Sachs diz que Trump está em guerra contra o mundo e contra os cidadãos americanos
Economista condenou os ataques a vários países e aos cidadãos que protestam contra os abusos do ICE
247 – O economista Jeffrey Sachs afirmou que os Estados Unidos estão conduzindo uma forma de “guerra econômica” contra o Irã para provocar colapso financeiro, desorganização social e pressão por mudança de regime. As declarações foram feitas em entrevista ao programa Judging Freedom, apresentado pelo juiz Andrew Napolitano, nesta terça-feira 27, em um debate que também abordou tarifas, militarização interna e os efeitos geopolíticos do uso do dólar como arma. Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, é citado por Sachs como o dirigente que ordena e legitima a estratégia de “pressão máxima”. "Trump está em guerra contra o mundo e contra os cidadãos americanos", reforçou, ao lembrar o assassinato de Alex Pretti por forças do ICE, em Minnesota.
Ao comentar uma fala do secretário do Tesouro Scott Bessent — exibida no programa — Sachs disse que o trecho é “muito importante para as pessoas entenderem o que acabaram de ver”, porque, segundo ele, há uma admissão explícita de que Washington usou instrumentos financeiros para “criar caos” no Irã, sem disparar tiros, mas com impacto equivalente ao de uma ofensiva militar.
“Não é diplomacia: é guerra”, diz Sachs ao falar de sanções e colapso da moeda
Sachs criticou diretamente a noção de “statecraft” (arte de governar) aplicada às sanções. Para ele, a expressão é um eufemismo: “Não é diplomacia, é guerra”. O economista sustentou que a estratégia descrita por Bessent teria começado com uma tentativa de induzir pânico cambial: “Ele começou com um discurso em que disse: ‘Eu acho que a moeda iraniana vai cair’. Esse é o primeiro passo: tentar fazer as pessoas fugirem da moeda para criar um colapso autocumprido”.
Em seguida, segundo Sachs, viria o cerco financeiro global: a imposição de sanções e ameaças a instituições e empresas ao redor do mundo para impedir transações “normais e legais” com o Irã. Na leitura do economista, o objetivo é cortar exportações, bloquear comércio exterior e asfixiar importações — produzindo escassez e colapso bancário. Ele apontou o efeito social como parte do cálculo: “O que está acontecendo no Irã é o colapso deliberado da moeda, a criação deliberada de pobreza em massa, desemprego e agitação, com o propósito de tentar uma mudança de regime”.
Sachs também atacou a cobertura da grande imprensa norte-americana. Segundo ele, veículos tradicionais teriam reproduzido a narrativa oficial de que protestos seriam fruto apenas de “má gestão” interna, ignorando a dimensão da guerra econômica. Ele foi incisivo: “Nenhum dos nossos grandes meios de comunicação relatou isso com precisão. Todos repetiram a propaganda oficial do governo dos EUA”.
Crítica à “lei do poder” e cobrança às instituições dos EUA
A entrevista também avançou para um diagnóstico político: Sachs afirmou que o governo Trump opera com brutalidade e mentiras constantes, e que a dinâmica doméstica guarda continuidade com ações externas. Ele declarou: “Trump está em guerra com o mundo, inclusive em guerra com cidadãos americanos, militarizando a sociedade americana de um jeito absolutamente chocante e brutal”. Em outro momento, acusou: “O governo mente a cada momento sobre tudo”.
Ao traçar um elo entre violência interna e externa, Sachs disse que a Casa Branca coloca “pessoas inocentes” em situações fatais e depois as rotula para justificar ações: “Se são pescadores nas águas da Venezuela, chama de traficantes; se é um cidadão americano pacificamente na rua, chama de terrorista”. Ele vinculou essa lógica à tese de que “não há leis, só poder”, atribuída por ele ao vice-chefe de gabinete Stephen Miller: “Há apenas poder. Já estivemos aí antes na história do mundo”.
