda mais custos e encargos que já somam dezenas de bilhões de dólares.
Para a BYD, o desafio é sustentar crescimento com menos subsídios e sob maior vigilância regulatória, sem perder o diferencial que a levou a subir no ranking: a capacidade de entregar veículos eletrificados competitivos, em grande escala, e com forte apelo tecnológico.
Em resumo, os números do ano passado consolidam uma nova etapa da indústria automotiva: a ascensão chinesa deixa de ser tendência e passa a ser fato consumado em volume global, com efeitos diretos sobre a estratégia das gigantes tradicionais e sobre a disputa por mercados na Europa, nas Américas e na Ásia.

