Documentos apontam que Eduardo Bolsonaro controlou dinheiro do filme "Dark Horse"
Filme sobre Jair Bolsonaro recebeu R$ 61 mi de fundo ligado ao dono do Banco Master; PF investiga se dinheiro bancou despesas de Eduardo Bolsonaro nos EUA
247 - O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) participou diretamente da produção-executiva do filme “Dark Horse”, projeto biográfico sobre Jair Bolsonaro (PL), segundo contrato e diálogos obtidos pelo Intercept Brasil. Os documentos indicam que Eduardo assumiu funções ligadas à gestão financeira e ao controle orçamentário da produção audiovisual, ampliando seu grau de envolvimento no projeto. As informações foram divulgadas pelo Intercept Brasil e contradizem declarações feitas por Eduardo Bolsonaro em publicação no Instagram na quinta-feira (14). Na postagem, o parlamentar afirmou que apenas cedeu os direitos de uso de imagem para o filme e negou participação em cargos de gestão da produção.
O material revelado pelo site mostra um contrato de produção assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro em 30 de janeiro de 2024. O documento, datado de novembro de 2023, apresenta a empresa GoUp Entertainment, sediada nos Estados Unidos, como produtora do longa-metragem.
O contrato também coloca Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) como produtores-executivos do projeto. Essa função garante participação direta em decisões administrativas, financeiras e estratégicas relacionadas à obra audiovisual. De acordo com os registros obtidos pelo Intercept, a atuação de Eduardo no filme ultrapassou a cessão de imagem mencionada pelo parlamentar nas redes sociais. Os documentos apontam poder de decisão sobre orçamento e condução financeira da produção.
A revelação surge em meio à repercussão de investigações e questionamentos envolvendo a busca de recursos para financiar “Dark Horse” após a informação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou diretamente com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, um financiamento de 24 milhões de dólares — cerca de R$ 134 milhões à época — para a produção do filme.
Conversas analisadas reforçam a posição de Eduardo Bolsonaro como figura central na condução do loga. Segundo os documentos, Eduardo assinou contrato de produção em janeiro de 2024 e assumiu formalmente a função de produtor-executivo do longa ao lado do deputado federal Mario Frias (PL-SP) e da empresa GoUp Entertainment, sediada nos Estados Unidos. O material contradiz declarações feitas pelo parlamentar nas redes sociais, onde afirmou ter apenas cedido direitos de imagem para a produção.
O contrato estabelece que os produtores-executivos participariam diretamente de atividades relacionadas ao financiamento do filme. Entre as atribuições previstas estavam preparação de documentação para investidores, busca de incentivos fiscais, obtenção de patrocínios e articulação de recursos financeiros para viabilizar o projeto.
Segundo os documentos obtidos pelo Intercept, Eduardo Bolsonaro teria poder sobre decisões relacionadas à forma de captação e utilização do dinheiro arrecadado para o filme. O texto do contrato não esclarece quem efetivamente executou essas atividades, mas aponta o deputado cassado como integrante do núcleo de gestão do projeto.
Mensagens revelam articulação financeira
Trocas de mensagens analisadas pelo Intercept reforçam a atuação direta de Eduardo Bolsonaro na busca de financiamento. Em uma conversa de março de 2025, o empresário Thiago Miranda encaminhou ao banqueiro Daniel Vorcaro uma captura de tela com orientações enviadas pelo deputado sobre transferência de recursos aos Estados Unidos.
Na mensagem atribuída a Eduardo Bolsonaro, o parlamentar afirma: “O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos”.
Em seguida, Eduardo acrescenta: “Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual e etc. Será que conseguimos?”.
As mensagens surgiram no mesmo período em que Eduardo anunciou licença do mandato parlamentar para permanecer nos Estados Unidos, alegando busca por “devidas sanções aos violadores de direitos humanos”.
O Intercept informou que Thiago Miranda declarou não ter exercido qualquer função na gestão do filme. Segundo ele, sua participação limitou-se à intermediação entre investidores e interessados no projeto.
Filme milionário e promessa de Green Card
Os documentos obtidos pela reportagem apontam orçamento estimado entre US$ 23 milhões e US$ 26 milhões para “Dark Horse”, valor considerado extremamente elevado para padrões do cinema brasileiro. A quantia coincide com os US$ 24 milhões negociados entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro para financiar o projeto.
Segundo o plano de negócios revelado pelo Intercept, a estratégia previa venda de 40 cotas de US$ 500 mil para investidores. Os aportes ofereciam vantagens diferenciadas. Investidores que aplicassem US$ 1 milhão poderiam integrar o conselho de produção e participar de decisões relacionadas ao filme.
O pacote mais caro custava US$ 1,1 milhão e oferecia possibilidade de obtenção de residência permanente nos Estados Unidos por meio de oportunidade vinculada a imigração. O plano apresentava o investimento no filme como caminho para obtenção de Green Card.
Os documentos também projetavam retorno financeiro agressivo. A proposta previa devolução integral do capital investido mais lucro de 20% aos financiadores. Após essa etapa, os lucros líquidos obtidos com bilheteria e plataformas de streaming seriam divididos igualmente entre investidores e produtores.
Transferências e investigação
O Intercept revelou ainda que parte dos recursos negociados para financiar “Dark Horse” passou pelo fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas. O fundo possui ligação com aliados de Eduardo Bolsonaro.
Segundo a reportagem, pelo menos US$ 10,6 milhões, equivalentes a cerca de R$ 61 milhões, foram transferidos entre fevereiro e maio de 2025 para financiar o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro.
A Polícia Federal apura se parte do dinheiro negociado para o filme financiou despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O parlamentar negou ter recebido valores relacionados ao projeto.
Os registros societários obtidos pelo Intercept apontam ligação entre o fundo e o escritório do advogado Paulo Calixto. Altieris Santana também aparece relacionado à estrutura financeira utilizada nas operações investigadas.



