Como Washington vende guerras ao mundo com palavras
Na Venezuela, a ofensiva começa no vocabulário: disfarce, desvio e apagamento transformam agressão em “administração”
Quando os Estados Unidos atacam outro país, não enviam apenas tropas nem lançam mísseis. Começam pela linguagem. O que estamos vendo na Venezuela não é uma comunicação aleatória, mas um sistema narrativo bem desenhado — construído em torno de três passos básicos e repetido por um conjunto de truques retóricos familiares. E, quando se entende como esse sistema funciona, fica impossível não enxergar o mesmo padrão se repetindo, uma e outra vez.
O primeiro passo é o disfarce. Mude o nome de uma ação e você muda a forma como ela é julgada. Por isso, os Estados Unidos não se referiram ao que fizeram na Venezuela como “invasão”. Na verdade, nem usaram a linguagem da guerra. Em vez disso, falaram em “sequestro”, “prisão” e “operações conjuntas com forças de segurança”. Todos esses termos são típicos do policiamento doméstico, não de um conflito armado. O efeito é poderoso: quando a ação é apresentada como “aplicação da lei”, as questões de soberania e de Carta das Nações Unidas desaparecem silenciosamente da conversa.
A violência desencadeada por Washington é ainda mais neutralizada por uma linguagem técnica. Bombardeio vira “ataque de precisão”; invasão vira “operação”; o dano civil que isso causa é rebaixado a “danos colaterais”. Esse tipo de formulação faz mais do que suavizar o choque: apresenta a guerra como uma forma de gestão técnica — algo ordenado, controlado, quase burocrático.
Ao mesmo tempo, o Estado alvo é “personalizado”. Um país inteiro é reduzido a um único líder; soberania, instituições e população ficam em segundo plano. Quando um Estado é reduzido a um indivíduo, a mudança de regime pode ser vendida como “justiça criminal”, e não como agressão.
O segundo passo é o desvio. Se a atenção é desviada para outro lugar, a legalidade vira detalhe.
É por isso que tanta ênfase é colocada em unidades de elite e em imagens de “incursões dramáticas”. Salas de comando, filmagens noturnas, narrativas de forças especiais dominam a cobertura. O público é incentivado a admirar competência e eficiência. Quanto mais impressionante parece a operação, menos espaço existe para perguntar se ela deveria ter acontecido.
O sucesso tático passa então a encobrir a violência estratégica. Uma operação rápida e “limpa” é celebrada como contida e responsável, embora isso não diga nada sobre consequências de longo prazo — instabilidade regional, sofrimento civil, colapso econômico e ciclos intermináveis de intervenção. Vencer a cena substitui vencer a paz.
O debate público é cuidadosamente empurrado para a discussão de procedimento, e não de substância. A cobertura se fixa em saber se o Congresso foi informado ou se o momento foi adequado. Esses temas desviam o foco do núcleo do problema: quem autorizou os Estados Unidos a usar força além de suas fronteiras, em primeiro lugar?
Em seguida, causa e efeito são invertidos. A interferência veio antes, mas a história é contada ao contrário — como se a instabilidade exigisse interferência, e não como se a interferência produzisse instabilidade. A história é editada para que a agressão pareça inevitável.
O terceiro passo é o apagamento. Controle a memória e você controla o julgamento moral.
A América Latina não é uma história nova. Os Estados Unidos interferiram na região mais de 40 vezes. Mas essa história é apagada. Cada ação é apresentada como excepcional, como se não tivesse ligação alguma com o que veio antes.
E, antes que a opinião pública consiga processar o que aconteceu na Venezuela, novas manchetes aparecem — Trump falando em ocupar a Groenlândia em até dois meses, ou notícias sobre deslocamentos militares voltados ao Irã. A atenção muda de assunto. A Venezuela some. A responsabilização nunca chega.
Até as imagens são controladas. O público vê fotos de Nicolás Maduro mal vestido, exausto, humilhado. O que não é mostrado é o processo brutal por trás dessas imagens: a morte de dezenas de guarda-costas cubanos que teriam morrido protegendo-o e a violência da incursão em si. O foco permanece no espetáculo, não no custo.
Quando a invasão é reformulada como governança e a guerra vira administração rotineira, a transformação mais perigosa já ocorreu. Ela não acontece no campo de batalha. Acontece nas palavras.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



