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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Com provas abundantes, Genocídio Armênio segue sem reconhecimento 111 anos

Verso do poeta armênio Siamanto revela tudo: “Deus, não me condene ao inferno, pois eu já vivi nele aqui na terra”

Uma caixa com distintivos é vista durante uma cerimônia em memória do genocídio de 1915, reconhecido pelo presidente dos EUA, Joe Biden, no Monumento Memorial dos Mártires Armênios em Montebello, Califórnia, EUA, em 24 de abril de 2021. (Foto: REUTERS/David Swanson)

Minas Ayvazian não cabia em estatísticas. Durante décadas de convivência próxima, foi possível testemunhar nele — e em Siranoush Khanum, em Gharon e em sua amada Seda Ayvazian — algo que escapa aos registros formais da história: a expressão viva de um povo que sobreviveu a uma tentativa sistemática de apagamento. Eram armênios. E não apenas por origem, mas por consciência histórica, por memória de trabalho preservada, por uma forma de estar no mundo marcada por dignidade e uma surpreendente capacidade de amar a humanidade mesmo após ter sido alvo do pior que ela pode produzir. Não havia neles qualquer encenação da dor. Havia nobreza de caráter. Havia grandeza silenciosa. Havia um amor profundo pela espécie humana, mesmo quando a história lhes oferecera razões suficientes para o contrário.

Minas Ayvazian, Siranoush khanum, Gharon e sua amada Seda Ayvazian me mostraram como amar a humanidade a começar pelos armênios. Tenho imensa saudade deles. Mas eles vivem em sua nobre descendência e isso conforta meu coração.

Um assunto que sempre me apertou o peito foi o que sucedeu ao valoroso e doce povo armênio. Refiro-me ao genocídio Armênio, ao holocausto armênio onde os turcos assassinaram os armênios em massa, matando entre 1 milhão e 1.800.000 armênios entre os anos de 1915 e 1923. Às injustiças seguem até os dias atuais, pois é um crime que lesa humanidade em um nível jamais visto nas histórias das guerras e dos genocídios que ainda permanece sem o reconhecimento formal de grande número de nações.

Diversos países já emitiram seu posicionamento a respeito do reconhecimento do massacre ocorrido contra os armênios durante o período de 1915-1923 como genocídio. Nas últimas décadas, o Parlamento Europeu e os parlamentos internos do Chipre, Grécia, Itália, Vaticano, Rússia e Bélgica o fizeram. Em janeiro de 2001, o parlamento francês foi ainda além ao promulgar uma declaração reconhecendo o genocídio e contrariando as objeções do presidente e do primeiro-ministro – gerando tensão no relacionamento diplomático com a Turquia que, por sua longa e assídua defesa de que o genocídio nunca ocorrera, chamou seu embaixador e cancelou o um contrato com o país de 200 milhões de dólares para inteligência militar de satélites.

Em 2000, o presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Dennis Hastert, concordou em emitir uma declaração reconhecendo o genocídio armênio, mas depois da intervenção pessoal do então presidente Bill Clinton – que argumentou contrariamente, alegando que a declaração, uma vez emitida, “prejudicaria os interesses nacionais estadunidenses”. Neste sentido, a Casa Branca preferia utilizar a expressão “atrocidades cometidas contra os armênios” para evitar desconforto com a Turquia, importante aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Até maio de 2021, diversos países já emitiram a declaração de reconhecimento formal do genocídio armênio. Na Europa: França, Alemanha, Itália, Países Baixos; nas Américas: Canadá, Uruguai, Venezuela; Na Ásia e Oriente Médio: Rússia, Síria, Líbano.

O Brasil, por sua vez, jamais emitiu declaração formal de reconhecimento do genocídio armênio. Em 2015, ano do centenário do início do extermínio, o Senado Federal aprovou uma moção de solidariedade apresentada pelos então senadores Aloysio Nunes e José Serra. Tal medida ocasionou que a Turquia chamasse seu embaixador em Brasília (ato que representa desalinhamento na relação diplomática bilateral), e a resposta do governo foi não prosseguir com o reconhecimento formal.

Vale ressaltar que alguns entes federativos reconhecem o genocídio armênio independentemente da posição adotada pelo Estado brasileiro. O estado de São Paulo, por exemplo, não só o reconheceu como instituiu, através da Lei 15.813/15, o Dia do Reconhecimento e Lembrança às Vítimas do Genocídio do Povo Armênio, ação também tomada pelo estado do Paraná e do Rio de Janeiro, e pelo município de Uberaba, em Minas Gerais.”

