Veículos de nova energia viram vitrine do planejamento chinês, diz editorial do Global Times
Com salto de vendas e ecossistema industrial integrado, setor de VNE é apontado como exemplo de desenvolvimento inclusivo na modernização da China
247 – O avanço dos veículos de nova energia (VNEs) produzidos na China está redefinindo a disputa global da indústria automotiva, com crescimento acelerado na Europa e expansão das cadeias tecnológicas ligadas à transição energética, segundo editorial publicado pelo Global Times. O texto sustenta que o setor se tornou um exemplo de “desenvolvimento inclusivo” na modernização chinesa, ao combinar política industrial de longo prazo, inovação doméstica e construção de um ecossistema produtivo completo.
De acordo com dados citados no editorial, compilados pela plataforma internacional Dataforce, as montadoras chinesas registraram em dezembro de 2025 um salto de 126% nas vendas no mercado europeu de automóveis, na comparação anual, e superaram pela primeira vez a marca de 100 mil unidades vendidas em um mês. No mesmo período, as marcas chinesas teriam alcançado 9,5% de participação no mercado europeu, desempenho que o jornal descreve como um marco capaz de “surpreender o mundo”.
Salto na Europa e foco nos carros eletrificados
O editorial aponta que a arrancada se concentra especialmente nos modelos eletrificados, eixo do crescimento recente do mercado europeu. O texto menciona reportagem da Bloomberg para enfatizar essa tendência e registra que montadoras ocidentais passaram a organizar visitas e delegações à China, em busca de aprendizado sobre tecnologia de baterias, sistemas de controle inteligente e, mais amplamente, sobre o modelo de desenvolvimento industrial aplicado no país.
No argumento do Global Times, a cena simboliza uma virada histórica. Há pouco mais de uma década, observa o editorial, o mercado automotivo chinês era dominado por marcas europeias, norte-americanas, japonesas e sul-coreanas, enquanto a cadeia industrial doméstica estaria concentrada em segmentos de menor valor agregado. Agora, sustenta o texto, a China se projetou como potência no setor de VNE.
De menos de 100 mil para mais de 16 milhões: a escala chinesa
O editorial afirma que a indústria chinesa de VNE saiu de uma produção anual de menos de 100 mil unidades há pouco mais de uma década para um patamar de liderança mundial, com produção e vendas acima de 16 milhões e participação do segmento superando 50% do mercado doméstico de automóveis. Impulsionado por essa dinâmica, acrescenta, o mercado global teria ultrapassado 20 milhões de VNEs vendidos em 2025, acelerando a adoção de energia limpa em escala internacional.
Para reforçar a ideia de que a ascensão chinesa ocorreu em tempo curto e com forte coordenação pública, o texto cita uma observação atribuída ao site da revista The New Yorker, segundo a qual a indústria de veículos elétricos na China teria se desenvolvido “praticamente do zero”, apoiada em persistência política de longo prazo, estímulo à inovação e à competição e incentivos para parcerias entre empresas locais e companhias estrangeiras.
O “ultrapassar na curva” e a estratégia de longo prazo
O editorial contrasta a trajetória chinesa com a disputa acirrada do setor, lembrando que a Tesla foi pioneira e líder inicial, mas que essa liderança, na visão do texto, não teria produzido um desenvolvimento “holístico” de toda a indústria de veículos elétricos nos Estados Unidos. A pergunta central, então, é por que a China teria conseguido o chamado “ultrapassar na curva”.
A resposta proposta pelo Global Times se apoia em uma combinação de visão estratégica e execução consistente ao longo de anos, resumida no conceito de levar o plano “até o fim”. O texto destaca uma declaração de Xi Jinping, feita em maio de 2014, durante inspeção na SAIC Motor, na qual o presidente chinês enfatizou que desenvolver veículos de nova energia seria essencial para a China evoluir de “um grande país automotivo” para “uma potência automotiva”. Segundo o editorial, a fala antecipou a direção tecnológica do setor no mundo e orientou o país a perseguir uma rota de inovação independente.
