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Jair de Souza

Economista formado pela UFRJ, mestre em linguística também pela UFRJ

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Como pôr fim ao império do crime bolsonarista?

Artigo analisa as conexões entre bolsonarismo, Banco Master e neopentecostalismo e defende o enfrentamento da base ideológica que sustenta o movimento político

Flávio, Carlos, Jair, Eduardo e Jair Renan Bolsonaro (Foto: Reprodução/X/@BolsonaroSP)
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As recentes revelações dos vínculos umbilicais entre a organização bandidesca de Daniel Vorcaro e seu Banco Master com os membros do clã bolsonarista e os mais destacados comandantes de seu movimento político nos evidenciam a criação de um verdadeiro império do crime, montado fundamentalmente com base nos recursos roubados do tão necessitado povo brasileiro.

Como já era de conhecimento das pessoas um pouco mais bem informadas, e agora o é até mesmo pelo mundo mineral, está evidente que as imorais transferências de vários bilhões de reais dos fundos de pensão dos trabalhadores de vários estados e municípios brasileiros, quase sempre dirigidos por políticos da direita filobolsonarista, para os cofres do Banco Master serviram para dar sustentação econômica a uma estrutura criminosa de gigantesca dimensão, com fortes ramificações no Brasil, nos Estados Unidos e outros países.

Contudo, não podemos ser ingênuos a ponto de acreditar que tamanho maquinário delinquencial tenha surgido e crescido de maneira simples e em função do exclusivo empenho dos membros do clã e de seus colaboradores mais íntimos. Em realidade, trata-se de um projeto que vai muito além das figuras aparentemente grotescas e visíveis do bolsonarismo. Os grandes sustentáculos desse império monstruoso, apesar de não aparecerem  de cara aberta, são outros, ou seja, são grandes conglomerados econômicos, além de instituições a serviço da propagação ideológica dos valores do imperialismo e da essência do capitalismo. Portanto, em seu comando estão pessoas de modais muito mais refinados do que os que caracterizam aqueles que publicamente integram a quadrilha bolsonarista.

Por isso, deveríamos inicialmente nos perguntar: como foi possível que seres tão repugnantes, tão desprovidos de cultura, de sentimentos humanitários ou de quaisquer qualificações dignas de apreço, tenham podido erigir um dispositivo de poder de tamanha magnitude, a ponto de conduzi-los ao comando máximo do aparelho de Estado?

Para esboçar uma resposta inicial a esta indagação, precisamos levar em conta que essa tomada do poder político não se efetivou através de um golpe de força típico, como havia sucedido em 1964 para a implantação da ditadura militar. No caso ao qual nos referimos agora, eles contaram com a anuência de uma parcela significativa de nossa população, inclusive de um numeroso grupo situado nas camadas mais sofridas e espoliadas. Como entender que o grosso da votação que elegeu o chefe da organização criminosa ao posto de presidente da nação tenha vindo de pessoas e regiões tidas como as mais pobres do país?

Seria impossível encontrar alguma resposta plausível para o que está sendo perguntado sem dedicar atenção ao papel desempenhado por organismos políticos que atuam com a camuflagem da religião. Embora não seja o único elemento a ter em conta, a responsabilidade maior cabe ao trabalho ideológico desenvolvido pelos agrupamentos políticos que se ramificaram pelo país afora na forma de igrejas evangélicas neopentecostais.

Sem a contribuição efetiva das tais igrejas neopentecostais, cujos estabelecimentos estão espalhados por quase todas as esquinas de todas as cidades e lugarejos de nossa nação, o bolsonarismo jamais teria ido além de sua condição de uma ideologia restrita e característica de um punhado de racistas frustrados de classe média. Por isso, o neopentecostalismo é a verdadeira essência ideológica do bolsonarismo.

Poderíamos dizer sem medo de estar equivocados que, muito mais do que existirem e crescerem às custas do bolsonarismo, foram essas igrejas neopentecostais que se apropriaram do bolsonarismo, para utilizá-lo como um instrumento prático para a canalização de apoio de massas a seu próprio projeto de poder pró-imperialista. Para os que desejem ter informações um pouco mais detalhadas do surgimento do neopentecostalismo a partir de seu núcleo imperialista nos Estados Unidos, por volta dos anos 1970, recomendo a leitura do livro O Vaticano e o Governo Reagan, de Ana Maria Ezcurra.

Em vista disto, deveríamos aproveitar a oportunidade aberta pelo grande escândalo causado com a vinda à tona dos estreitos laços que unem o bolsonarismo com o banditismo financeiro do Banco Master, para desmascarar a hipocrisia que vem sendo praticada e promovida há várias décadas pelo neopentecostalismo em nosso país e em vários outros do sul-global. É esse caradurismo neopentecostal o que tem induzido a muita gente de condições sociais muito baixas a aderir a propostas que só favorecem e beneficiam aos que vivem em opulência às custas do sofrimento das maiorias.

E, convém ressaltar, para combater a nefasta ideologia do neopentecostalismo e sua expressão política bolsonarista, não é preciso questionar a crença religiosa nem a fé de ninguém. Podemos até mesmo deixar patente as gritantes contradições existentes entre as prédicas e objetivos dos estabelecimentos neopentecostais e os ensinamentos de vida deixados pelo próprio Jesus, conforme os relatos constantes nos textos dos Evangelhos.

Em nosso contato diário com os moradores das periferias, que sofrem a influência das citadas igrejas, o que menos nos deveria preocupar é a presença de sentimentos religiosos. Diante de pessoas em tal situação, nossa prioridade é deixar-lhes plenamente estabelecido que a simbologia de Jesus jamais poderia ser associada à defesa dos interesses dos poderosos, que tratam de garantir seus privilégios em detrimento das necessidades do povo trabalhador, da gente simples, ou seja, daqueles a quem Jesus considerava como seu povo.

Em síntese, para pôr fim ao império do crime do bolsonarismo, precisamos também desmascarar a ideologia que lhe dá amparo em boa parte da sociedade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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