Nos últimos dias, em 24 de abril de 2026, o mundo assinalou 111 anos desde o início formal desse processo de extermínio. A data não pertence apenas ao calendário armênio. Ela deveria integrar o patrimônio moral da humanidade. Foi naquela madrugada de 1915 que o Estado otomano, sob a condução de Talaat Pasha, iniciou a prisão sistemática de lideranças armênias em Constantinopla, desencadeando uma sequência de eventos que, ao longo de oito anos, levaria à morte entre 1 milhão e 1,8 milhão de pessoas. O que então se denominava Império Otomano corresponde, em sua continuidade histórica e territorial, ao Estado que hoje conhecemos como Turquia — elemento que adiciona complexidade política e diplomática ao reconhecimento desse passado.

Genocídio não é metáfora. Não é figura de linguagem. Não é exagero retórico. É conceito jurídico preciso, formulado por Raphael Lemkin em 1944, que define a intenção deliberada de destruir, no todo ou em parte, um grupo humano. O caso armênio atende a todos os critérios: planejamento, coordenação estatal, execução sistemática e objetivo explícito de eliminação. As marchas para o deserto sírio, frequentemente descritas como deportações, funcionaram na prática como mecanismos de extermínio. Sem água, sem alimento, sob violência constante, milhares sucumbiram ao longo de trajetos onde a morte deixou de ser exceção para se tornar regra.

Décadas depois, às vésperas de outro conflito global, Adolf Hitler sintetizou o perigo do esquecimento ao perguntar: “Quem se lembra hoje da aniquilação dos armênios?”. A pergunta não foi feita por ignorância. Foi feita como cálculo. O silêncio internacional havia se transformado em precedente.

Esse precedente não foi superado. Apenas assumiu novas formas. O século XXI continua testemunhando processos de desumanização conduzidos por minorias instaladas em estruturas de poder. Governos, grupos armados e elites políticas seguem, em diferentes contextos, definindo quais vidas importam e quais podem ser descartadas. A linguagem continua sendo o primeiro campo de batalha: rotular, simplificar, desqualificar, reduzir o outro a um problema. A partir daí, o caminho se encurta.

A hesitação internacional em reconhecer formalmente o genocídio armênio revela o peso da geopolítica sobre a memória. Países que já o fizeram enfrentaram reações diplomáticas imediatas. Outros optaram por fórmulas intermediárias, evitando o termo “genocídio” e adotando expressões mais vagas. O Brasil permanece nesse grupo. A moção de solidariedade aprovada em 2015 não substitui o reconhecimento formal. E a ausência desse reconhecimento não é neutra. Ela comunica.

A literatura armênia, por sua vez, recusa esse silêncio. O poeta Siamanto, nascido Atom Yarjanian (1878–1915), uma das vozes mais intensas e trágicas da literatura armênia moderna, não escreveu a partir da distância, mas da iminência da própria destruição. Intelectual formado na Europa, militante da causa armênia e dotado de uma linguagem épica marcada por imagens extremas, escreveu o poema “The Dance” anos antes de 1915, inspirado sobretudo nos massacres de Adana, ocorridos em 1909, quando dezenas de milhares de armênios foram assassinados no Império Otomano. Essa informação histórica é crucial para a compreensão correta de sua obra: o poema não é um relato posterior ao genocídio iniciado em 1915, mas uma denúncia anterior de uma violência que já se encontrava em curso e que, com assustadora clareza, antecipava o extermínio que viria a seguir. Preso no próprio 24 de abril de 1915, no primeiro dia da ofensiva sistemática contra intelectuais armênios, Siamanto foi assassinado pouco depois, tornando-se ele próprio vítima do genocídio que sua obra, ainda que anterior, já prenunciava com força perturbadora. Sua poesia, portanto, não apenas testemunha — ela antecipa, acusa e permanece como prova literária de que o horror não surgiu de forma repentina, mas foi sendo gestado diante de olhos que nem sempre quiseram ver.

Seu poema “The Dance” não descreve — expõe. Não interpreta — testemunha. E por isso precisa ser lido em sua inteireza.

