Copom anuncia que vai cortar juros, mas não sabe ainda quanto
Haverá, sem dúvida, algum alívio para a economia brasileira, o que é uma boa notícia, mas o custo do crédito seguirá alto
BC divulgou hoje a ata do Copom. O Comitê confirma o sinal já esperado de que deve iniciar o ciclo de cortes de juros na próxima reunião, em março. O ponto central da ata, porém, é que não há nenhuma definição prévia sobre a duração, a magnitude ou o ritmo desse ciclo. Essas decisões serão tomadas ao longo do tempo, reunião a reunião. Ou seja, não faz sentido tentar extrair da ata um número específico de quanto será o primeiro corte ou o tamanho total do ciclo: isso simplesmente não está definido neste momento.
A ata detalha, como de costume, o cenário macroeconômico. O ambiente externo segue incerto, especialmente por conta da política monetária nos Estados Unidos e das tensões associadas à guerra tarifária. No plano doméstico, há sinais de moderação da atividade econômica. A economia segue crescendo, mas em ritmo menos acelerado, apesar da resiliência do mercado de trabalho. Tivemos recentemente uma taxa de desemprego muito baixa, de 5,1%, mas o dado do Caged foi mais fraco: no acumulado do ano, trata-se do pior resultado de criação de vagas formais dos últimos quatro anos.
Do lado da inflação, as medidas estruturais e os núcleos do IPCA continuam arrefecendo e mostram melhora, embora ainda permaneçam acima da meta. As expectativas de inflação para 2026 e 2027 também melhoraram, mas seguem desancoradas. Para 2025, a expectativa gira em torno de 4%, e para 2026, em torno de 3,8%, ainda acima do centro da meta.
O Banco Central aponta riscos tanto para cima quanto para baixo. Entre os fatores que ajudariam na convergência da inflação à meta, a ata destaca a política fiscal. Uma postura fiscal mais previsível e menos expansionista — em termos técnicos, uma redução do impulso contracíclico via transferências de renda — diminuiria a pressão de demanda e facilitaria o trabalho da política monetária no controle da inflação.
As projeções do próprio Banco Central indicam inflação em torno de 3,2% no terceiro trimestre de 2027, que é o horizonte relevante da política monetária no regime de metas contínuas, olhando seis trimestres à frente. Ou seja, o BC hoje está mirando a inflação do segundo semestre de 2027, e os números projetados já estão relativamente próximos da meta.
Ainda assim, o Comitê reforça que, apesar dos sinais mais claros de desaceleração da inflação, a política monetária deverá permanecer restritiva por um período prolongado, até que a inflação esteja firmemente sob controle e as expectativas estejam ancoradas. Na prática, isso significa que não devemos sair de uma Selic de 15% para um patamar baixo rapidamente. A tendência é um movimento em degraus, levando a taxa para algo como 12%, 12,5% ou 13% ao longo do tempo — ainda um juro bastante elevado.
Vale lembrar que, segundo as próprias estimativas do Banco Central, o juro neutro nominal está em torno de 8% a 8,5%. Portanto, mesmo com cortes, continuaremos com juros significativamente acima do nível neutro. Haverá, sem dúvida, algum alívio para a economia brasileira, o que é uma boa notícia, mas o custo do crédito seguirá alto.
Por fim, outro tema que circula no mercado é a possível indicação de novos diretores para o Banco Central. Um dos nomes é o de Guilherme Mello, economista extremamente técnico, muito qualificado e amplamente respeitado. Outro nome mencionado é o de Tiago Cavalcanti, também doutor por Cambridge UK e igualmente técnico e brilhante. Caso essas indicações se confirmem, seriam dois excelentes reforços para o Copom.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