Planejamento e metas: roteiros tecnológicos e políticas setoriais
O argumento do editorial insiste que o avanço do setor não foi fruto de improviso, mas de planejamento. Ele cita uma sequência de instrumentos e programas: desde a proposta inicial do roteiro tecnológico conhecido como “três verticais e três horizontais”, passando por revisões do “roteiro tecnológico de veículos de economia de energia e de nova energia”, até a execução do “Programa de desenvolvimento da indústria de veículos de economia de energia e de nova energia (2012-2020)” e o avanço do “Plano de desenvolvimento da indústria de veículos de nova energia (2021-2035)”.
Na leitura do Global Times, a diferença central em relação a países ocidentais estaria na capacidade de sustentar políticas industriais apesar de pressões e disputas internas. Enquanto “muitos países ocidentais” seriam constrangidos por grupos de interesse e por planejamento oscilante, a China teria definido a indústria automotiva — com ênfase nos VNEs — como setor estratégico emergente, trabalhando por etapas com continuidade e sinalizando “estabilidade e certeza” ao restante do mundo.
Ecossistema industrial e as “três tecnologias elétricas”
Além de volume de produção, o editorial afirma que o diferencial decisivo está na construção de um ecossistema industrial completo, coordenado e competitivo. Como exemplo, o texto destaca o núcleo tecnológico de um veículo elétrico: as “três tecnologias elétricas” — bateria, motor e sistema eletrônico de controle.
Segundo o editorial, nos momentos críticos de ruptura tecnológica, a China teria utilizado “as vantagens de um novo tipo de sistema nacional”, com coordenação de alto nível para integrar recursos, colocar empresas como protagonistas, respeitar princípios orientados ao mercado e promover a integração entre indústria, universidades, pesquisa e aplicação prática, concentrando esforços em tarefas consideradas decisivas.
No caso específico das baterias, o editorial descreve uma transição: da dependência inicial de importações à “dominação” de tecnologias ao longo de toda a cadeia industrial, com participação próxima de metade do mercado global de baterias de potência. O texto atribui esse avanço ao que chama de força combinada de um esforço nacional coordenado.
Tecnologia como bem público e a promessa de desenvolvimento inclusivo
O Global Times também associa a expansão dos VNEs chineses a uma nova fase da economia verde global. Na visão do editorial, a indústria liderada por tecnologia chinesa não apenas injeta dinamismo no crescimento econômico mundial, como oferece a países em desenvolvimento um caminho para transição verde “de baixo carbono” e sustentável, reforçando a confiança em ações conjuntas contra a mudança climática.
Nesse ponto, o texto enfatiza efeitos sociais: com VNEs e tecnologias de energia nova entrando em mais países, a qualidade de vida das pessoas comuns melhoraria, tornando mais concreto o princípio de que a tecnologia deve beneficiar o público. O editorial sustenta ainda que antigas alegações no Ocidente — como a ideia de que seriam necessários “quatro planetas Terra” se todos consumissem como o cidadão médio dos EUA, ou de que a Terra não suportaria “um segundo EUA” — estariam sendo desmentidas pelos fatos.
O editorial sintetiza essa inflexão com uma formulação otimista sobre a interdependência global: "A China só pode ir bem quando o mundo vai bem. Quando a China vai bem, o mundo ficará ainda melhor."
Canadá, cooperação e a disputa por cadeias produtivas
O texto também cita um movimento político recente para ilustrar como a transição para VNE se tornou uma agenda internacional. Segundo o editorial, na quinta-feira anterior à publicação, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, anunciou uma estratégia na qual o país trabalharia com a China para promover produção doméstica de veículos elétricos e diversificar exportações. O editorial menciona comentário do The New York Times de que o plano canadense se alinha a uma mudança para veículos elétricos já bem avançada na Europa e na China.
Para o Global Times, essa dinâmica é mais do que comercial: cada VNE que atravessa fronteiras seria uma ponte, conectando a China ao mundo e comunicando “calor e força” da modernização chinesa. O texto conclui projetando que, à medida que mais carros chineses circulem globalmente, o país seguirá defendendo a visão de “comunidade com futuro compartilhado para a humanidade”, ampliando o alcance dos benefícios atribuídos à modernização chinesa.
"Um VNE após o outro está construindo pontes que conectam a China com o mundo", afirma o editorial, ao defender que a transição energética, quando combinada a planejamento industrial e inovação, pode ser também um vetor de desenvolvimento mais inclusivo.



