Como a análise política se tornou alvo dos fakes da I.A.
‘Bem-vindos à I.A. transformando a Internet em uma máquina infernal voltada para o apagamento de significado, cultura e História, como o tecnofeudalismo quer'
A I.A. vem, rapidamente, se espalhando como uma praga por todo o espectro da Internet. O que seria bastante previsível, considerando que o modelo Big Tech para a I.A. é o tecnofeudalismo, baseado no lucro e no controle mental/social, e não no compartilhamento/expansão do conhecimento e na criação de melhores condições para um coletivo de cidadãos bem-informados.
A I.A., em muitos aspectos, é a antítese da civitas. Antes da explosão da I.A., várias camadas da Internet já haviam sido distorcidas, convertendo-se em uma série de campos minados espalhados por uma gigantesca rede de esgoto. A I.A. – controlada pela Big Tech – em muitos aspectos já havia revelado ser uma fraude. Agora ela é uma arma.
Há diversos canais do YouTube manipulados por I.A. , roubando imagem e voz de alguns de nós analistas políticos independentes. Uma lista não exaustiva inclui alvos como John Mearsheimer, Larry Johnson, Richard Wolff, Glenn Diesen, Yanis Varoufakis, o economista Paulo Nogueira Batista e eu mesmo.
Não é por acidente que todos nós somos analistas independentes de geopolítica e geoeconomia, que quase todos nós nos conhecemos pessoalmente e somos convidados para os mesmos podcasts.
Em meu caso particular, há canais em inglês, português e até espanhol: eu raramente faço podcasts em espanhol, de modo que até a voz é fake. Em inglês, a voz é aproximadamente clonada. Em português, ela vem com um sotaque que eu não tenho. Em diversos casos, a audiência atinge números enormes. Essa audiência, basicamente, é formada por bots.
No que se refere a nós, os alvos, todos esses canais são fake. Repito: todos esses canais são fake. Em alguns casos, pelo menos, eles podem ter sido criados por “fãs” – com certeza de olho no lucro da monetização.
Ou toda a tramoia pode fazer parte de algo muito mais sinistro: uma estratégia visando a perda de credibilidade. Como em uma operação perpetrada pelos suspeitos de sempre para semear confusão em meio à – vasta – audiência de diversos pensadores independentes.
Não é acidente que um bom número de espectadores já está profundamente intrigado. A pergunta mais frequente é: “é realmente você ou é I.A.? Ao que parece, muitos vêm denunciando esses canais falsos, mas o YouTube, até agora, não fez absolutamente nada a respeito. Os algoritmos continuam sugerindo esses canais para grandes audiências.
A única maneira realista de lutar contra a fraude é fazer uma reclamação junto ao YouTube. Mas, na prática, isso é inútil. Os administradores do YouTube parecem estar mais interessados em, ocasionalmente, apagarem canais “inconvenientes” que tragam pensamento e análises críticas.
Decifrando o código da fraude
Quantum Bird, um especialista em física e HPC (Computação de Alto Desempenho), antes ligado ao CERN de Genebra, decifrou o código da fraude:
“A proliferação de agentes de redes neurais digitais de aprendizado profundo, capazes de imitar a escrita, a voz e a aparência de seres humanos, era inevitável, e seu impacto sobre a pesquisa científica, a produção de conhecimento e a arte de modo geral tem um potencial negativo que ainda não foi analisado em sua totalidade”.
Ele acrescenta: “Embora autores e acadêmicos venham descrevendo em detalhes o surgimento de textos atribuídos a eles, até certo ponto replicando seu estilo e suas opiniões, o modismo do momento é o florescimento de canais inteiros no YouTube e em outras plataformas de Big Tech importantes que oferecem vídeos de produtores de conteúdo popular, usando sua língua materna ou outros idiomas. Em diversos casos, a qualidade do material sintetizado é suficientemente alta para evitar a identificação imediata por um espectador médio. No contexto da comunidade de análise política, o impacto é óbvio: revisionismo histórico, erosão de reputações e distorção de notícias e análises”.
E aqui, o Quantum Bird entrega o xis da questão tecnológica:
“A sintetização desse tipo de conteúdo exige que estejam disponíveis um vasto número de amostras e uma capacidade computacional massiva, muito além do alcance de usuários domésticos. A primeira condição é garantida pela popularidade das vítimas no YouTube, e a segunda sugere uma atividade de atores estatais ou empresariais de grande porte, uma vez que modelos avançados de aprendizagem profunda têm que ser desenvolvidos e treinados por meio do processamento de uma imensa quantidade, em termos de “espaço de disco”, de áudio e vídeo. A monetização do conteúdo não cobre os custos dessa operação. Ironicamente, é a disponibilidade e o excesso de exposição de voz e vídeo online que possibilitam esse tipo de ataque”.
Lá vamos nós. Bem-vindos à I.A. transformando a Internet em uma máquina infernal voltada para o apagamento de significado, cultura e História – e semeando a mais profunda confusão intelectual. Exatamente como o tecnofeudalismo quer.
Tradução de Patricia Zimbres
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




