Irã diz que perdeu 'confiança' nos EUA, mas deixa aberta negociação por acordo nuclear
Chanceler iraniano afirma que negociação é possível, mesmo diante das ameaças militares dos Estados Unidos
247 - Mesmo diante do reforço militar dos Estados Unidos no Oriente Médio e de ameaças explícitas de confronto, o governo do Irã afirma manter aberta a porta para um acordo sobre seu programa nuclear. Em entrevista à CNN neste domingo (1º), em Teerã, o ministro das Relações Exteriores do país, Abbas Araghchi, disse acreditar que ainda há espaço para uma solução diplomática com Washington, apesar do clima de forte tensão entre os dois países.
Segundo Araghchi, o Irã está confiante de que um entendimento pode ser alcançado com os Estados Unidos, mesmo após a deterioração da confiança bilateral. “Infelizmente, perdemos nossa confiança nos Estados Unidos como parceiro de negociação”, afirmou o chanceler, ao destacar que as conversas têm ocorrido por meio da troca de mensagens intermediadas por países amigos da região, o que, segundo ele, tem permitido diálogos “frutíferos”.
O tom cautelosamente otimista do lado iraniano encontrou eco em declarações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A bordo do avião presidencial, no sábado (31), o chefe da Casa Branca disse a jornalistas que o Irã estava “conversando seriamente conosco”. Trump, no entanto, evitou assumir qualquer compromisso público sobre negociações diretas ou sobre uma eventual ofensiva militar.
Araghchi, por sua vez, afirmou que a prioridade deve ser o conteúdo das negociações, e não o formato. Ele se recusou a garantir que Teerã participará de encontros diretos com negociadores americanos, defendendo que o foco esteja na substância do acordo. As declarações ocorreram no mesmo momento em que o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, adotou um discurso duro, advertindo que qualquer ataque dos Estados Unidos poderia desencadear uma guerra de grandes proporções na região.
Em discurso na mesquita Imam Khomeini, em Teerã, Khamenei afirmou que o Irã não pretende atacar outros países, mas reagirá de forma contundente se for provocado. “O povo iraniano dará um golpe firme em qualquer um que o ataque ou o intimide”, declarou, segundo a mídia estatal. “Os americanos devem saber que, se iniciarem uma guerra, desta vez será uma guerra regional”, acrescentou.
As tratativas diplomáticas enfrentam obstáculos importantes. De acordo com a reportagem, o Irã insiste que as negociações se limitem à questão nuclear, enquanto os Estados Unidos se recusam a reduzir sua expressiva presença militar na região, fator que pesa negativamente sobre qualquer avanço. Questionado sobre o arsenal de mísseis iraniano e sobre grupos aliados de Teerã no Oriente Médio, como os houthis do Iêmen, Araghchi foi enfático ao descartar esses temas da mesa de negociações.
“Não vamos falar de coisas impossíveis”, disse o chanceler. “E não perder a oportunidade de alcançar um acordo justo e equilibrado para garantir a ausência de armas nucleares. Isso, como eu disse, é alcançável mesmo em um curto período de tempo". Em contrapartida, ele afirmou que o Irã espera a suspensão das sanções impostas pelos Estados Unidos e o reconhecimento do direito iraniano de continuar o enriquecimento de urânio para fins pacíficos.
Araghchi também alertou que, caso as negociações fracassem, o país está preparado para um conflito armado, embora tenha ressaltado as consequências graves de um confronto desse tipo. Uma guerra, segundo ele, “seria um desastre para todos”. O chanceler afirmou ainda que bases militares americanas espalhadas pela região seriam alvos do Irã, lembrando que o país avaliou as capacidades e limitações de seu arsenal de mísseis durante o conflito de 12 dias com Israel no ano passado.
O cenário se agravou após protestos recentes no Irã, reprimidos com violência, que, segundo organizações de direitos humanos, deixaram milhares de mortos. Em meio a esse contexto, Donald Trump advertiu que os Estados Unidos poderiam atacar o regime iraniano. No sábado, o presidente dos Estados Unidos voltou a se esquivar de uma resposta direta sobre uma eventual decisão de atacar o país. “Algumas pessoas pensam isso. Outras não”, disse ao ser questionado se recuar de uma ofensiva poderia fortalecer Teerã.
Trump também evitou fornecer detalhes sobre movimentações militares, embora tenha mencionado o envio de meios navais à região. “Certamente não posso dizer isso, mas temos navios muito grandes e poderosos se dirigindo naquela direção”, afirmou. “Como você sabe, não posso dizer. Espero que eles negociem algo que seja aceitável".
Paralelamente, esforços diplomáticos regionais se intensificaram nos últimos dias para evitar uma escalada do conflito. O primeiro-ministro do Catar, xeque Mohammed bin Abdulrahman bin Jassim Al-Thani, esteve em Teerã no sábado. Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Catar, as partes “revisaram os esforços em andamento para reduzir as tensões na região”.
Também no sábado, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, conversou por telefone com o presidente do Egito, Abdel Fattah El-Sisi. De acordo com a presidência egípcia, El-Sisi “reiterou os esforços persistentes do Egito para trazer os Estados Unidos e o Irã de volta à mesa de negociações”. Pezeshkian afirmou que “a República Islâmica do Irã nunca buscou, e de forma alguma busca, a guerra e está firmemente convencida de que uma guerra não seria do interesse nem do Irã, nem dos Estados Unidos, nem da região”.
No plano interno, a repressão aos protestos de janeiro segue no centro das atenções. Questionado sobre a resposta do governo às manifestações, Araghchi atribuiu os distúrbios a “elementos terroristas” que, segundo ele, teriam recebido ordens do exterior. Ao comentar o momento mais violento dos protestos, declarou: “Consideramos esses três dias como a continuação daqueles 12 dias de guerra, que foi uma operação liderada pelo Mossad a partir de fora e que, claro, nós esmagamos”.
O chanceler também negou acusações de execuções de manifestantes. “Não houve plano para execução ou enforcamento” de protestantes, afirmou, contestando declarações de Donald Trump. “Posso afirmar que o direito de cada pessoa presa e detida será observado e garantido”, concluiu.


