Revelando os dez truques da retórica utilizada pelos Estados Unidos
O primeiro truque consiste em transformar questões internacionais em assuntos domésticos, como o combate ao narcotráfico
Nos primeiros dias do novo ano, os Estados Unidos lançaram um ataque aéreo contra a Venezuela, sequestrando à força o presidente Nicolás Maduro e sua esposa enquanto dormiam, nas primeiras horas da madrugada, e levando-os para Nova York, onde seriam julgados. A operação deu continuidade a uma sequência de ameaças e ataques militares norte-americanos contra a Venezuela desde agosto de 2025, incluindo a oferta de recompensa pela “captura” de Maduro, o deslocamento de uma frota anfíbia, ataques a embarcações supostamente ligadas ao tráfico de drogas, o rompimento de relações diplomáticas e a autorização de operações encobertas da CIA.
Além disso, os Estados Unidos reforçaram sua presença militar no Caribe e em regiões vizinhas, ameaçando Cuba, Colômbia e México, ao mesmo tempo em que passaram a articular a anexação da Groenlândia, território da Dinamarca. Trata-se de um caso flagrante de terrorismo internacional e de violação explícita da Carta das Nações Unidas, que revela de forma inequívoca a natureza hegemônica e imperialista da política externa norte-americana.
Ainda assim, a administração Trump manipulou a opinião pública por meio de uma série de artifícios retóricos, desencadeando uma verdadeira campanha de guerra cognitiva. O resultado foi uma reação intensa de forças pró-Estados Unidos inclusive dentro da China, levando ao questionamento da política externa chinesa e até a comparações indevidas com a questão de Taiwan.
Diante disso, torna-se imprescindível identificar as três grandes lógicas narrativas e os dez principais truques retóricos empregados pelos Estados Unidos, bem como estabelecer, sem demora, um sistema narrativo autônomo.
Confundir conceitos e borrar distinções travestidas de lógica
O primeiro truque consiste em transformar questões internacionais em assuntos domésticos. Na madrugada de 3 de janeiro, pelo horário da costa leste, forças norte-americanas bombardearam diversos alvos militares na Venezuela, incluindo o porto de La Guaira, a Base Aérea Libertador, o Forte Tiuna, a Base Aérea La Carlota e o aeroporto de Higuerote. O ataque foi cuidadosamente planejado para moldar a percepção posterior dos fatos. O que foi, na prática, uma invasão flagrante de um Estado soberano passou a ser descrito como uma operação transfronteiriça de “captura”.
Essa narrativa deslocou o debate para o interior da política norte-americana, concentrando-se na suposta autorização do Congresso, enquanto se evitava deliberadamente a condenação internacional que uma agressão dessa magnitude naturalmente exigiria à luz do direito internacional e da Carta da ONU. O sequestro ilegal foi assim disfarçado de ação contra o terrorismo. Apesar da condenação internacional generalizada, Washington tentou redirecionar a atenção para acusações de “lavagem de dinheiro do narcotráfico” e para a suposta ilegitimidade do governo venezuelano.
O segundo truque é converter agressão militar em ação de aplicação da lei. Trump descreveu a incursão militar como a “captura” de Maduro, afirmando que o ataque foi realizado “em cooperação com as forças de segurança dos Estados Unidos”. Do ponto de vista jurídico, “captura” é um termo policial, não militar. Um sequestro foi rebatizado como prisão. O plano, audacioso, era transferir o presidente venezuelano para um tribunal federal em Nova York, cidade-sede da ONU, reforçando simbolicamente a pretensão dos Estados Unidos de se colocarem como intérpretes e juízes das normas internacionais.
O terceiro truque desloca o foco do nacional para o pessoal. A divulgação de imagens de Maduro e de sua esposa detidos, acompanhadas até de mensagens de “Feliz Ano Novo” da agência antidrogas norte-americana, personalizou o episódio. A Venezuela desaparece como sujeito político, substituída pela construção da figura de um “criminoso”. Um chefe de Estado é despojado de sua condição soberana e reduzido a fugitivo, enquanto o destino de uma nação é simplificado em culpa individual.
