Cinema entre grades: Teerã prende e prova que não foi apenas um acidente
Preso em Teerã, Mehdi Mahmoudian, corroteirista de Foi Apenas um Acidente, torna-se símbolo da repressão cultural no Irã
Nem toda prisão começa numa delegacia. Algumas se iniciam muito antes, na assinatura de uma carta pública de acusação ao poder, num set de filmagem improvisado para escapar da censura, ou numa frase escrita exatamente para não ser esquecida — e por isso mesmo punida.
Foi nesse encadeamento nada fortuito que, entre 31 de janeiro e 1º de fevereiro de 2026, em Teerã, foi preso Mehdi Mahmoudian, corroteirista do longa It Was Just an Accident (Foi Apenas um Acidente). A detenção foi confirmada por veículos de referência como Variety e The Hollywood Reporter. O gesto que a motivou tampouco é nebuloso: Mahmoudian assinou uma carta aberta que acusa o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, de crimes contra a humanidade, no contexto de protestos que o regime insiste em enquadrar como ameaça à ordem. No Irã de hoje, a dissidência não precisa gritar; basta registrar.
Mahmoudian não é um nome acessório nessa história — e o foco sobre ele ajuda a compreender o mecanismo de repressão. Nascido em Teerã no início dos anos 1980, ele construiu sua trajetória como roteirista, ensaísta e articulador cultural no circuito independente, onde a escrita funciona como escuta e o cinema, como testemunho. Antes de Foi Apenas um Acidente, atuava sobretudo nos bastidores, colaborando em projetos marcados por observação social rigorosa e economia narrativa. É precisamente esse perfil — o do autor que organiza sentidos — que regimes autoritários procuram neutralizar.
A parceria com Jafar Panahi não foi um encontro casual. Os dois se conheceram numa detenção anterior e dividiram sete meses de cárcere. Ali, a conversa virou método; a escuta, dramaturgia. O roteiro nasceu desse convívio forçado, onde a realidade se impunha como matéria-prima. Em nota divulgada pela distribuidora Neon, Panahi descreveu Mahmoudian como “uma testemunha, um ouvinte e uma rara presença moral”. A frase localiza o perigo: testemunhas transformam o vivido em linguagem compartilhável.Foi Apenas um Acidente foi rodado sob essas condições. Coprodução franco-irlandesa, filmada secretamente no Irã, com equipe reduzida e locações improvisadas, estreou mundialmente em maio de 2025, no Festival de Cannes. No Grand Théâtre Lumière, recebeu a Palma de Ouro, num reconhecimento que ecoou tanto a excelência estética quanto a coragem do gesto. A consagração internacional não dissolveu o risco doméstico; ao contrário, o tornou visível.
A narrativa acompanha um homem comum tragado por uma engrenagem burocrática após um acidente banal de trânsito. O que começa como mal-entendido vira labirinto de interrogatórios e silêncios. Em uma cena central, alguém afirma: “Aqui, ninguém é culpado no começo. A culpa vem depois, quando você insiste em explicar.” Em outra: “O problema não é o que aconteceu, é o que eles precisam que tenha acontecido.” E, já sob tensão máxima: “Se eu ficar calado, eles vencem. Se eu falar, eles me levam.” As falas condensam a lógica do filme — e, hoje, a biografia de seu corroteirista.
O reconhecimento em Cannes não foi ponto final. Foi Apenas um Acidente foi selecionado como representante da França na disputa do Oscar de 2026, concorrendo a Melhor Filme Internacional, além de figurar entre os indicados a Melhor Roteiro Original — uma raridade para produções em persa realizadas fora dos circuitos oficiais. As indicações, anunciadas em janeiro de 2026, em Los Angeles, consolidaram o longa como uma das obras mais contundentes do ano. A campanha internacional passou por exibições em Nova York, Londres, Berlim e Paris, frequentemente acompanhadas de debates sobre censura e liberdade artística. Em muitas delas, o nome de Mahmoudian deixou de ser nota de rodapé: virou eixo.
É nesse ponto que o foco retorna, com força, ao homem preso. Ao algemar Mahmoudian, o regime não puniu apenas um signatário; tentou interromper uma cadeia de sentido. A carta aberta que ele assinou — ao lado de Mohammad Rasoulof e da Nobel da Paz Narges Mohammadi — foi lida como desafio porque nomeava responsabilidades. A resposta foi previsível: detenções, intimidação, silêncio oficial. O efeito, porém, foi outro: ampliou a audiência do que se pretendia conter.
O Oscar 2026, aliás, tornou-se um palco raro para cinematografias que enfrentam o poder a partir da margem. Ao lado do filme de Panahi, a edição consagrou um feito histórico do cinema brasileiro com O Agente Secreto (The Secret Agent), de Kleber Mendonça Filho, estrelado por Wagner Moura. Único filme sul-americano a alcançar quatro indicações — Melhor Filme, Melhor Filme Internacional (representando o Brasil), Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Elenco —, o longa igualou o recorde histórico de Cidade de Deus (2004). Não é coincidência: também ali, a ficção interroga estruturas de poder, vigilância e memória.
A justaposição é instrutiva. Em Teerã, o cinema é reprimido por existir; no Brasil, ele reaparece como instrumento de revisão histórica. Em ambos os casos, a arte disputa o direito de narrar. Se Panahi filma sob risco para preservar a experiência comum, Kleber Mendonça Filho reinscreve o passado recente para disputar o presente. O Oscar, nesse cenário, funciona menos como vitrine e mais como arena — um espaço onde o Sul Global fala sem pedir tradução moral.
Há, por fim, uma ironia amarga no título Foi Apenas um Acidente. Nada no caso de Mehdi Mahmoudian foi acidental. Sua prisão segue método: atingir figuras simbólicas para produzir medo difuso. Mas o cinema — quando encontra circulação — devolve o golpe como memória. O roteiro vira documento; a fala, arquivo; a assinatura, prova de coragem.
Entre Cannes e Teerã, entre a Palma de Ouro e a cela, o foco permanece onde deve estar: no autor que escreveu para não ser esquecido. Em países onde assinaturas viram crimes, preservar a autoria é um ato de resistência. E, quando a ficção antecipa a realidade, o cinema deixa de ser apenas arte: torna-se testemunho.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