Nesse quadro, Sachs cobrou reação dos outros Poderes. Defendeu que tribunais deveriam restringir abusos e que o Congresso deveria cortar verbas, sob risco de cumplicidade. Ele atacou a inércia legislativa: “O Congresso se declarou morto durante o último ano. Não exerceu nenhuma função que a Constituição lhe dá”. E colocou o foco na Suprema Corte: “A Suprema Corte vai permitir essa completa ilegalidade e governo por decreto executivo? Ou vai dizer: nós temos uma Constituição?”.
Bessent, Soros e a lógica do “ataque financeiro”
Ao ser perguntado se Bessent teria experiência prévia em operações desse tipo, Sachs respondeu que essa seria a razão de sua escolha para o cargo: “É por isso que ele está lá”. Ele minimizou a aptidão do secretário para políticas públicas e macroeconomia voltadas ao bem-estar social: “Ele não é especialista em política fiscal ou no bem-estar do povo americano. Ele não sabe nada sobre isso”.
Sachs então associou Bessent a operações financeiras históricas: “Ele tem um histórico de derrubar uma grande moeda quando trabalhou para George Soros em 1992… ele fez parte da equipe-chave em Londres que apostou contra a libra esterlina e derrubou a libra em 1992”. A partir daí, caracterizou-o como um operador de hedge fund capaz de “apertar” financeiramente um país: “Ele é um operador de hedge fund que entende como fazer um estrangulamento financeiro”.
No programa, Sachs também trouxe a referência de John Maynard Keynes para explicar o efeito social de “debauchar” uma moeda (provocar seu colapso): segundo ele, quando a moeda desmorona, “a ordem da sociedade se desfaz”, as pessoas entram em desespero e forças econômicas se alinham “do lado da destruição”. Na visão do economista, esse é exatamente o mecanismo que estaria sendo induzido no Irã.
BRICS, desdolarização e o custo geopolítico do “dólar como arma”
No trecho final, Sachs avaliou que o uso de sanções e tarifas punitivas — incluindo ameaças de tarifas secundárias extremas — acelera um movimento global de afastamento do dólar, com o BRICS citado como referência. Para ele, os EUA abusaram do que já foi chamado de “privilégio exorbitante”: a centralidade do dólar como meio de pagamento internacional. O problema, diz ele, é que Washington teria transformado esse privilégio em instrumento de coerção: “O governo dos EUA percebeu — de forma absolutamente desastrosa — que poderia usar esse privilégio para lutar guerras por meios econômicos”.
Sachs descreveu o efeito reputacional: “O resto do mundo está passando a entender que os Estados Unidos são truculentos, não confiáveis e perigosos”. Nesse contexto, mencionou que países buscam “vida normal”, sem ameaça permanente de punições. Ele citou exemplos envolvendo Canadá, Reino Unido e Coreia do Sul — em todos os casos, com líderes buscando relações comerciais e tecnológicas com a China, apesar de pressões e ameaças tarifárias de Trump.
Ainda assim, Sachs alertou que a capacidade de dano dos EUA permanece grande — e voltou a citar Venezuela e Irã como alvos. Ao comentar movimentações militares, disse que a “guerra” já é real no plano econômico e que pode haver escalada: “Podemos ver, nos próximos dias, um ataque dos EUA ao Irã… talvez seja blefe, mas a guerra é absolutamente real”.
O que a entrevista revela sobre sanções, narrativa e risco de escalada
A conversa no Judging Freedom expôs, em sequência, três pontos centrais: a admissão pública de instrumentos de coerção econômica como estratégia deliberada para desestabilizar o Irã; a crítica de Sachs ao esvaziamento de freios institucionais nos EUA sob Trump; e o efeito internacional do uso do dólar e de tarifas como mecanismos de guerra. Ao insistir que “não é statecraft, é guerra”, Sachs buscou retirar o verniz tecnocrático do tema e recolocar no centro a pergunta sobre legalidade, responsabilidade política e custo humano das sanções.
Com a aproximação de forças militares ao Golfo Pérsico mencionada na entrevista e a intensificação de disputas comerciais, o economista sugere que a fronteira entre guerra econômica e confronto aberto se torna cada vez mais tênue — e que o mundo reage construindo alternativas de comércio e pagamento fora do eixo de Washington, num processo que tende a reorganizar o poder global.