“Deus, não me condene ao inferno, pois eu já vivi nele aqui na terra…

E enquanto suas lágrimas se afogavam em seus olhos azuis,Em um campo de cinzas onde a vida armênia ainda estava morrendo,Isso é o que a testemunha de nosso horror, a mulher alemã, narrou:Esta história que eu conto e que não pode ser contada,Eu vi com meus olhos humanos cruéis,Da janela de minha casa segura que olhava para o inferno,Rangendo meus dentes de tanta raiva terrível…Com meus olhos humanos cruéis eu vi.Foi na cidade Jardim, que se transformou em um monte de cinzas.Os corpos estavam empilhados até o topo das árvores,E das águas, das fontes, dos riachos, das estradas,O murmúrio rebelde do seu sangue…Ainda fala agora sua vingança em meus ouvidos…Oh, não se choque quando eu contar essa história que não pode ser contada…Que os homens entendam o crime do homem contra o homem,Sob o sol de dois dias, na estrada para o cemitério,A maldade do homem contra o homem,Que todos os corações do mundo saibam…Aquela manhã na sombra da morte foi um domingo,O primeiro e impotente domingo que surgiu sobre os cadáveres,Quando dentro do meu quarto, da noite até o amanhecer,Inclinada sobre a agonia de uma garota ferida com uma espada,Eu molhava sua morte com minhas lágrimas…De repente, de longe, uma multidão negra e bestial,Chicoteando brutalmente as vinte noivas que estavam com eles,Pararam em um vinhedo cantando canções de devassidão.Deixando a pobre garota morrendo em seu colchão,Aproximei-me da varanda da minha janela que olhava para o inferno…No vinhedo, a multidão negra tornou-se uma floresta.Um selvagem rugiu para as noivas: ‘Vocês devem dançar,Vocês devem dançar quando nosso tambor tocar.’E os chicotes começaram a estalar violentamente nos corposDas mulheres armênias que estavam perdendo a morte…Vinte noivas, de mãos dadas, começaram sua dança em círculo…As lágrimas fluíam de seus olhos como feridas,Ah, quanto eu invejava minha vizinha ferida,Porque eu ouvi, que com um gemido pacífico,Amaldiçoando o universo, a pobre e bela garota armênia,Para seu espírito jovem de pomba deu asas em direção às estrelas…Em vão movi meus punhos contra a multidão.‘Vocês devem dançar’, rugiu a multidão furiosa,‘Vocês devem dançar até sua morte, lascivamente e luxuriosamente,Nossos olhos estão sedentos por seus movimentos e sua morte…’As vinte belas noivas caíram ao chão exaustas…‘Levantem-se’, gritaram, agitando suas espadas nuas como cobras…Então alguém trouxe para a multidão um barril de óleo…Oh, justiça humana, deixe-me cuspir na sua testa…!Eles ungiram apressadamente as vinte noivas com aquele líquido…‘Vocês devem dançar’, rugiram, ‘aqui está um perfume para vocês que nem mesmo a Arábia tem…’Então, eles incendiaram os corpos nus das noivas com uma tocha,E os corpos carbonizados rolaram da dança para a morte…No meu terror, fechei as persianas da minha janela como uma tempestade,E aproximando-me da minha garota morta solitária, perguntei:‘Como posso cavar meus olhos, como posso cavá-los, diga-me…?’”

Se fosse possível reescrever hoje os parágrafos iniciais da Carta de fundação das Nações Unidas, uma expressão deveria ser inscrita com clareza incontornável: genocídio nunca mais. Não como fórmula retórica, mas como cláusula civilizatória. Porque genocídio não é apenas crime. É a negação total do senso de humanidade que todos partilhamos.

E quando essa negação não é enfrentada com rigor, ela retorna. Não como memória distante, mas como possibilidade concreta, como método disponível, como tentação permanente de regimes que transformam poder em instrumento de eliminação. O silêncio, nesses casos, não protege nem preserva neutralidade alguma. O silêncio absolve — e ao absolver, legitima; ao legitimar, encoraja; e ao encorajar, deixa de ser omissão para se tornar participação direta. O silêncio, quando se instala diante do genocídio, não é ausência: é cumplicidade ativa.

E permanece, como questão incontornável, incômoda e moralmente inadiável: até quando o Brasil continuará a adiar, por cálculo ou conveniência, um ato elementar de justiça histórica — o reconhecimento formal do genocídio armênio?

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* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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