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Após negar, Eduardo Bolsonaro admite contrato financeiro de Dark Horse

Filho de Jair Bolsonaro mudou versão após o Intercept revelar documentos sobre o filme, Banco Master e fundo no Texas

Jim Caiezel interpretando Jair Bolsonaro (PL) no filme "Dark Horse", Congresso Nacional ao fundo e Eduardo Bolsonaro (Foto: Reprodução I Agência Câmara)
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247 - O deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) admitiu ter assinado um contrato com poderes de gestão financeira sobre Dark Horse, filme que pretende contar a trajetória de Jair Bolsonaro, menos de 24 horas depois de afirmar nas redes sociais que não exercia função de gestão no projeto e que apenas havia cedido seus direitos de imagem. As informações são da BBC News Brasil.

Segundo a BBC News Brasil, a nova versão surgiu após o The Intercept Brasil divulgar documentos, mensagens, áudios e comprovantes bancários relacionados às negociações para financiar a produção. A reportagem do Intercept apontou que Eduardo atuou como produtor-executivo da obra ao lado do deputado federal Mario Frias (PL-SP).

De acordo com os documentos citados, entre eles um contrato firmado entre Eduardo e a produtora Go Up Entertainment, sediada nos Estados Unidos, o filho de Jair Bolsonaro teria atribuições ligadas à gestão financeira do projeto. O material também indicaria participação em decisões estratégicas de financiamento, organização de documentos para investidores e busca de fontes de recursos.

Após a publicação, Eduardo divulgou um vídeo nas redes sociais e admitiu que assinou um contrato com a produtora anos atrás, quando o filme ainda estava em fase inicial. Ele afirmou que a medida buscava garantir a participação de um diretor de Hollywood no projeto.

“Eu peguei R$ 350 mil e transformei em cerca de US$ 50 mil e mandei para os Estados Unidos. Por quê? Para garantir o contrato com um diretor de Hollywood para que ele pudesse fazer o roteiro, começar a rascunhar, desenhar essa história que lá na frente, se conseguíssemos um investidor, ou um grupo de investidores, fazer o filme acontecer”, afirmou.

Eduardo disse ainda que usou recursos próprios, provenientes do projeto Ação Conservadora. Segundo ele, a produtora sugeriu a inclusão de seu nome como diretor-executivo em razão do risco assumido naquele momento.

“A essa época, o meu contrato era com a produtora, que basicamente disse o seguinte: 'Eduardo, bota esse dinheiro aqui, como o risco tá cem por cento seu, eu vou te garantir aí você ser diretor-executivo do filme", afirmou.

Além do caso Eduardo, o senador Flávio Bolsonaro, irmão do parlamentar cassado, teria negociado com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, um financiamento de R$ 134 milhões para o filme "Dark Horse".

Eduardo nega ter recebido dinheiro de Vorcaro

Eduardo Bolsonaro também negou ter recebido dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro ou de um fundo criado nos Estados Unidos. Ele afirmou que recuperou apenas o valor que havia colocado no projeto.

“Quem fala que Eduardo Bolsonaro recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro é mentiroso. Quem fala que Eduardo Bolsonaro recebeu dinheiro desse fundo que foi criado nos EUA está mentindo. Eu recebi o dinheiro de volta por conta do contrato com a produtora, mas isso não passou pelo fundo. E recebi o dinheiro que era meu.”

A Polícia Federal apura se recursos de Vorcaro destinados ao filme teriam custeado despesas de Eduardo nos Estados Unidos, país para onde ele se mudou em fevereiro do ano passado. Tanto Eduardo quanto Flávio Bolsonaro negam essa hipótese.

“A história que recebi dinheiro do fundo de investimento não se sustenta e é tosca. Meu status migratório não permitiria, se isso tivesse acontecido o próprio governo americano me puniria”, disse Eduardo nas redes sociais.

Parte dos valores negociados por Flávio com Vorcaro teria seguido para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos. A produtora Go Up Entertainment negou ter recebido repasses de verba do banqueiro para a obra.

À Folha de S. Paulo, Karina Ferreira da Gama, sócia-administradora da empresa, afirmou que a produtora trabalha apenas com investimentos estrangeiros sem ligação com Vorcaro.

Flávio Bolsonaro muda versão sobre relação com banqueiro

A crise envolvendo o clã Bolsonaro e Daniel Vorcaro começou após o Intercept divulgar um áudio em que Flávio Bolsonaro pede apoio financeiro ao dono do Banco Master para o filme sobre Jair Bolsonaro.

Antes da publicação da reportagem, o Intercept questionou Flávio presencialmente sobre o financiamento de Vorcaro à produção Dark Horse. O senador respondeu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”.

Depois da divulgação dos documentos e mensagens, Flávio admitiu que negociou com Vorcaro investimentos para financiar as gravações. Ele negou qualquer irregularidade e afirmou que manteve contato com o banqueiro apenas para tratar do filme.

“Mais do que nunca, é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes, dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet”, disse Flávio, em nota.

“Conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro. O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme”, continuou.

Flávio também afirmou que não ofereceu vantagens em troca dos recursos.

“Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero, CPI do Master Já”, disse ainda.

Senador cita contrato de confidencialidade

Na GloboNews, Flávio Bolsonaro disse que omitiu a relação com Vorcaro em razão de um contrato de confidencialidade. A justificativa marcou nova mudança em sua versão sobre o caso.

“Eu tenho contrato de confidencialidade. Eu tô falando neste momento porque isso obviamente veio à tona e eu não tenho mais como negar. Não tem nada de errado. Nós não fizemos nada de errado. É uma relação contratual. Eu não tenho nenhuma relação com Daniel Vorcaro a não ser para tratar de filme”, alegou.

“Se eu falo assim, 'eu conheço o Vorcaro', a pergunta seguinte qual ia ser? 'Qual a sua relação com ele?' Eu ia ter que falar do filme. Foi só por isso que eu me eximi.”

Em entrevista à CNN, Flávio afirmou que o contrato ligado a Eduardo era antigo e antecedia a estrutura montada nos Estados Unidos.

“Esse é um contrato antigo, formalizado com a produtora muito antes de haver toda essa estrutura lá nos Estados Unidos. Foi ali a plataforma legal para o Eduardo colocar dinheiro e segurar o roteirista, o Cyrus [Nowrasteh]”, declarou.

O senador também passou a admitir que poderiam surgir outros registros de interação com Vorcaro.

“Pode vazar um videozinho mostrando o estúdio, que eu possa ter enviado para ele, ou algum encontro que eu possa ter tido com ele. Foi tudo para tratar exclusivamente do filme. Não vai ter surpresinha. Não virão coisas novas.”

Intercept aponta promessa de US$ 24 milhões

Segundo o Intercept Brasil, Vorcaro teria acertado repasse de US$ 24 milhões para a produção, valor equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época. Desse total, ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, teriam entrado no projeto entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações.

A reportagem aponta que os atrasos nos pagamentos levaram Flávio Bolsonaro a cobrar o banqueiro. Em áudio divulgado pelo Intercept e atribuído ao senador, ele cita preocupação com contas em aberto e compromissos assumidos com nomes ligados à produção.

“Irmão, preferi te mandar um áudio para você ouvir com calma. Bom, aqui a gente tá passando por um dos momentos mais difíceis da nossa vida. Não sei como isso vai acabar, mas tá na mão de Deus aí”, teria dito Flávio no aúdio divulgado pelo Intercept.

“Mesmo você tendo dando liberdade de te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas, enfim... É porque está num momento muito decisivo aqui no filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e preocupado aqui com o efeito contrário do que a gente sonhou pro filme, né?”, continua a gravação.

“Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel ou num Cyrus [Nowrasteh], os caras renomadíssimos lá no cinema americano mundial, podia ser algo muito ruim. Todo efeito positivo que a gente tem certeza que vai vir com esse filme, pode ter efeito elevado a menos 1”, diz Flávio no áudio.

“Se você puder me dar um toque, uma posição aí Daniel, porque a gente precisa saber o que faz da vida. Porque tem muita conta para pagar esse mês e mês seguinte também. E agora na reta final, a gente não pode não honrar com os compromissos.”

Segundo o Intercept, Vorcaro respondeu com pedido de desculpas e disse que resolveria a situação no dia seguinte. A reportagem também informa que os dois fizeram uma ligação telefônica de cerca de dois minutos e meio na mesma noite.

Mensagens indicam proximidade entre Flávio e Vorcaro

O Intercept também divulgou registros de conversas e contatos entre Flávio e Vorcaro. Em uma das mensagens, o senador teria enviado um vídeo de visualização única ao banqueiro e atribuído a ele a viabilização do projeto.

“Tá perdendo, irmão. Tudo isso só está sendo possível por causa de você!”, diz trecho publicado pelo Intercept.

Vorcaro respondeu: “Que demais. Ficou perfeito”.

Dias antes da primeira prisão do banqueiro, Flávio teria enviado nova mensagem com tom de proximidade.

“Fala mermao. Pode atender?”, perguntou Flávio em mensagem enviada no dia 15 de novembro, às 15h47, segundo o Intercept.

Vorcaro respondeu no dia seguinte: “Fala irmaozao ro[sic] na igreja. Terminando te chamo.”

Durante a tarde, Flávio teria mandado duas imagens de visualização única e, em seguida, escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.

Mario Frias e produtora negam dinheiro de Vorcaro

Mario Frias, que também aparece no contrato revelado pelo Intercept, afirmou em nota que “Eduardo Bolsonaro não é e nunca foi produtor-executivo da produção do filme Dark Horse”.

Em comunicado publicado no X, Frias também negou participação financeira de Vorcaro na obra.

“Como já esclareceu a produtora GOUP Entertainment, não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse. E, ainda que houvesse, não haveria problema algum: trata-se de relação estritamente privada, entre adultos capazes, sem um único real de dinheiro público envolvido. E, na época, não havia qualquer suspeita a ele e seu banco”, diz um trecho do comunicado divulgado em seu perfil no X.