Quando o espetáculo encobre a ilegalidade
Outro expediente é o destaque às supostas façanhas heroicas das forças especiais para ocultar a ilegalidade da intervenção. A Casa Branca divulgou imagens da sala de comando da Operação Resolução Absoluta, evocando a operação que matou Osama bin Laden. Trump e o secretário de Defesa detalharam rapidamente o papel da força de elite Delta Force, mergulhando a opinião pública numa narrativa cinematográfica digna de Hollywood. Assim, uma operação militar complexa, com violações do espaço aéreo, bombardeios múltiplos e incursões terrestres, foi reduzida ao “momento da captura”, relegando toda a violência restante ao papel de ruído de fundo.
A sofisticação tática, porém, não esconde a barbárie estratégica. Nenhuma crítica às armas substitui a crítica do armamento como política. Trump tentou evitar um novo Afeganistão e apagar o vexame da retirada caótica conduzida por Biden. Ainda assim, o agressor não escapa ao julgamento histórico. Atacar a Venezuela não resolve o abismo fiscal nem a polarização política interna dos Estados Unidos, tampouco corrige o erro estratégico de iniciar uma guerra insustentável.
Há ainda o uso do procedimento para ocultar a substância. Em ano de eleições legislativas, o debate entre democratas e republicanos sobre a legalidade formal das ações de Trump confundiu a opinião pública e encobriu o caráter agressivo da operação. As discussões no Capitólio receberam muito mais atenção do que os debates no Conselho de Segurança da ONU.
Outro truque consiste em inverter causa e efeito. Ao induzir o público a discutir por que os Estados Unidos intervieram na Venezuela, a narrativa se desloca para a ideia de que “a Venezuela destruiu a si mesma”, conduzindo à conclusão implícita de que a queda de Maduro seria merecida e de que a chamada “maldição do petróleo” seria um destino inevitável.
Romper tempo e espaço para enganar a opinião pública
Os Estados Unidos também usam as notícias para apagar a história. Enquanto o destino de Maduro ocupa os noticiários, Trump passa a ameaçar Cuba, Colômbia e México. Poucos se lembram de que os Estados Unidos já protagonizaram mais de 40 intervenções na América Latina, envolvendo agressões militares, controle político e exploração econômica. A revista Foreign Affairs revelou que, antes mesmo da ofensiva, o governo venezuelano sinalizava disposição para atender exigências norte-americanas, especialmente sobre o controle do petróleo.
Ao lançar novos temas, Washington dilui os assuntos pendentes. Enquanto a crise latino-americana ainda se desenrola, Trump volta-se para a Groenlândia e anuncia possíveis ataques ao Irã. Em meio a essa enxurrada de manchetes, o futuro da Venezuela vai sendo esquecido.
Imagens também são usadas para ocultar processos. A fotografia de Maduro com roupas rasgadas escondeu o massacre de 32 escoltas cubanos mortos enquanto defendiam o presidente venezuelano. Apenas quando Cuba decretou luto nacional é que muitos perceberam a brutalidade da operação. Para os Estados Unidos, basta que não haja baixas entre suas forças especiais.
Toda essa retórica funciona como um camuflado discursivo para contornar o direito internacional e enfraquecer os mecanismos multilaterais, abrindo caminho para uma ordem internacional baseada em normas ditadas por Washington. O discurso serve tanto à expansão global e ao saque de recursos quanto às agendas políticas domésticas, num jogo sofisticado e profundamente enganoso.
O teórico norte-americano John Mearsheimer, em A tragédia da política das grandes potências, observa que as guerras costumam ser apresentadas como cruzadas morais, e não como disputas por poder. Foi assim na Guerra do Golfo, quando George H. W. Bush falou em “libertar o Kuwait”, ocultando os interesses petrolíferos. Hoje, esses interesses seguem centrais, e a Venezuela tornou-se o novo epicentro.
No fim das contas, a manipulação da linguagem é um instrumento poderoso de dominação. Não é preciso convencer o público da “legitimidade da violência”, mas apenas de que ela é rotineira, limitada e bem administrada. Quando “invasão” vira “captura” e “guerra” se transforma em “governança”, a mudança mais perigosa já ocorreu, não no campo de batalha, mas nas entrelinhas.
O mais alarmante é que cada crise reforça a hegemonia norte-americana e aprofunda a bipolaridade entre Estados Unidos e China. Com a digitalização e as tecnologias inteligentes, intensifica-se também o imperialismo digital. Análises geradas por inteligência artificial circulam amplamente na internet, misturando dados reais com distorções e desinformação. Nesse cenário, compreender e desmontar a retórica imperial torna-se não apenas um exercício intelectual, mas uma necessidade política urgente.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



