Renata Medeiros avatar

Renata Medeiros

Mestre em Ciência Política. Advogada

5 artigos

HOME > blog

Chocando o ovo da serpente

O que significa a representatividade política de um estado quando ele passa a eleger candidatos sem vínculo histórico, social ou político com sua realidade?

Florianópolis (SC) (Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Secom/Santa Catarina)

Santa Catarina não é um bloco homogêneo — e nunca foi. Ainda assim, tornou-se um dos ambientes politicamente mais receptivos à extrema direita no país. Não por impulso, nem por ignorância coletiva, mas por uma sucessão de escolhas feitas com calma, método e certo conforto moral. Nada de ruptura. Nada de sobressaltos. Um processo gradual, quase elegante, embalado pela ideia de que estabilidade e previsibilidade compensam qualquer concessão.

Como em O Ovo da Serpente, de Ingmar Bergman, o que inquieta não é o desfecho, mas a naturalidade do percurso. Tudo acontece à vista, sob temperatura controlada, enquanto se insiste em tratar como normal aquilo que já deveria causar incômodo. O perigo não se anuncia; ele se acomoda.

No Brasil, quando se fala em extrema direita organizada, fala-se essencialmente do bolsonarismo. Jair Bolsonaro passou. O movimento, não. Ele permaneceu como gramática da nova direita: um modo de operar que prescinde de projeto consistente, relativiza instituições, transforma alinhamento em virtude moral e substitui debate por testes permanentes de lealdade. Não é exatamente uma ideologia — é um método funcional, facilmente adaptável a diferentes contextos.

Santa Catarina não foi tomada de assalto por essa gramática. Parte expressiva do seu campo político optou por acolhê-la. Não por fervor ideológico explícito, mas por conveniência estratégica. O alinhamento ofereceu visibilidade nacional, sensação de pertencimento e algum protagonismo simbólico — ainda que sem retorno proporcional em políticas públicas estruturantes, investimentos duradouros ou maior influência nas decisões centrais do país.

É nesse ponto que uma pergunta se impõe, sem histeria nem acusação: o que significa a representatividade política de um estado quando ele passa a eleger, com frequência, candidatos sem vínculo histórico, social ou político com sua própria realidade? Santa Catarina tem quadros qualificados, lideranças políticas com trajetória, enraizamento local e compromisso efetivo com o Estado e sua população. A hospitalidade catarinense é conhecida e valorizada. Mas, na política, acolher reiteradamente figuras e agendas externas pode significar abrir mão, pouco a pouco, da própria capacidade de se representar.

O fenômeno não decorre de imposição externa nem desqualifica a política local como um todo. Ele revela, antes, uma disposição recorrente de aceitar discursos prontos e personagens deslocados, desde que tragam consigo a promessa de ordem, pertencimento e alinhamento ideológico. Representar passa a ser secundário; confirmar torna-se suficiente.

No filme de Bergman, o ovo da serpente não se rompe às escondidas. Ele é observado, protegido, normalizado. Quando finalmente se abre, já não adianta dizer que não se sabia. Santa Catarina ainda pode olhar para essa casca — com serenidade, sem caricaturas — e se perguntar se esse conforto político prolongado não cobra, mais cedo ou mais tarde, um preço.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados