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Renata Medeiros

Mestre em Ciência Política. Advogada

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Moralidade, petróleo e outras encenações

2026 começou com gosto de déjà vu

Fumaça sobe após múltiplas explosões em Caracas - 03/01/2026 (Foto: Vídeo Obtido pela Reuters/via REUTERS)

2026 mal começou e já resolveu testar nossos nervos. A Venezuela entrou no ano como entra há tempos na geopolítica: não como país, mas como problema.

Donald Trump, no papel que mais gosta — o de xerife internacional — anunciou a captura de Nicolás Maduro e de sua mulher. Tribunal em Nova York, acusações pesadas, manchetes garantidas. Provas? Detalhe técnico. O espetáculo já estava armado.

O curioso é a facilidade da operação. Nenhuma reação relevante, nenhuma resistência digna do nome. Um presidente capturado em casa, sem barulho. Até a oposição venezuelana cochicha que houve acordo, encenação, teatro. Quando o roteiro é bom demais, convém olhar os bastidores.

Trump não disfarça: a América Latina voltou a ser quintal. Quem não se alinha, balança. E a suposta indignação moral contra ditaduras merece cautela. Trump nunca teve constrangimento em negociar com ditadores — desde que fossem “os seus”.

A democracia entra no discurso como figurante. Serve para justificar a força, não para orientá-la. Até porque o que realmente importa não é Maduro, nem o povo venezuelano. É o petróleo. A maior reserva do mundo costuma despertar súbitos arroubos éticos.

A moral aparece como cortina de fumaça; o interesse, esse sim, é permanente. A Venezuela caiu na conta certa, na hora certa. Trump enfrenta desgaste interno, escândalos reciclados e popularidade instável. Nada como uma ação externa para mudar o foco, unir a base e posar de líder decidido. Funciona há décadas.

O problema é o efeito colateral. A região inteira sente o tranco. Integração sul-americana perde espaço, projetos travam, investimentos chineses passam a incomodar. Tudo o que não gira em torno de Washington vira suspeito.

No Brasil, o episódio vira munição política. Lula entra no alvo, acusado de cumplicidade retroativa. Com organismos internacionais esvaziados e uma América do Sul cada vez mais à direita, sobra pouco espaço para manobra — e muita retórica.

Nada disso absolve Maduro. O autoritarismo venezuelano é velho conhecido. Mas intervenção estrangeira raramente produz democracia. Normalmente produz caos, agora sob nova administração.

2026 começou com gosto de déjà vu. E a ironia é que, mais uma vez, tudo parece muito moral — e pouco inocente. O problema é que esse caos importado atravessa fronteiras com facilidade.

No Brasil, ele não ameaça tanques nem palácios, mas algo bem mais frágil: a já combalida sanidade do debate eleitoral. Em tempos de espetáculo externo e confusão interna, talvez reste lembrar o aviso antigo: é preciso estar atento e forte.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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