“Há uma tentativa permanente de descredibilizar a obra perante a opinião pública, investidores e parceiros do setor audiovisual, muitas vezes por motivações claramente políticas e ideológicas.”

As gravações de Dark Horse terminaram em dezembro, em São Paulo. O longa entrou em fase de edição nos Estados Unidos. A produção conta com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.

Direita reage à crise

As revelações provocaram reação entre nomes do campo conservador. O economista e comentarista Rodrigo Constantino afirmou no X que esperava que o áudio fosse falso.

“Eu realmente espero que esse áudio seja falso. Se for verdade, acabou”, escreveu.

Constantino disse que “não dava para passar pano na situação” e cobrou coerência de aliados de Flávio.

“Agora vai ser a hora de separar o joio do trigo. Só imaginem se fosse o Zema, ou então o Lula com essas ligações e esses acordos com Vorcaro. Qual seria a reação dessa mesma turma? Só imaginem...”

O senador Ricardo Salles (Novo-SP) compartilhou apoio ao ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema, também pré-candidato à Presidência.

“Bora Zema! Sempre contra a esquerda!!”, compartilhou Salles.

“Parece que Romeu Zema é a única solução”.

Zema também criticou Flávio em vídeo nas redes sociais.

“Flavio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil.”, declarou.

Ronaldo Caiado (PSD), também pré-candidato à Presidência, adotou tom diferente. Ele afirmou que Flávio deve se explicar, mas defendeu a unidade da centro-direita.

O ex-vereador Fernando Holiday (PL-SP) minimizou as revelações.

“Eu não estou entendendo essa zona toda. Qual o problema de buscar financiamento privado para um filme? A outra opção é financiamento público. E, por acaso, para pedir investimento privado, tem que prever os crimes do sujeito? Consultar a Mãe Dinah?”, escreveu no X.

O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), disse que “as explicações apresentadas pelo senador Flávio Bolsonaro são claras, coerentes e objetivas”.

“Os fatos dizem respeito à busca de patrocínio privado para um projeto privado, sem qualquer utilização de recursos públicos. Não aceitaremos tentativas de transformar uma iniciativa privada em narrativa política artificial para atingir adversários”, afirmou.

Fabio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social do governo Bolsonaro, também se manifestou.

“Todo frenesi durará poucos minutos. Se acalmem”, declarou.

Nikolas Ferreira (PL-MG) defendeu a instalação da CPMI do Banco Master e afirmou que não acredita “em condenações precipitadas”.

“Não acredito em condenações precipitadas, assim como também acredito que transparência é sempre o melhor caminho. Flávio deu sua versão dos fatos e afirmou não haver qualquer ilegalidade em sua conduta”, afirmou na rede social X.

“Só há uma forma de elucidar todos os fatos envolvendo o Banco Master e as ações do Vorcaro: a instalação da CPMI. Quem agora silenciar, estará acusando o seu medo e, consequentemente, sua culpa.”

Aliados de Lula cobram investigação

A divulgação do caso também levou aliados do presidente Lula a cobrar apuração. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) apresentou notícia-crime ao ministro André Mendonça, do STF, à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República, com pedido de prisão preventiva de Flávio Bolsonaro.

O ministro Guilherme Boulos ironizou o caso nas redes sociais.

“Uma semana após Flávio dizer que Banco Master está ligado ao PT, vaza áudio dele cobrando R$ 134 milhões de Vorcaro. A terra plana não gira, capota”.

Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, também comentou o episódio durante evento em São Paulo.

“O cara pede uma contribuição de R$ 134 milhões para a família dele e o pessoal está apavorado com isso. Normal. O Brasil virou essa cleptocracia porque as pessoas perderam a noção do ridículo. Ele pediu isso para fazer um documentário sobre o pai dele. Até eu faço”, declarou.

Analistas veem risco para pré-candidatura de Flávio

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que o caso pode aprofundar disputas internas na direita e reduzir a competitividade de Flávio Bolsonaro como pré-candidato do PL à Presidência.

A cientista política Mayra Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirmou que Flávio “jogava parado” na pré-campanha, apoiado na transferência de votos de Jair Bolsonaro.

“Esses elementos podem conturbar aquilo que parecia ser o caminho que as coisas seguiriam.”

O cientista político Claudio Couto, da Fundação Getulio Vargas, avaliou que o episódio pode interromper o crescimento do senador nas pesquisas, principalmente se novas revelações surgirem.

“Se isso acontecer de novo, como ocorreu na Vaza Jato, pode ser que hoje tenha aparecido isso e amanhã apareça outra coisa. Aí o comprometimento é muito maior.”

Yuri Sanches, diretor de risco político da Atlas/Intel, disse que ainda é cedo para medir o impacto eleitoral do caso, mas reconheceu o potencial de desgaste.

“Um caso como esse tem potencial de impactar negativamente o Flávio de uma maneira que a gente ainda vai precisar medir a magnitude.”

A sequência de versões de Eduardo e Flávio Bolsonaro, a entrada de Daniel Vorcaro no centro da apuração e as dúvidas sobre o fluxo de recursos para Dark Horse mantêm o filme sobre Jair Bolsonaro no foco da crise política envolvendo o Banco Master.