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"Os Estados Unidos e o mundo ficaram menos seguros após a volta de Trump", diz Jeffrey Sachs

Em entrevista à CGTN, economista alerta para risco de guerra com o Irã e escalada na América Latina

Donald Trump e Jeffrey Sachs (Foto: Reuters/ABr)

247 – O economista Jeffrey Sachs, diretor do Center for Sustainable Development da Universidade Columbia, afirmou que a política externa do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ampliou a instabilidade internacional e tornou o planeta mais perigoso desde sua volta à Casa Branca. Em entrevista à CGTN, Sachs contestou a justificativa de “segurança nacional” usada por Washington para ações recentes e sustentou que o resultado tem sido o oposto: mais insegurança para os próprios EUA e para o mundo.

Na conversa, Sachs foi categórico ao avaliar o efeito do segundo mandato de Trump sobre o cenário global. “Nada do que foi feito melhorou a segurança nacional dos EUA. Isso é certo. Estamos menos seguros hoje do que estávamos quando o segundo mandato de Trump começou”, disse. Em seguida, ampliou o diagnóstico: “Isso não torna a América mais segura de forma alguma. Torna-a menos segura, mas, infelizmente, torna o mundo inteiro menos seguro.”

Relógio do Juízo Final e escalada global

Sachs citou a atualização do “Relógio do Juízo Final” (Doomsday Clock), mencionando que o indicador teria avançado “quatro segundos” em direção à meia-noite e que o mundo estaria a “85 segundos” de um cenário de catástrofe nuclear. Para ele, esse movimento reflete um ambiente internacional mais instável, marcado por ameaças e ações militares. “O mundo se tornou muito mais perigoso durante o último ano”, afirmou, ao descrever o que chamou de uma política externa que se aproxima de uma “política de guerra”.

O economista também declarou que os Estados Unidos teriam bombardeado “sete países” por uma contagem que ele considera confiável e criticou a rotina de ameaças de Trump. “Trump ameaça países todos os dias”, disse, citando ainda o que classificou como ilegalidade nas ações contra a Venezuela e o endurecimento da retórica contra o Irã.

Ataque ao sistema da ONU e desprezo pelo direito internacional

Um dos eixos centrais da crítica de Sachs é a hostilidade, segundo ele, do governo Trump ao multilateralismo e ao sistema de regras internacionais. Na entrevista, ele afirmou que a administração norte-americana se retirou de dezenas de organismos vinculados à ONU e interpretou esse movimento como parte de uma ofensiva contra a Carta das Nações Unidas.

“Trump está fazendo um ataque direto à Carta da ONU e ao sistema baseado na ONU basicamente para dizer: ‘Vamos fazer o que quisermos’”, afirmou. Sachs classificou essa postura como “extraordinariamente perigosa” e “delirante”, argumentando que a rejeição explícita a limites legais internacionais não fortalece a segurança dos EUA e, ao contrário, amplia riscos em escala global.

Irã: exigências máximas e risco de guerra regional

Ao tratar do Irã, Sachs avaliou que as condições impostas por Trump inviabilizam um acordo real e elevam o risco de conflito aberto. Segundo o entrevistador, o presidente norte-americano condiciona um eventual entendimento ao fim de “qualquer tipo de programa nuclear” iraniano, além de restrições ao alcance de mísseis. Para Sachs, a tendência é de recusa por Teerã — e, com isso, uma escalada perigosa.

“Eu não acho que o Irã vai aceitar essas condições”, disse. “E isso pode levar à guerra — e a guerra seria um desastre, obviamente, para o Irã, mas eu acho que para toda a região e possivelmente para o mundo inteiro.” O economista enfatizou que um ataque dificilmente permaneceria contido: “Se Trump começar um ataque ao Irã, isso poderia facilmente se espalhar para uma guerra regional.”

Ele também afirmou que os EUA vêm usando “pressão máxima” para estrangular a economia iraniana e mencionou operações violentas e de inteligência dentro do país. Ainda assim, disse duvidar de capitulação: “Eu duvido que os iranianos vão se render ao ‘Imperador Donald’.”

Venezuela: operação de mudança de regime e disputa por petróleo

Na parte dedicada à América Latina, Sachs afirmou que a Venezuela continua sendo alvo de uma operação prolongada de mudança de regime, com raízes pelo menos desde 2002. Ele atribuiu à CIA e ao “deep state” o objetivo de derrubar governos de esquerda no país e recordou a tentativa de golpe contra Hugo Chávez naquele ano.

Sachs relacionou o endurecimento das investidas ao interesse nas reservas de petróleo venezuelanas confirmadas a partir de 2007. “O governo dos EUA… tem estado ‘coçando’ para capturar essas reservas, derrubar o governo, colocar suas empresas líderes, especialmente Exxon Mobil junto com Chevron, na Venezuela e ganhar muito dinheiro”, afirmou.

Ele descreveu ainda os efeitos econômicos da pressão financeira sobre o país. Segundo Sachs, medidas tomadas a partir de 2017 teriam contribuído para o colapso da produção e para uma queda dramática de renda entre 2016 e 2020, com retração de “60% a 70%” na renda per capita e geração de um fluxo de refugiados.

O economista criticou também o reconhecimento, por Washington, de um “presidente” alternativo, Juan Guaidó, em uma estratégia que classificou como caricatural. “É uma abordagem de gibi, mas eles tentaram”, disse, sustentando que o episódio evidencia a persistência de uma “guerra contra a Venezuela”.

No relato apresentado na entrevista, Sachs afirmou que houve um sequestro do presidente Nicolás Maduro e que ele estaria sob custódia nos EUA, além de mencionar a esposa. Para ele, mesmo com o governo venezuelano ainda em funcionamento, o país seguiria sob pressão de uma operação de desestabilização. “Ainda estamos no meio de uma operação violenta de mudança de regime dos EUA.”

Multipolaridade e “colisão com a realidade”

Sachs avaliou que as tensões atuais se inserem em uma transição histórica: o fim de uma ordem dominada pelo Ocidente e a consolidação de uma realidade multipolar. Ele citou China e Rússia como potências consolidadas e a Índia como potência em ascensão, defendendo que essa mudança já ocorreu, embora não seja reconhecida por Washington.

“Nós já chegamos à multipolaridade. A China é uma superpotência… a Rússia é uma superpotência… a Índia está se tornando uma superpotência”, afirmou. Na sua leitura, a insistência dos EUA em preservar controle global produz uma “colisão com a realidade” em diferentes regiões, intensificando disputas e instabilidade.

Europa, OTAN e a necessidade de diplomacia

No trecho final, Sachs defendeu que a Europa busque uma política externa independente e privilegie diplomacia com Rússia e China em vez de subordinação estratégica aos EUA. “Eles não precisam realmente da OTAN. Eles precisam de diplomacia. Eles precisam de paz e segurança coletiva com a Rússia… precisam de paz e comércio com a China”, afirmou.

Sachs concluiu que, se o continente adotasse uma visão mais racional, reconheceria que a instabilidade atual não decorre apenas de rivais tradicionais, mas também das ações de Washington. “A Europa provavelmente está mais ameaçada pelos Estados Unidos agora do que pela Rússia, se conseguisse olhar de forma racional para a situação atual”, disse.

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